| A geografia
comercial do centro da Feira
O final de ano é a época
mais favorável para a economia brasileira. É quando muitos
trabalhadores recebem o décimo-terceiro salário, injetando
recursos no comércio. É quando os demais agentes econômicos
também recebem gratificações adicionais ou, simplesmente,
se endividam para financiar a fartura que marca os festejos do final de
ano.
Nas indústrias essa fartura chega
um pouco antes, já que a produção se acelera no início
do terceiro semestre, para que os produtos estejam nas lojas no início
do trimestre seguinte. No fim da cadeia, o comércio mostra
se as pessoas estão otimistas e, portanto, gastam mais, enchendo
as lojas. Em tempos de retração e desemprego as vendas caem,
porque aumenta o temor de dívidas. Aí então os comerciantes
se lamentam e o povo reclama do governo.
Feira de Santana é uma cidade
comercial e, por natureza, aqui é mais fácil visualizar os
costumeiros solavancos da economia. Isso por dois motivos: o primeiro é
que a cidade tem uma população significativa, com poder aquisitivo
maior que nos demais municípios da região. Logo, as pessoas
residentes aqui compram mais. O segundo motivo – e o mais importante –
é que a condição de entreposto comercial atrai fluxos
de consumidores de cidades próximas e até mais distantes.
No período natalino, quando as
coisas vão bem na economia e as pessoas têm dinheiro, uma
agitação febril toma conta da Feira de Santana. As ruas comerciais
se enchem, vendedores se esgoelam em pregões nas portas das lojas,
os consumidores pechincham e avaliam cuidadosamente os produtos. Ao final
do dia os pontos se enchem e incontáveis sacolas e uma alegria ruidosa
tomam conta dos ônibus.
Detalhes
Essa descrição é
trivial, comum a qualquer cidade, até tentarmos entender o movimento
no centro comercial da Feira de Santana. Um exame mais detalhado permite
enxergar quais ruas e avenidas atraem os mais ricos, os mais pobres e os
que residem em outros municípios. A diversidade e a capacidade de
atender a uma vasta clientela contribuem para a cidade se constituir em
referência comercial.
Os mais abastados normalmente são
vistos circulando pelos shoppings ou pelas lojas mais sofisticadas do centro
da cidade. Estas não têm exatamente um local de predominância:
espalham-se aqui e ali, na Senhor dos Passos ou na Getúlio Vargas,
às vezes próximas a lojões populares. Os mais ricos
quase sempre evitam multidões e voltam para casa de carro.
Os pobres acotovelam-se nos espaços
mais identificados como o povão: Marechal Deodoro, Sales Barbosa
e ruas próximas, onde se multiplicam as bancas com roupas e o apelo
dos preços baixos. São esses que lotam os pontos de ônibus
e enfrentam filas, aglomerações e empurra-empurra em busca
dos preços que se ajustam ao orçamento apertado.
Já os visitantes de outros municípios
compram bastante nas lojas populares, ensaiam alguma ostentação
nos espaços mais sofisticados, mas predominam mesmo é nas
imediações do Centro de Abastecimento. Quase sempre é
por ali que estão os produtos adequados aos consumidores dos pequenos
municípios e outros, residentes na zona rural.
“Feiraguai”
Mas, na Feira de Santana, a “Terra Prometida”
do consumismo é o “Feiraguai”. É lá que todos se irmanam:
o rico, o pobre e o forasteiro das vizinhanças. Ali se vê
o rico que vai comprar o tênis “apenas para caminhar de manhã
cedo”, o pobre que não pode comprar aparelho de DVD nas lojas do
ramo e o forasteiro que ainda se encanta com as “modernagens” eletrônicas.
Ao lado do Centro de Abastecimento, hoje, é a grande referência
comercial da cidade.
No Natal de 2007 o universo conspira
a favor dos consumidores de produtos importados. Além das expectativas
favoráveis em relação à economia, que parece
estar ingressando num ciclo de crescimento sem turbulências, a cotação
do dólar presta imensa contribuição, já que
nos últimos meses permanece abaixo de R$ 2.
Nos próximos dias a movimentação
deve se intensificar bastante pelas ruas do centro. Torçamos para
que o calor castigue menos o consumidor feirense e as expectativas de maior
crescimento se confirmem, no próximo |