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André Pomponet

A Era Cunha

André Pomponet - 22 de abril de 2016 | 10h 57
A Era Cunha

            Peço licença àqueles mais afeitos à precisão dos conceitos acadêmicos e ao rigor metodológico para lançar uma especulação que, talvez, o futuro próximo confirme como fato. Trata-se de cogitar que, desde o ano passado – talvez meados de 2014, logo após as eleições presidenciais – mergulhamos na Era Cunha. Noutras palavras, defendo que, assim como vivemos as eras Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Lula (2003-2010), estamos vivendo um período em que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) dá as cartas na política nacional, mesmo não exercendo, diretamente, a presidência da República.

                A Era Cunha sustentou-se, até aqui, no vácuo de poder deixado por Dilma Rousseff (PT), em vias de ser deposta por manobra articulada por Eduardo Cunha. E tende a se sustentar – sabe Deus até quando – na tibieza de caráter e na conjuntura frágil que envolve o sucessor da petista, Michel Temer (PMDB). O leitor mais atento enxergará, a princípio, incoerência na proposição. Uma análise mais atenta do cenário, porém, permite outras interpretações.

                Presidente sem agenda no segundo mandato, Dilma Rousseff foi atropelada pela  ´´Agenda Cunha´´: da algibeira do parlamentar saltaram propostas medievais – a exemplo dos estatutos do nascituro e da família, além da burocratização do aborto em caso de estupro – que levaram ao êxtase os segmentos mais conservadores da sociedade, sobretudo os encastelados nas igrejas.

                De quebra, Eduardo Cunha avançou voraz sobre os direitos dos trabalhadores, acelerando propostas como a precarização do trabalho, via terceirização, já encaminhada ao Senado. Noutra frente, empenhou-se pelo perdão das multas milionárias das operadoras de saúde e, afagando o infindável emaranhado de siglas evangélicas Brasil afora, conseguiu-lhes, também, mimos tributários.

                Tudo isso em um clima de evidente confrontação com o governo petista, que em tese deveria dificultar seus movimentos. Poucos meses depois de saltar da condição de quase figurante da cena política brasileira, Eduardo Cunha se tornou, na marra, o principal protagonista da grande tragédia política na qual o Brasil se arrasta desde as eleições presidenciais.

                Era Cunha II

                E, pelo jeito, não vai parar por aí: o deputado carioca foi o principal arquiteto da trama do impeachment, articulando uma maioria fisiológica que votou em nome de tudo – Deus, família, quinhão natal –, menos no mérito do tema. Muitos lhe reconhecem o protagonismo na farsa e pretendem, desde já, mimoseá-lo com um despudorado perdão no processo que lhe movem no Conselho de Ética.

                Como se não bastasse, Eduardo Cunha é parceiro de longa data de Michel Temer, o presidente sem-voto. Nem é preciso ser muito inteligente para perceber que, com poderes ampliados, o deputado carioca vai, de fato, consolidar sua era, vergando a trôpega civilização brasileira e avançando com sua pauta retrógrada. Isso para não mencionar seus talentos acessórios, que, como todos sabem, vem se desdobrando em diversos processos no STF...

                Paradoxalmente, o que pode encurtar a Era Cunha é a catastrófica situação da economia brasileira: sem respaldo político e sem talento, Michel Temer pouca contribuição dará para resgatar o País do atoleiro no qual Dilma Rousseff o mergulhou. Cunha, por sua vez, passa ao largo desses temas espinhosos, feliz com seus resultados pessoais e sua agenda anacrônica.

                Confirmando-se essas expectativas, a nova situação, ora em ascensão, pode chegar em 2018 tão desgastada quanto o PT nos dias atuais. Dessa forma, talvez fique difícil fazer sucessor, com o brasileiro aperreado pela situação da economia, à espera de resultados prometidos que dificilmente chegarão. A cota de sacrifício para essa hipotética redenção, no entanto, já vai ser cobrada em breve.

Fazer sucessor na presidência, no entanto, é problema menor: a caterva que suprimiu o mandato de Dilma Rousseff com um sopro pode, muito bem, fazer eleições sob encomenda daqui a dois anos. Ou nem fazer eleições, a depender da circunstância. Afinal, estamos avançando, desabalados, pela Era Cunha...

                



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