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André Pomponet

Populismo é a expressão que estigmatiza hoje no Brasil

André Pomponet - 18 de janeiro de 2018 | 20h 52
Populismo é a expressão que estigmatiza hoje no Brasil

Os termos das eleições presidenciais de 2018 já estão colocados desde meados do ano passado. Faltam nomes consistentes, falta diálogo, falta unidade, mas o script já foi desenhado pelo mercado financeiro – o “deus mercado” dessa era de desenfreada exaltação do vil metal – e reverbera através dos meios de comunicação a partir das vozes da elite política do País. Resta saber se os eleitores – o brasileiro sofrido que padece desempregado, subempregado, se virando no biscate, às voltas com o aumento do gás, da energia elétrica, dos alimentos – vai se enredar no embuste, elegendo o candidato “de centro”.

O script aponta que existem dois extremistas no pleito: Lula, representando o petê e, supostamente, a esquerda, e Jair Bolsonaro, o capitão reformado do Exército com longa e inexpressiva trajetória parlamentar, encarnando a direita “linha-dura”. A “sabedoria” e a “sensatez” cunhadas para a corrida presidencial indicam que é necessário evitar esses extremos ideológicos.

Como se Lula, no longo interregno presidencial petista, encarnasse a esquerda e Jair Bolsonaro tivesse alguma intenção – por mais distante que fosse – de ferir os interesses do establishment aí solidamente enraizado. A narrativa eleitoral, porém, precisa de “ameaças” que justifiquem a ascensão de um nome mais palatável, que noutras circunstâncias jamais venceria a eleição. Assim, Lula e Bolsonaro exibirão os rótulos de “radicais” e “extremistas”.

Mas a pérola do pensamento liberal nesses tempos é o rótulo de “populista”. Obviamente foi cunhado lá fora e serve tanto para definir a extrema-direita xenófoba no Leste da Europa como o presidente boliviano – e indígena – Evo Morales, bem como a família Kirchner na Argentina ou o truculento Donald Trump nos Estados Unidos. No Brasil, por enquanto, apenas Lula e Bolsonaro foram embalados com o rótulo.

O termo é tão amplo que, objetivamente, não define nada. Mas estigmatiza e, sobretudo, amedronta parte do eleitorado, aquela mais suscetível às sugestões do noticiário e das sentenças do “deus mercado”. Privatização desenfreada, desregulamentação dos mercados, precarização das relações de trabalho e terceirização estão entre os itens que integram a agenda do mercado. É o que existe de salutar na sociedade e constitui o contraveneno ao “populismo”.

Desde a ascensão do emedebismo que essa falácia se espalha Brasil afora. Com a falácia, vieram medidas atrozes, como a terceirização ampla, geral e irrestrita, a reforma trabalhista e o teto de gastos que vai comprimir investimentos em saúde, educação, assistência e previdência social pelas próximas duas décadas. Essas medidas foram exaltadas como “de centro” e se contrapõem ao “populismo” irresponsável. É o que está nas manchetes dos jornais todos os dias.

Supõe-se que, ao longo da corrida eleitoral, o nome “de centro” – Geraldo Alckmin (PSDB-SP), Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Henrique Meirelles (PSD-GO) disputam essa unção – vai se firmar e agadanhar amplas simpatias dos brasileiros, credenciando para tocar essa agenda a partir de 2019. Ironicamente, o povão – alvejado pela redução no Bolsa Família, pelo desemprego, pela elevação das tarifas públicas, pela violência, pela educação sofrível e pela saúde precária – ficará com a função de honrar com seu voto um desses três patriotas.

O script preliminar das eleições presidenciais sinaliza para isso. Resta saber se o povo, castigado pela crise interminável, vai aderir, ingenuamente, àquilo que se repisa dia e noite no noticiário. Mas, caso não o faça, há outros caminhos: respeitados liberais de países ricos – aqui no Brasil, no máximo, se tenta macaquear essa gente – já andam questionando os excessos da população e esse papo de democracia representativa, de direitos, de pobre querer ser gente.

Ninguém duvide que o Brasil se torne um dos primeiros laboratórios dessas novas ideias que restringem a participação popular no processo político. Afinal, o País ostenta uma recente experiência de virada de mesa...



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