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Destruída, coleção de artefatos egípcios do Museu Nacional incluía a múmia Kherima, famosa pelos relatos de acontecimentos sobrenaturais atribuídos a ela

Da Redação - 04 de setembro de 2018 | 13h 49
Destruída, coleção de artefatos egípcios do Museu Nacional incluía a múmia Kherima, famosa pelos relatos de acontecimentos sobrenaturais atribuídos a ela
Foto: Reprodução

O incêndio no Museu Nacional provocou danos irreparáveis à história da humanidade. Muitos dos 20 milhões de itens que compunham o acervo tinham importância salutar para pesquisas de diversos campos científicos. A Arqueologia, por exemplo, perdeu peças valiosas, como a múmia Kherima. Com cerca de 2 mil anos, o artefato foi trazido ao Brasil em 1824, pelo comerciante Nicolau Fiengo, e arrematado, em leilão, dois anos mais tarde, por Dom Pedro I. O imperador doou a múmia ao então Museu Real, fundado em 1818 e instalado, à época, no Campo de Santana, região central da cidade do Rio de Janeiro.

Kherima destacava-se por apresentar um estilo diferenciado de mumificação, raro na época em viveu, quando o processo de embalsamento era menos detalhista, sendo os corpos envolvidos em tecido como se “empacotados”. No caso de Kherima, os membros superiores e inferiores foram enfaixados individualmente, com linho decorado, o que lhe conferia um aspecto similar ao de uma boneca. No mundo, só existem nove múmias desse tipo, fato que a tornava ainda mais especial.

Em entrevista à BBC News Brasil, o doutorando em Arqueologia na Universidade de Cambridge (Inglaterra) e pesquisador-associado do Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional (Seshat) Rennan Lemos disse se tratar de “um exemplar muito importante, por conta do tipo de enfaixamento, que preservava a humanidade do corpo; no caso, o contorno do corpo feminino”.

FENÔMENOS SOBRENATURAIS – Mas outro fator também despertava a curiosidade dos visitantes: os relatos de acontecimentos sobrenaturais relacionados ao corpo, disseminados há mais de 60 anos. De acordo com site de notícias Bol, o que circulava, na época, era que a múmia teria provocado transe em quem se aproximava dela. “Na década de 1960, por exemplo, uma jovem teria tocado os pés da múmia e, fora de si, dito que ela pertencia a uma princesa de Tebas chamada Kherima, assassinada a punhaladas”, diz o informativo.

O artefato já havia se tornado objeto de culto, segundo o Bol, quando o professor Victor Staviarski, membro da Sociedade de Amigos do Museu Nacional, passou a reforçar ainda mais o misticismo em torno da múmia. Controversos, os cursos de egiptologia e de escrita hieroglífica do professor, realizados ao som de óperas como Aida, de Verdi, atiçavam ainda mais o imaginário popular, por agregarem a presença de médiuns e sessões de hipnose coletiva, ao lado da múmia. Na época, os alunos podiam tocar a múmia, o que provoca as reações mais inesperadas. Conforme o site, algumas pessoas afirmavam que conversavam com a múmia e que ela respondia. “Em uma dessas conversas, ela teria dito que seria uma princesa do Sol, mas isso não faz o menor sentido científico, porque esse não era um título do Egito Antigo”, diz o estudioso Rennan Lemos.

Ainda segundo o Bol, tomografias permitiram constatar que Kherima era filha de um governador de Tebas, importante cidade do Egito Antigo. A pesquisa mostra que ela viveu durante o Período Romano no Egito, entre os séculos I e II, e que tinha entre 18 e 20 anos quando morreu.

Contatada pela BBC News Brasil, a vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Escola de Saúde Pública da Fiocruz, Sheila Mendonça, que foi ex-aluna de Staviarski e que também acompanhou o processo de identificação da múmia, disse estar “muito emocionada” e sem condições de falar sobre o incêndio, em função da “enorme perda” do acervo do museu.

EXTENSÃO DOS DANOS – O incêndio de grandes proporções que atingiu o Museu Nacional, na noite do último domingo (2), provocou a perda de outros importantes artefatos, como Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil e que refez todas as pesquisas sobre a ocupação das Américas; alguns murais de Pompeia, cidade romana fundada por volta dos séculos VI e VII a.C e destruída durante uma grande erupção do vulcão Vesúvio, no ano de 79 d.C; o esqueleto Maxakalisaurus topai, primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no país; e o Trono de Daomé, pertencente ao rei africano Adandozan (1718-1818), doado por embaixadores do monarca ao príncipe regente Dom João VI, em 1811.

O sarcófago da cantora-sacerdotisa egípcia Sha-amun-en-su, que viveu em 750 a.C, também foi consumido pelas chamas. O artefato foi um presente recebido por Dom Pedro II, em 1876, por ocasião de sua segunda visita ao Egito. Com mais de 700 peças, a coleção de arqueologia egípcia do Museu Nacional era a maior da América Latina e a mais antiga do continente.

Maior e mais importante acervo de História Natural e Antropologia da América Latina, o Museu Nacional era a mais antiga instituição científica do Brasil. Acredita-se que toda a coleção de artefatos tenha sido perdida.



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