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Cultura

Casa de Passagem para artistas itinerantes será primeira do Nordeste

Ísis Moraes - 22 de agosto de 2018 | 11h 47
Casa de Passagem para artistas itinerantes será primeira do Nordeste
Foto: Acervo pessoal do artista

Realizar o sonho do pai cordelista, cantador, repentista. Sabiá Laranjeiras partiu em 2005, mas deixou para o filho, o produtor cultural, escritor e também cordelista Olliver Brasil, não só suas lições de vida e seu legado artístico, mas o desejo de ajudar o próximo e de difundir a cultura popular. O renomado artista tinha o desejo de construir um albergue, para hospedar os que, com poucos recursos e sem nenhum apoio, viajam pelo país para alegrar a rotina dos cidadãos comuns e subtraí-los do automatismo cotidiano.

A morte precoce não permitiu que Sabiá iniciasse a construção do espaço, mas Olliver disse que o pai chegou a acolher dezenas de artistas na casa onde morava. “Meu pai teve a ideia de criar o albergue em 2003. Planejava construí-lo em um terreno dentro do sítio onde vivia. Desenhou a planta e chegou a fazer a demarcação do local onde ergueria a sede, mas, por falta de incentivo, teve que parar. No entanto, já vinha pondo em prática um embrião do projeto, albergando, na própria casa, mais de 40 artistas populares, oriundos de vários estados do Nordeste. Após a sua morte, o projeto ficou parado por dez anos, até que resolvi retomá-lo, em 2015”, lembra.

Para concretizar o sonho do pai, Olliver Brasil e a esposa, Enny Olliver, venderam a casa onde moravam, compraram um terreno, localizado no Conjunto José Ronaldo de Carvalho, em Feira de Santana, e deram início à construção da Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras, que será a primeira instituição do Nordeste a abrigar artistas itinerantes. “Em 2015, entrei em contato com a viúva dele, para saber se ela ainda tinha a planta e, felizmente, ela a havia guardado. Após conseguir esse desenho, renasceu toda a vontade de tomar conta do projeto, até por ser o único filho dele, dos nove, que é cordelista e cantador. Então, para mim, é uma honra dar sequência a essa ideia. Estamos seguindo o projeto à risca”, ressalta.

A iniciativa foi a forma que Olliver encontrou de não apenas perpetuar a memória do pai, mas de pôr em prática o traço mais valioso de sua personalidade: a capacidade de se solidarizar com as dificuldades e os sofrimentos dos outros. “Meu pai era um ‘Irmão Dulço’ (risos). Ele queria abraçar o mundo. Não aguentava ver uma pessoa na rua, precisando de ajuda, que se aproximava para perguntar o que era mais urgente. E se ele não pudesse fazer, tentava conseguir ajuda com algum amigo. Nem conhecia a pessoa, mas se solidarizava. E eu acabei herdando essa missão”, conta o produtor, que também tem por hábito abrigar os artistas que vêm de fora em sua residência particular.

Segundo Olliver Brasil, o que movia o pai era o mesmo sentimento que o motiva: o amor, pelo ser humano, em primeiro lugar; e pela cultura popular, tão viva, mas ainda tão institucionalmente desvalorizada em Feira de Santana. “Essa cidade é um turbilhão. Está em ebulição constante. Por aqui passa gente de todas as partes do país, especialmente do Nordeste. É muito comum artistas da Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará virem para cá, tangidos pela expectativa de que, aqui, é possível levantar uma grana fazendo trabalho de rua. E, de fato, é, porque o pessoal daqui acolhe. No entanto, essas pessoas não têm onde pernoitar sem gastar muito. Então, o camarada vem de fora, faz um trabalho lindo, mas acaba gastando mais da metade do que ganhou só com hospedagem e alimentação. A viagem quase não compensa”, lamenta.

Sentindo na própria pele as dificuldades de se fazer arte sem qualquer apoio, já que também realiza trabalhos de rua, Olliver diz que uma experiência foi definitiva para impulsioná-lo a tocar o projeto sonhado por Sabiá. “Em 2013, fui a Montes Claros, em Minas Gerais, realizar um trabalho e tive o prazer de ser hospedado pelo artista e amigo Carlos Renier Azevedo, que tem um projeto bem parecido lá. Ele acolhe tudo quanto é artista que passa pela cidade. E isso me emocionou muito. Foi uma peça fundamental nesse processo de reavivamento do sonho do meu pai. Quero dar sequência ao desejo dele, para que os artistas populares tenham mais oportunidades de ganhar o pão de cada dia, porque artista de rua sofre pra caramba”, constata.

