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André Pomponet

A Semana Santa contaminada pela política

27 de março de 2016 | 10h 49
A Semana Santa contaminada pela política

A Semana Santa é um dos feriados mais valorizados pelo feirense. Em parte, essa importância se deve às sólidas tradições católicas que, ainda hoje, inspiram parcela significativa da população local. Mas isso apenas em parte: apesar dos ritos solenes, do respeito e da reverência à crucificação de Jesus Cristo, o período tem, também, suas celebrações profanas, sobretudo aquelas relacionadas à ceia, que é consumida na Sexta-Feira da Paixão, ápice da celebração católica.

                Noutros tempos, o período era revestido de rigor solene: durante toda a Quaresma, às quartas e sextas-feiras, comia-se apenas peixe; o pescado era obrigatório também entre a quarta e a sexta-feira santas. Nessa data, a propósito, os católicos mais engajados praticavam o jejum, como forma de penitência, ante os sofrimentos impostos a Jesus Cristo. O silêncio era outra característica comum à Semana Santa.

                Com o passar dos anos, no entanto, as tradições foram se flexibilizando e o jejum das sextas-feiras foi substituído por uma ceia robusta, que além do peixe tradicional, é acompanhada do caruru e do vatapá – pratos típicos da culinária afro-baiana – e de, em casos específicos, generosas doses de vinho. A data, que antes era objeto de silêncio e reflexão, migrou para uma celebração em torno de mesa farta.

                Assim, essa mudança de mentalidade se traduz, ao longo da semana, em significativo afluxo para o Centro de Abastecimento e para as feiras-livres, à procura dos condimentos necessários para os pratos tradicionais. O peixe, a castanha de caju, o quiabo, o azeite de dendê e, às vezes, até a cebola e o tomate sobem de preço, mesmo nas épocas de inflação moderada. Inúmeras reportagens apresentam a cotação dos preços desses produtos para zelosas donas-de-casa.

                Ódio

                O dinheiro mais curto para os preparativos da ceia, os preços mais elevados dos produtos – que se somam à elevação das demais despesas domésticas – insistem em trazem para o orçamento familiar a crise econômica – e política – que ocupa o noticiário no Brasil desde meados de 2014 e que, neste 2016, vão ofuscar as celebrações católicas pela morte e ressureição de Jesus Cristo.

                Os sentimentos comuns à celebração cristã do período, a propósito, estão em baixa: nas ruas, na internet e nas redes sociais, nas filas, nas escolas, no trabalho e nas mesas de bar o que prevalece é o antagonismo temperado pelo ódio. E esse ódio gravita em torno de uma única questão: o impeachment ou não da presidente Dilma Rousseff (PT), reconduzida para o cargo, pela via eleitoral, em 2014.

                Ao longo da Quaresma, que noutros tempos era época de temperança, o ódio efervesceu a temperaturas inéditas no País. Uma camiseta vermelha ou uma bandeira brasileira são capazes de despertar instintos bárbaros, que provocam até mesmo o desejo de supressão física do antagonista. Exatamente como ocorria na primeira metade do século passado e que, pensavam muitos, constituía algo superado em nossa civilização.

                A mensagem de Jesus Cristo, que permeia o Evangelho, é a do amor ao próximo. No Brasil de hoje, no entanto, muita gente prefere aferrar-se ao Antigo Testamento e à sua retórica beligerante que, supostamente, foi superada pelos ensinamentos cristãos. Na Sexta-Feira Santa, degustando o peixe temperado pelo dendê, entre um gole e outro de vinho, devíamos perceber que o ódio não é bom conselheiro; e que aqueles que são movidos por ele jamais conseguiram constituir obra duradoura.



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