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Saúde

Hospitais se dizem sobrecarregados e pacientes sofrem para serem atendidos

JULIANA VITAL - 19 de março de 2015 | 09h 59

Diretora de Fundação Hospitalar estima que faltam 100 leitos em Feira

Hospitais se dizem sobrecarregados e pacientes sofrem para serem atendidos

Mesmo com uma ação do Ministério Público contra o estado da Bahia, ajuizada no dia 13 de janeiro, solicitando transferência para uma unidade (pública ou até mesmo particular) que atenda a sua necessidade,  o bebê Paulo Vitor, que nasceu com problema cardiológico  e necessita de uma cirurgia de alta complexidade se  encontra há 50 dias na UTI neonatal do Hospital da Mulher, que recebe pelo menos 3 casos como este por mês.

Leia também: Hospital da Mulher suspende novos atendimentos

De acordo com médicos do hospital, o estado dele é grave porém estável. Sobrevive graças a medicamentos e necessita da cirurgia o quanto antes. Ele tem inclusive, condições de aguardar pela cirurgia em um leito de UTI pediátrica, o que já foi solicitado pelo Hospital da Mulher para a Sesab, sem sucesso. 

A vaga da UTI neonatal ocupada por Paulo Vitor, nascido há 50 dias, poderia servir para outros bebês que nasceram também com necessidade do atendimento na UTI neonatal. "Há um bebê internado improvisadamente no centro obstétrico que necessita estar em um leito de UTI neo, mas não podemos tirar um para colocar outro. Estamos lutando para conseguir a transferência deste bebê, mas estamos reféns da falta de leito, é a resposta que temos da central de regulação", comenta a diretora da Fundação Hospitalar, Gilbert Lucas. Apenas um hospital na Bahia e um em São Paulo são aptos para fazer a cirurgia.

Eram dois bebês à espera de uma vaga. Mas um deles, que nasceu com gastrosquise (exteriorização das vísceras por defeito na parede abdominal) foi encaminhado na noite de terça-feira (10) para o Hospital Estadual da Criança (HEC), onde foi operado.

No HEC, existem 10 leitos de UTI para regulação, 10 leitos UTI para pacientes crônicos, 10 leitos UTI /Neo e 10 leitos para berçário. Um total de 40 leitos para atender Feira de Santana e uma extensa região.

Na semana passada também houve um novo caso de mulher que chegou ao hospital em trabalho de parto avançado e teve o bebê no sofá da recepção. "Estas pacientes já chegam em fase avançada do parto e em questão de minutos dão à luz. Não tínhamos leito para receber ela. Ainda assim nossa equipe a atendeu e realizou o parto ali mesmo. Fizemos o que foi possível, tanto que quando o parto foi feito, a acolhemos dentro das nossas possibilidades. Assim que surgiu o leito ela foi encaixada", comenta Gilbert.

São exemplos da defasagem de leitos nos hospitais. De acordo com a gestora do hospital da Mulher, a defasagem é de pelo menos 100 leitos em obstetrícia em Feira de Santana. O Hospital da Mulher atende sempre acima de sua capacidade realizando somente no ano passado 7590 partos e curetagens. Foram realizados 18.349 procedimentos na emergência. Em janeiro deste ano foram registrados 813 partos. 

O hospital tem 82 leitos para obstetrícia, 8 leitos UTI neo, 7 berçários para  médio risco, 6 leitos para o projeto mãe canguru,  11 leitos da casa da puérpera  (quando as mães de outras cidades precisam ficar no hospital para acompanhar o bebê que necessita ainda ficar internado).

Hoje o hospital da mulher tem 75% do seu recurso pago pelo  municipio,  os 25 % vem SUS, segundo Gilbert. Ela garante que se dependesse do SUS o hospital estaria fechado. O custo para manter o Hospital da Mulher hoje ultrapassa R$ 2 milhões por mês.

Para Gilbert, a regulação na obstetrícia ajudaria a organizar esta demanda excedente e muitas vezes desnecessária. "Quando houver a obrigatoriedade da regulação das pacientes, os municípios do interior passarão a ser obrigados a se adequar e atender partos de baixa complexidade e também curetagens, desafogando nosso atendimento. Não temos como impedir que as pacientes venham. Quando elas chegam, mesmo sem vaga não podemos negar o atendimento", conclui.