PERSISTÊNCIA – Sem apoio governamental e sem incentivo de empresas privadas, até o momento, Olliver enfatiza que não tem sido fácil conseguir recursos para dar continuidade à construção, mas espera não precisar parar outra vez. “Começamos a levantar a sede em 2015, mas ainda falta muito. Inicialmente, construímos parte da residência, mas foi preciso dar uma parada, por falta de recursos. Ficamos um ano sem movimentar a obra. E, agora, retomamos o levante. A construção está 2,6 metros de altura. Isso com recursos próprios. Nossa expectativa, se tudo der certo, é fazer, já em agosto, nossa primeira virada cultural na área da Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras. Estou construindo agora os dois primeiros compartimentos de quatros, que serão divididos em dois salões para dormitórios, mais uma área para aulas e o escritório”, comenta, lembrando que ainda está tentando registrar a instituição, para obter o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) como Associação, processo demorado e difícil, em função da burocracia, mas essencial para a captação de recursos.

O artista e produtor cultural diz que pensou em inscrever o projeto em algum edital de cultura, mas não conseguiu encontrar nada direcionado a esse tipo de iniciativa. A dificuldade não o fez desanimar. Ao contrário, instigou-o a utilizar uma das mais poderosas ferramentas contemporâneas a favor de seu sonho. “Usamos as redes sociais para agregar esforços. E cada vez mais pessoas estão nos apoiando. Amigos de São Paulo, Paraíba e de outros estados, além de artistas que já foram albergados por nós, estão se solidarizando e contribuindo como podem. Agora, eles inventaram uma vaquinha virtual. Mas tudo é muito difícil. Em dois meses, conseguimos apenas duas doações. No entanto, esse apoio nos dá forças para manter o foco. Nossa necessidade é gritante. É uma luta imensa, mas o sonho não pode parar. Vou buscar realizá-lo a vida toda”, afirma.

Olliver Brasil espera que os poderes públicos e a iniciativa privada também abracem o projeto, devido à importância dele para a perpetuação da cultura popular, tão fundamental no processo de formação de Feira de Santana e do próprio país. “Feira é uma mãe para os artistas populares, mas uma mãe que abraça na chuva, em função, justamente, dessa falta de apoio governamental. É preciso um olhar mais sensível para esse segmento. A arte popular está agonizando, mas não vai morrer. Enquanto tiver um artista de rua, ela vai sobreviver. Pode ser que a duras penas, mas não vai deixar de respirar jamais. Se os gestores, de todas as instâncias, tiverem um mínimo olhar possível, essa triste realidade pode mudar. Tantos milhões permanecem ociosos ou são mal investidos, então por que não apoiar projetos que tantos benefícios podem trazer para a população?”, questiona.

Ele reconhece que parte da culpa é dos próprios artistas, que não apresentam projetos. “É preciso fazer nossamea culpa. Não desenvolvemos projetos. E é importante uma maior conscientização por parte dos artistas populares. Digo por mim também. Tenho 12 livros e 64 cordéis publicados e meu material é todo artesanal, desde o começo. A mesma coisa com os 30 CDs que gravei. Fiz tudo do meu bolso. Nunca procurei patrocinador. É um diferencial do meu trabalho, mas, ao mesmo tempo, me prejudica muito. Sei que outros artistas também trabalham assim, então também somos culpados. Precisamos buscar recursos, porque eles existem. Mas temos que apresentar projetos. Essa deficiência de editais voltados à cultura popular decorre disso também, não é apenas descaso governamental”, pondera.

VACA MECÂNICA – Um grande diferencial da Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras é ir além do suporte aos artistas populares. Olliver e Enny também desejam dar ao projeto um importante foco social. “Nossa ideia é agregar também um trabalho de assistência a crianças em estado de desnutrição. Apelidamos esse projeto de Vaca Mecânica, porque visa a distribuição de leite de soja, pão integral e multimistura. Aparentemente, Feira de Santana não tem esse problema, mas tem sim. E ele é grave e complexo, porque, muitas vezes, está relacionado à maneira como uma pessoa se alimenta, e não necessariamente à fome. Às vezes, a criança até tem o que comer, mas não é bem nutrida, por causa da baixa qualidade da alimentação”, observa.

Ele explica que o bairro onde a Associação será instalada é muito carente em diversos aspectos e o problema da desnutrição é muito frequente. “No processo de triagem, já iniciado, encontramos 50 famílias com crianças de zero a oito anos em estado grave de desnutrição. Há meninos de oito anos com menos de 16 quilos. São famílias muito carentes, com pais desempregados, às vezes com pai ausente. Então, diante dessa realidade, minha esposa decidiu colocar em prática esse desejo de ajudar os mais necessitados, que nasceu a partir de um socorro pessoal”, conta.

