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André Pomponet

Da República das Bananas à República Velha

André Pomponet - 20 de maio de 2016 | 09h 45
Da República das Bananas à República Velha

                Se eu fosse professor de História recomendaria aos meus alunos que acompanhassem, com a máxima atenção, o noticiário sobre a gestão do presidente interino Michel Temer (PMDB).  Não pelo que ele revela sobre os dias atuais, mas pelo que desnuda em relação ao passado que alguns, mais distraídos, supunham superado. A começar pelo lema escolhido: Ordem e Progresso, a máxima positivista que fez algum sucesso lá na Europa, em meados do século XIX, e que embalou os militares que, por aqui, instituíram a chamada República Velha (1889-1930).

                A composição do ministério também traz embutida, nas entrelinhas, uma lição cristalina sobre o passado: é basicamente composta por homens brancos, maduros e endinheirados. Os poucos jovens descendem da estirpe de coronéis, que chancelaram os nomes dos pimpolhos. Lembra a primeira metade do século XX, quando mulher não votava e negros e pardos figuravam na base da pirâmide social e, analfabetos, também não tinham direito a voto.

                No discurso de posse, o vocabulário antiquado, fora do uso corrente há décadas, chamou a atenção em relação à forma; quanto ao conteúdo, as promessas de “tudo para todos” sustentaram forte aderência em relação ao passado, lembrando os demagógicos comícios de outras épocas. “Medidas duras” e “ajustes” figuraram, ora como generalidade, ora como platitude, sem nenhuma densidade.

                 Ninguém mencionou, mas o balcão – essa instituição que atravessou todas as eras da política brasileira – continua à toda, com barrigas se esfregando, frenéticas, à cata de mimos e vantagens, dos dois lados. A própria composição do ministério mostrou que esse foi o principal critério empregado. Isso apesar da cômica promessa do recrutamento de “notáveis” para conduzir os destinos do País...

                A operação “Lava Jato” foi mencionada e arrancou meia-dúzia de palmas pouco empolgadas. É que, entre os ministros festivamente empossados, estavam vários encrencados com a investigação. O mote da corrupção, que alavancou a deposição de Dilma Rousseff (PT), também foi usado em 1964, contra João Goulart. Foi esquecido logo depois, ao longo da ditadura militar, exatamente como já acontece em 2016, em pleno século XXI.

                E o novo?

E o que parece novo, paradoxalmente, guarda semelhanças com a Idade Média. É a ascensão das lideranças religiosas conservadoras – os chamados pastores evangélicos –, fieis acólitos do festejado presidente interino. Ruidosas comemorações já antecipam que esse papo de “gênero” e “diversidade” vai ser enterrado, para êxtase dessa gente. Isso é o que circula nos bastidores e que os próximos dias – ou meses – vão confirmar ou não.

                Até num ministério Michel Temer enfiou um desses pastores: na pasta de Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Caso a pujança econômica seja rapidamente resgatada, não duvido que o novíssimo presidente compareça a um desses programas de televisão para narrar o “milagre” da recuperação da economia brasileira. Secundando-o, talvez sejam vistos incontáveis fieis brandindo carteiras de trabalho assinadas. Seria o lance mais pitoresco dessa inesperada imersão no passado.

                Por fim, pululam os discursos que enaltecem o liberalismo cafona que fez muito sucesso por aqui quando o Brasil produzia apenas banana, café, cana-de-açúcar, cacau e borracha, produtos remetidos para os mercados externos. Os mais exaltados sequer escondem a ânsia de ver o País novamente gravitando, docilmente, sob a órbita da política externa norte-americana, exatamente como já foi muito mais no passado. Industrialização, diversificação da matriz produtiva e desenvolvimento científico e tecnológico não cabem nesse projeto de nação, resgatado do século XIX.

                E toda essa trama se desenrola com uma sutil semelhança com o passado que, acreditava-se, estava superado: o festejado programa de governo – muito diferente daquilo que a chapa vencedora vendeu nas eleições de 2014 – não foi chancelado pelo eleitor brasileiro. Exatamente como sempre ocorreu na triste história deste País...

               

                



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