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André Pomponet

A peleja dos boxes de artesanato contra o Shopping Popular

André Pomponet - 27 de novembro de 2017 | 12h 03
A peleja dos boxes de artesanato contra o Shopping Popular

As obras do badalado shopping popular avançam velozmente no Centro de Abastecimento. Parte da estrutura, inclusive, já está coberta. Tapumes metálicos impedem que os curiosos examinem com mais vagar a obra, cujos ruídos ressoam no teto metálico e vão morrer em meio ao burburinho da efervescente praça do Tropeiro. As máquinas emitem ruídos monótonos e os operários, frenéticos, apressados, se movem, gritando ordens, gesticulando, emprestando vida à construção cinzenta que se empertiga e vai ganhando forma final.

Ali do lado o cenário é desolador. Parte dos boxes do setor de artesanato já veio abaixo. Avolumam-se restos de construção. Sobram o ferro retorcido, o entulho avermelhado recoberto por uma camada de poeira que doideja no ar. Aquilo lembra destroços de guerra. Próximos, imponentes, os tratores luzidios que aguardam o momento de pôr abaixo o que resta daquelas construções de teto acinzentado e tijolos aparentes, vermelhos, já desbotados pelo tempo.

Espantosamente, a poucos metros das toneladas de entulho, alguns comerciantes resistem, teimam em não sair. Portas metálicas levantadas, produtos em exposição, letreiros sinalizando a especialidade da loja. Há consumidores transitando por ali também, desviando das máquinas, dos tapumes e do entulho, avançando em meio à poeira avermelhada, que dança vagarosa no ar.

Resta pouco daquele capítulo da História do Centro de Abastecimento. Originalmente, aquele espaço deveria abrigar o comércio de artesanato e, por inércia, reverberar parte da pulsante cultura sertaneja. Para tanto, havia uma arena, acanhada, destinada às atividades culturais. Foi a primeira baixa: meses atrás, se transformou num monte de destroços, de concreto fragmentado e vergalhões retorcidos.

1,8 mil camelôs

Quando for entregue – é o que se promete – o shopping popular vai abrigar 1,8 mil camelôs que sobrevivem do comércio nas ruas centrais da Feira de Santana. O empreendimento está sendo tocado por uma parceria público-privada envolvendo a prefeitura e um grupo empresarial. Promete-se, com a iniciativa, reordenar o centro da cidade e oferecer ocupação àqueles que vivem, há muitos anos, com suas bancas e barracas ofertando uma infinidade de produtos.

A obra caminha para a conclusão, mas o que menos se vê é consenso. Aqueles que trabalhavam nos boxes de artesanato resistiram, mas estão saindo aos poucos: intuem prejuízos futuros com a remoção; quem labuta como camelô pelo centro da cidade tampouco está satisfeito: desconfiam dos mesmos prejuízos, com o agravante que deverão pagar pelos espaços ocupados no badalado empreendimento.

Como desgraça pouca é bobagem, muita gente teme que os chineses e seu capital se apropriem do novo empreendimento, alijando os nativos. O temor não é infundado: rostos orientais – coreanos e chineses – dão o tom nos incontáveis centros de comércio popular espalhados pelo centro antigo da capital paulista. São maioria absoluta naqueles boxes minúsculos que vendem do fone de ouvido ao condicionador importado, do pen drive ao adereço para a parede.

Para conter o avanço – as especulações pelas ruas da cidade fervilham – a prefeitura anunciou que só poderão ocupar os espaços brasileiros natos ou naturalizados, priorizando camelôs e ambulantes previamente cadastrados. A medida é suficiente para assegurar a reserva de mercado? Manobras para contornar restrições do gênero são comuns no Brasil. Os exemplos pululam.

E o Centro de Abastecimento?

Simultaneamente àquele drama, o Centro de Abastecimento segue funcionando. Entre os galpões de carnes e o galpão de cereais motoristas tentam estacionar, flanelinhas orientam manobras com gestos teatrais, donas-de-casa transitam com sacolas, tabaréus trocam dois dedos de prosa trajando gibão de couro, vendedores de verduras e hortaliças exaltam a qualidade de seus produtos e muita gente descansa sob a sombra dos galpões, resguardada do sol inclemente.

Pelos galpões, açougueiros manejam facões com perícia cortando carne, vendedores pesam a linguiça e a sal presa para o cliente, alguns se dedicam a devorar generosas porções de ensopado com cuscuz, outros pesam a farinha e o feijão e há quem arrume com capricho produtos diversos nas prateleiras dos boxes. Aparentemente, as intervenções vão se esgotar com a construção do badalado equipamento, encrustado na área do Centro de Abastecimento.

Em meio aos conflitos e à desinformação, os boatos circulam. Há quem fale, até mesmo, na remoção das demais atividades do Centro de Abastecimento, na construção de um novo entreposto. A conversa é antiga, às vezes vem à tona, mas agora ressurge num contexto diferente, depois que área expressiva foi destinada a atividade comercial diversa da tradicional.

Os movimentos do capital imobiliário costumam ser lentos, mas quando desencadeados, transformam drasticamente os espaços. E a área do Centro de Abastecimento é tentadora: ampla, central, acessível e rara numa época de intensa de exaustão dos espaços disponíveis.



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