Olliver salientou que, em 1998, ele e a esposa viveram um grande drama familiar, em função de um problema de saúde que acometeu seu filho recém-nascido, levando-o a um estado crítico de desnutrição. “Ele ficou 60 dias sendo alimentado por meio de uma seringa, após o período de internação, que durou 40 dias. Foi um verdadeiro pesadelo. E, na época, tomamos conhecimento da existência de um complexo vitamínico feito pela Pastoral da Criança, que era a multimistura, uma farinha elaborada com 14 tipos de raízes e sementes, muito nutritiva. Uma nutricionista nos ensinou a preparar também o leite de soja, alimento bastante rico em nutrientes. Isso salvou a vida do nosso bebê, que hoje é um rapaz forte e saudável. Mas o vimos quase morto. Foi então que minha esposa botou na cabeça que um dia iria fazer esses alimentos para distribuir em bairros carentes. A oportunidade chegou. E acredito que essa união de projetos será muito benéfica para quem mais precisa”, vislumbra.

O lado social da iniciativa tem despertado o interesse da vizinhança. Cientes da importância de ambos os projetos, eles vêm ajudando o casal a tocá-los adiante. “Os vizinhos sentem-se movidos a ajudar. Quando compramos o terreno, o acesso até ele não existia. Escolhemos um lugar bem distanciado, pela questão do valor. E foi com a ajuda dos moradores que construímos cerca de 80 metros de rua, até a entrada do terreno. Foi uma iniciativa muito legal da população, que também será beneficiada com oficinas e outros eventos artísticos, aos quais terão acesso”, relata.

MANUTENÇÃO – Com relação à manutenção da Casa de Passagem, Olliver explica que a ideia é não gerar qualquer tipo de custo para os artistas. “Nada é mais gratificante do que ser acolhido por um amigo. É isso que queremos proporcionar. Nosso desejo é que a Casa Sabiá Laranjeiras seja uma casa de amigos para muitos artistas”, anseia.

Por visar apenas a difusão cultural e a ajuda social, o apoio do empresariado, da sociedade e das entidades governamentais são tão imprescindíveis para essa iniciativa, na opinião de Carlos Renier, que também desenvolve um trabalho social com crianças e adolescentes em situação de risco. “Projetos como esse precisam de parcerias, tanto públicas quanto privadas, porque, além de ajudarem a preservar a cultura e a memória, dão uma grande contribuição social, que, pode, inclusive, desdobrar-se em cursos profissionalizantes, como os que estamos tentando implantar em Minas. Olliver é meu amigo e meu mestre. Ele me acolheu em sua casa, em duas oportunidades. Tenho certeza que fará um bom trabalho. Essa iniciativa vai ajudar todo o entorno. Então, é fundamental o apoio institucionalizado, porque, às vezes, só o espaço físico é pouco. É necessário levar o projeto às comunidades e criar polos difusores. Estou disposto a ajudar também. Estou esperando o CNPJ sair, para fazer mais por esse projeto importantíssimo”, garante.

Algumas parcerias já estão sendo buscadas. Os mercados locais, por exemplo, já garantiram apoio através do fornecimento de suprimentos, segundo Olliver Brasil. “Os comerciantes do bairro prometeram ajudar com a alimentação, mas, futuramente, espero que consigamos outros patrocínios. Também vamos realizar exposições e vendas de livros, cordéis, CDs e de outros materiais doados pelos artistas. Esse recurso será para ajudar na manutenção da Casa”, almeja.

De acordo com o artista, qualquer ajuda é bem-vinda. “Quem quiser ajudar o projeto (pessoas físicas ou jurídicas) pode fazer doações em dinheiro ou em materiais de construção, inclusive aterro, que é uma das nossas necessidades nesse momento. Nosso contato via WhatsApp é (75) 99866-0753. Também mantemos o blog umseremmovimento.blogspot.com e a página Sertão Brasileiro, no Facebook, que já tem 274 mil seguidores. Além disso, é possível entrar em contato conosco através do perfil Olliver Brasil Poeta, também no Facebook. Se tudo der certo e conseguirmos mais apoio, iniciaremos o trabalho de albergar artistas já a partir de janeiro de 2019”, espera o produtor, para quem Sabiá era e continuará sendo “poesia viva circulando nas ruas de Feira de Santana”.



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