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André Pomponet

O impacto da mortalidade masculina sobre a demografia feirense

André Pomponet - 05 de maio de 2018 | 11h 10
O impacto da mortalidade masculina sobre a demografia feirense

Existem muitas formas de analisaro impacto da violência sobre a sociedade. Uma delas, pouco empregada aqui na Feira de Santana, é a comparação do número de homens e mulheres, distribuídos por faixa etária. Dados do Censo 2010 do IBGE fornecem algumas pistas interessantes. É claro que as causas de morte são múltiplas, mas a violência vai produzindo anomalias que não podem ser desconsideradas.

Dados do referido censo informam que, em 2010, havia 20,7 mil meninos e 20,2 mil meninas com idade entre zero e quatro anos. Na faixa dos cinco aos nove anos os meninos seguiam à frente: 22,7 mil contra 21,7 mil, assim como na faixa etária posterior, mas com diferença menor: 24,6 mil para eles e 24,1 mil para elas.

A inversão começa exatamente naquela delicada faixa etária dos 15 aos 19 anos, quando se passa da adolescência à vida adulta: elas eram 25,4 mil, enquanto eles eram 24,7 mil. Na faixa etária posterior – 20 aos 24 anos – a diferença se mantém, mas com distância crescente: os homens somavam 26,2 mil e as mulheres 28,7 mil.

A violência costuma ser a explicação comum para essa inversão na proporção entre os dois sexos. Os jovens estão menos expostos às doenças que costumam provocar a morte da população mais velha; e não existem explicações naturais para os óbitos masculinos se acumularem, enquanto a população feminina permanece quase constante.

Homicídios

Uma das causas da morte precoce está nos acidentes de trânsito. Mais afoitos, mais destemidos e com acesso mais amplo a veículos automotores – até por questões culturais – os homens morrem mais que as mulheres em batidas e colisões. A causa principal das mortes masculinas, porém, é demasiado conhecida: os homicídios.

Ano passado, de acordo com o competente levantamento dos radialistas feirenses, morreram 369 pessoas, vítimas de homicídios, latrocínios e nos famigerados “autos de resistência”. Desse total, 27 eram mulheres, o que corresponde a bem menos que 10% do total.

Outro exemplo ilustrativo, mais recente: no primeiro trimestre de 2018 a espiral de homicídios e latrocínios ceifou 107 vidas. Dessas, oito envolveram mulheres, novamente menos de 10%. Nem é necessário cansar o leitor com pilhas de estatísticas: é patente que o homicídio alcança, sobretudoos homens, particularmente aqueles que vivem a delicada transição da adolescência para a vida adulta.

Perspectivas

A “geografia da morte” ajuda a refinar a análise, facilita o recorte social: quem morre costuma ser alvejado na periferia – Aviário, George Américo e Campo Limpo figuram entre os bairros mais violentos – ou nos bolsões de pobreza encravados no perímetro do Anel de Contorno, como a Queimadinha, a Rua Nova ou as Baraúnas. Como triste novidade, estão os crimes que se avolumam nos conjuntos habitacionais populares construídos nos últimos anos.

De um lado, essa gente frequenta péssimas escolas, vive enfurnada em regiões insalubres, sem saneamento ou condições adequadas de habitação; por outro, está exposta à influência das facções criminosas, que vão crescendo e incorporando novos adeptos dia após dia. Há, aí, uma combinação perversa que oferece poucas alternativas.

Apesar do cotidiano sangrento, no Brasil só se fala em ampliar a repressão, liberar a venda de armas, matar mais. Quem serão os alvos preferenciais? Os jovens negros, residentes nas periferias, pouco escolarizados, que não trabalham e que, segundo a versão recorrente, têm ligação com a criminalidade, sobretudo o tráfico de drogas.

A guerra velada – mas que acumula cadáveres em escala genocida – pode se tornar um combate mais ostensivo, com ações sistemáticas. Inclusão social, hoje, é expressão banida do vocabulário do debate público.



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