Além de Feira, o Hospital da mulher atende a 88 municípios. Entre 35 e 38 %  do atendimento mensal é de pacientes  destes municípios.  Para Gilbert  "a falta de vaga no estado todo é grande. Nos últimos anos vêm diminuindo os leitos e aumentando o número de pacientes.  Muitas pessoas deixaram de ter plano de saúde por não conseguir pagar e aderiram aos serviços públicos", constata.  

A diretora da Fundação Hospitalar acredita que uma solução a longo prazo é fortalecer a atenção básica de saúde para que haja prevenção, mas enquanto não muda esta realidade, é preciso mais leitos. "Não adianta construir UPA sem leitos para internamento. Casos de especialidades não necessitam de atendimento de urgência. Faltam leitos para o tratamento de pacientes", critica.

Embora o Hospital da Mulher também os faça, os atendimentos de alta complexidade são de responsabilidade do estado. Portanto, em Feira, estão a caro do Hospital Geral Clériston Andrade, que possui 28 leitos de obstetrícia, 5 leitos de UTI Neo Natal e 12 leitos de berçário. O hospital afirma que há também uma equipe multidisciplinar sempre de plantão para atender aos casos mais graves e 3 obstetras de plantão.

"Acredito que nós temos leitos suficientes para atender a demanda de alta complexidade da região que nos compete. O problema é que acabamos atendendo o estado inteiro, muitas grávidas inclusive de baixa e média complexidade acabam parando aqui para fazer o parto porque não acharam vagas em outros lugares. E nós atendemos todos os casos. Já chegamos a atender em um dia 32 partos, isso com certeza dificulta tudo, porque deveríamos apenas atender a alta complexidade", afirma José Carlos Pitangueiras, diretor do hospital.

Além de Feira de Santana, o Clériston atende a mais 127 municípios. Conta  atualmente conta com 303 leitos, mas o diretor diz que sempre atende acima de 400 pessoas diariamente.

Com a promessa da construção de um novo hospital geral pelo Sesab, o atual secretário de Saúde do Estado, que esteve visitando as instalações do hospital nesta semana, afirmou que há a possibilidade do Clériston se tornar um hospital materno - infantil. "São planos apenas, estamos aguardando a chegada deste novo hospital para confirmarmos estes novos investimentos", comenta o diretor.

 

Particulares reclamam de 11 anos sem reajuste

A falta de leitos em obstetrícia também se reflete nas maternidades particulares conveniadas ao SUS. A única da cidade nesta condição é a Materday, que oferta 46 leitos pelo SUS e realiza entre  400 a 500 internamentos pelo SUS por mês em ginecologia e obstetrícia. O hospital atende somente casos de baixa e média complexidade, pois não tem UTI neonatal nem adulta.

Segundo a direção, os valores repassados pelo SUS para cobrir os custos hospitalares são de R$260 por parto normal e R$ 390 por parto Cesário, o que não representaria nem 20% do custo.

De acordo com o administrador do hospital, fechar as contas com os recursos do SUS é muito difícil. "Há 11 anos não há reajuste da tabela do SUS o que tem tornado o atendimento cada dia mais difícil. Temos tentado com o recurso que recebemos dar o melhor atendimento possível ao paciente, mas tem sido cada dia mais difícil. Tanto que não conseguimos ampliar os serviços e sim pensamos em diminuir leitos", afirma Robson de Queiroz Silva.

O Hospital dispõe de 55 funcionários, um plantonista obstetra e um pediatra 24 horas por dia, que atendem em média de 15 a 20 internamentos diariamente. Além de Feira, o hospital atende a mais 25 municipios pactuados - metade dos  internamentos é de Feira e metade de fora, até de municípios a 400 km de distância.

 

Sesab ressalta que partos são responsabilidade dos municípios

A Sesab (Secretaria de Saúde do Estado) diz que a assistência ao parto cabe aos municípios, embora mantenha também uma rede de maternidades (Instituto de Perinatologia da Bahia, com 111 leitos, Maternidade Albert Sabin, com 82 leitos, Maternidade Professor José Maria de Magalhães Netto, com 331 leitos e Maternidade Tsyla Balbino, com 94). Só a maternidade Professor José Maria de Magalhães Netto assume os casos de alta complexidade.

Segundo a Sesab, ao todo na Bahia são 4.484 leitos obstétricos, sendo 3.834 SUS e os outros 650 da rede privada ou filantrópica. Em UTI Neonatal a Bahia tem 324 leitos, sendo 195 pelo SUS.



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