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André Pomponet

Futurologia econômica em tempos de crise

14 de abril de 2015 | 14h 38
Futurologia econômica em tempos de crise

 

Desde meados do ano passado que a crise econômica ganhou lugar cativo no noticiário. Só perde para a incessante torrente de reportagens sobre a operação Lava Jato e a roubalheira na Petrobras. O cenário que se desenha no curto prazo não é nada animador: além da recessão – com todas as suas implicações sobre o aumento do desemprego e a queda no ritmo de investimentos – existe a inflação, que vai ganhando musculatura ao ritmo da elevação das tarifas públicas. Combinação tão perversa costuma, inclusive, ser rara na economia.

                A crise econômica, porém, não veio sozinha: soma-se à crise política que desarranjou a base governista no Congresso Nacional que, por sua vez, foi alvejado com os resultados da operação Lava Jato. A turbulência e a incerteza políticas contribuem para tornar ainda mais nebuloso o cenário econômico no curto prazo. Pior cenário, impossível.

                A conjunção de desarranjos vem dificultando, até mesmo, qualquer estimativa sobre quanto a economia brasileira vai encolher e durante quanto tempo. Por enquanto, a única aposta consensual é que 2015 vai ser ano perdido – com PIB negativo – mas ninguém arrisca um prognóstico. Justamente porque está difícil dimensionar a própria extensão do quiproquó político e seus efeitos sobre a atividade econômica.

                O certo é que o ciclo de prosperidade da última década expirou: a expectativa é que os brasileiros, a partir daqui e sabe Deus até quando, terão menos renda e menos oportunidades de trabalho. A presidente Dilma Rousseff e seu staff, porém, asseguram que a situação é passageira e que, ainda neste 2015, os primeiros sinais de recuperação serão visíveis. Pouca gente comprou essa pule, até aqui.

                O fato é que a crise chegou firme, inclusive à Feira de Santana. Ano passado – depois de um prolongado intervalo de saldos positivos – houve retração no mercado formal de trabalho no município. Boa parte das perdas se deveu à construção civil, aonde centenas de postos de trabalho foram extintos. O tímido crescimento dos demais setores não atenuou essas perdas. A expectativa é que essa retração prossiga nos próximos meses.

                Dólar

                Outro segmento que já enfrenta as primeiras dificuldades é o comércio informal, cujos produtos costumam ser importados da China. Com a elevação do dólar – nos últimos dias a moeda americana oscila acima dos R$ 3,20 – esses produtos ficam mais caros, afastando parte da clientela. No Feiraguai, conforme se especula, as vendas já caíram cerca de 30%.

                Há, também, dificuldades do lado da demanda: quem frequenta os centros de comércio popular é aquela parcela da população pertencente à outrora badalada Classe C. Com desemprego crescente e menos dinheiro circulando, esse segmento fica mais arisco, avesso a gastos que não sejam indispensáveis. Na Feira de Santana, boa parte da população encaixa-se nessa faixa de renda.

                As dificuldades econômicas que se anunciam não devem produzir efeitos apenas sobre o mercado informal. Segmentos que experimentaram vendas expressivas no boom que se prolongou por vários anos também serão afetados, como os eletroeletrônicos, a exemplo de celulares e toda a parafernália digital. Esse setor, a propósito, também cresceu com a Classe C.

                O boom imobiliário, por sua vez, conforme atesta a retração no volume de lançamentos e a dispensa de trabalhadores, também caminha para o final. O mercado de imóveis mais sofisticados encontra-se saturado e os empreendimentos voltados para a população mais pobre esbarra nas próprias dificuldades fiscais do governo federal.

                Em suma, a crise terminará afetando todo mundo, com variáveis graus de intensidade. Quando o cenário político tornar-se mais claro – o que, espera-se, ocorra em breve – será possível retomar prognósticos, tentar enxergar através da névoa que dilui as certezas, sondar o médio prazo. Por enquanto, em função da perversa conjunção de crises, é impossível exercitar a futurologia.          



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