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André Pomponet

A lição dos clichês eleitoreiros de João Dória

André Pomponet - 27 de dezembro de 2017 | 10h 58
A lição dos clichês eleitoreiros de João Dória

Há um ano estava em São Paulo no dia da posse de João Dória como prefeito da capital paulista. Confesso que fiquei tentado a comparecer à cerimônia. Mas havia o inconveniente do deslocamento logo cedo em dia de feriado e faltava-me, até mesmo, um terno para acompanhar a solenidade. Por isso desisti. Não votei no candidato, mesmo porque não voto em São Paulo. Mas aquela posse parecia cercada de uma importância ímpar e, por essa razão, espantei a letargia típica dessa semana de festejos e quase compareci ao elegante prédio da Prefeitura, ali nas imediações da avenida 23 de Maio e do viaduto do Chá.

Percebi a peculiaridade daquele momento desde a campanha eleitoral. Afinal, o prefeito paulistano prometia, a todo momento, “fazer mais com menos”. E estampava, com naturalidade, o rótulo de “gestor”, embora, até então, tenha se notabilizado mais como apresentador de um desses intragáveis reality show. Mas se elegeu logo no primeiro turno, com o voto entusiasmado do paulistano.

Fazer "mais com menos" é algo revolucionário. Subverte a lógica capitalista convencional e, na administração pública, confere o condão da resolução de todos os problemas crônicos que afligem o cidadão. Era, portanto, algo ímpar, singular, sui generis, que exigia presença in loco. Porém, a ausência do terno aludida acima era mera desculpa: confesso que não fui porque achava o “mais com menos” mero clichê de marqueteiro. Não me enganei.

João Dória passou meses produzindo uma densa cortina de fumaça midiática: num momento, apareceu travestido de gari; noutro, agasalhou um morador de rua numa friorenta madrugada paulistana; noutro instante, demitiu uma secretária municipal – inclusive com gravação de vídeo – numa cena digna desses grotescos reality show. Até a distribuição de uma espécie de “ração” humana, na rede escolar, foi cogitada, mas rechaçada depois da péssima repercussão.

Dinâmico, noutra trincheira o candidato cavoucava uma candidatura à presidência da República. A cruzada eleitoral rendeu pitorescas homenagens Brasil afora – em Salvador alvejaram-no com um ovo momentos antes da solenidade – e insinuações de que pretendia aplicar uma rasteira no seu mentor e padrinho político, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB-SP).

A essas alturas o leitor indaga, curioso, sobre o que foi feito do “mais com menos”. Pois bem: lixo espalhado se tornou rotina em São Paulo, mesmo nos bairros elegantes da zona sul; a frota de ônibus escolheu e a espera nos pontos aumentou; e, reconhecida por sua profusão de luzes, São Paulo ficou mais escura até mesmo nas movimentadas marginais. Tem faltado, portanto, até mesmo o trivial da manutenção urbana, aquela zeladoria pouco criativa à qual se limita a maioria dos prefeitos.

Não foi à toa que a avaliação positiva do performático "gestor" caiu assustadoramente, frustrando suas ambições de chegar à presidência da República. Alçado ao comando do maior município da América do Sul no vácuo do virulento antipetismo, João Dória parece mais um desses anedóticos prefeitos que já passaram por São Paulo, a exemplo de Jânio Quadros, Paulo Maluf ou Celso Pitta.

O que fica de mais importante é a lição: o “mais com menos” ou o brilhante “gestor” oriundo do setor privado não passam de bem elaborados clichês de marqueteiros espertos. Só depois da eleição é que se enxerga a extensão do desastre do marketing embusteiro, como o demonstrou, na outra ponta do espectro ideológico, Dilma Rousseff (PT).

Em 2018, a propósito, ocorrerão eleições. Vamos aguardar para ver qual será o baratino da temporada para enganar o eleitor...



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