Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • 55 75 99801 5659
  • Feira de Santana, domingo, 23 de setembro de 2018

Segurança

Em edital polêmico, PM do Paraná coloca 'masculinidade' como critério em avaliação psicológica

Da Redação - 13 de agosto de 2018 | 15h 00
Em edital polêmico, PM do Paraná coloca 'masculinidade' como critério em avaliação psicológica
Foto: Reprodução

A Polícia Militar (PM) do Paraná abriu concurso, nesta segunda-feira (13), para 16 vagas para cadetes, mas um dos critérios está gerando polêmica. É que a instituição inseriu, no Edital de seleção, a “masculinidade” como um dos 72 critérios da avaliação psicológica, que vai analisar se os candidatos possuem o perfil pré-estabelecido para ocupar o cargo.

De acordo com o G1, podem concorrer homens e mulheres, com idade até 30 anos de idade, podem concorrer às vagas. Entretanto, o número de vagas destinadas às mulheres não pode ultrapassar 50% do total, em respeito à Lei Estadual nº 14.804/2005.

Em nota, ainda segundo o G1, o comando da PM afirmou que houve falha de interpretação, por parte de alguns setores da sociedade, no que diz respeito ao critério “masculinidade”. O objetivo do item, segundo a PM, é “avaliar a estabilidade emocional e a capacidade de enfrentamento, aspectos estes extremamente necessários para o dia a dia da atividade policial militar”. 

O critério “masculinidade” aparece, no Anexo II do Edital, como “capacidade de o indivíduo em não se impressionar com cenas violentas, suportar vulgaridades, não emocionar-se facilmente, tampouco demonstrar interesse em histórias românticas e de amor”. E, ainda segundo o documento, deve ser apresentada em um grau maior ou igual a “regular”.

Conforme o G1, a Aliança Nacional LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Intersexuais) e o Grupo Dignidade consideram o item discriminatório. Em nota de repúdio, as entidades afirmaram que a exigência da “masculinidade” como critério de seleção desconsidera a possibilidade de mulheres se candidatarem às vagas ou quer que elas tenham características masculinas.

“Fere a Declaração Universal de Direitos Humanos e a Constituição Federal Brasileira no que diz respeito à igualdade de todas as pessoas, além de estar na contramão dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ONU) em relação ao alcance da igualdade entre os gêneros”, diz o documento.

A nota também solicita a ajuda de vários órgãos e autoridades para fazer com que o Edital seja revogado, como é o caso da atual Comandante-Geral da Policia Militar do Paraná, Coronel Audilene Rocha, que é primeira mulher a assumir o cargo em 163 anos da corporação.

No Edital, outro item também chama a atenção: a exigência de um nível baixo de amabilidade. O critério aparece descrito como “a capacidade de expressar-se com atenção, compreensão e empatia às demais pessoas, buscando ser agradável, observando as opiniões alheias, agindo com educação e importando-se com suas necessidades”.

Segundo o G1, o critério prudência, exigido em nível baixo, é outro destaque. No documento, surge como “capacidade de descrever situações que envolvem o cuidado com a forma de expressar opiniões ou defender interesses, bem como a avaliação das possíveis consequências de ações".

SUBJETIVIDADE – O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) informou que ainda vai discutir a questão e divulgar um posicionamento oficial, por meio de nota. A coordenadora da Comissão de Avaliação Psicológica do órgão, Mari Angela Calderari Oliveira, disse que alguns itens do edital chamaram a atenção por estarem em desacordo com o que se entende por avaliação psicológica para concurso público.

Conforme o G1, a gestora também salientou que a Resolução nº 2/2016 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) instituiu normas para a avaliação psicológica e criação do perfil profissiográfico, que define competências que precisam ser avaliadas para identificar candidatos aptos a ocupar um determinado cargo.

Além disso, Marri Angela Oliveira disse ainda que alguns critérios não podem ser avaliados com objetividade, conforme determina a norma federal. Sobre o critério masculinidade, a coordenadora enfatizou que a elaboração do perfil profissiográfico chamou equivocadamente de masculinidade um conjunto de características que também podem ser encontradas nas mulheres. “Quando você pensa nesse cargo, você pensa numa pessoa que tenha uma estabilidade emocional, que seja capaz de tomar uma decisão, que diante de uma situação difícil ela consiga avaliar as variáveis que estão envolvidas e pensar nas consequências das suas ações. Então, eu entendo que isso eles estão chamando de masculinidade, e que não necessariamente só homens têm essa capacidade, a mulher também tem essa capacidade”, avalia.

Para a psicóloga Carla Françoia, doutora em estudos de gênero, o conceito de masculinidade está ultrapassado e não há forma de medi-lo. Ainda de acordo com o G1, ela classificou o edital como sexista, por exigir um “comportamento masculino” independentemente do sexo dos candidatos. “Eles pedem um tipo de subjetividade, medir um tipo de subjetividade, isso beira o absurdo”, ressalta.

PM SE DEFENDE – Em nota ao G1, a Polícia Militar informou que o teste é empregado desde 2013 e que é comum em outras instituições de segurança pública. A corporação afirmou ainda que o resultado mínimo exigido independe de gênero e está “dentro da média da população brasileira”. Segundo o comando da polícia, todos os testes psicológicos aplicados nos concursos da Polícia Militar do Paraná são baseados em procedimentos científicos e aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia. E que um dos testes aprovados pela CFP também utiliza a expressão “masculinidade”. Na mesma nota, a PM ressalta que “não compactua e não tolera comportamentos e posicionamentos discriminatórios de qualquer natureza”.



Segurança LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

CHARGE DO BOREGA

As mais lidas hoje