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736 pessoas são portadoras de Autismo em Feira de Santana; assistência cresceu nos últimos anos

Vanessa Testa - 12 de setembro de 2018 | 11h 58
736 pessoas são portadoras de Autismo em Feira de Santana; assistência cresceu nos últimos anos
Foto: Vanessa Testa

Uma em cada 160 crianças possui Transtorno do Espectro Autista (TEA). A estatística, fornecida pela Organização Mundial da Saúde em abril de 2017, chama a atenção também para o aumento da incidência do Autismo nos últimos 50 anos. Apesar de bastante presente na sociedade, muitas pessoas ainda não têm conhecimento do que realmente é esse transtorno do desenvolvimento.

O TEA é uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento do cérebro, antes, durante ou logo após o nascimento. Esses distúrbios afetam a capacidade de comunicação, o aprendizado e o comportamento de seus portadores, podendo fazer com que tenham dificuldades para realizar até mesmo as atividades consideradas mais simples, como falar, por exemplo.

Se, no Brasil, o número de pessoas com Autismo é grande, em Feira de Santana não é diferente. No censo realizado pela Prefeitura Municipal em 2016, foram identificadas 736 pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autista na cidade. Um número alto e que levanta um questionamento: o que é feito, em termos de assistência, por essa parcela da população?

O Jornal Tribuna Feirense foi atrás de respostas. De acordo com o levantamento, existem, em Feira de Santana, cinco instituições/grupos que assistem os autistas e seus familiares. São elas: o Núcleo Especializado para Pessoas com Espectro do Autismo (Nepea), a Organização Crescer Cidadão, a Clínica Ideal, o Cromossomos 21 e o Grupo Família Azul.

Nesses espaços, são disponibilizados diversos serviços, como acompanhamento psicológico e nutricional, terapia ocupacional, fonoaudiologia, atividades físicas, musicoterapia, neuropsicopedagogia e psiquiatria. Vale ressaltar que muitas pessoas assistidas por essas entidades não são residentes de Feira de Santana. Moradores de cidades vizinhas e até mesmo de municípios distantes se deslocam para conseguir atendimento na segunda maior cidade da Bahia.

A luta pela conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista e pela prestação de atendimento qualificado aos seus portadores parece ganhar corpo em Feira de Santana. Após o censo realizado em 2016, algumas ações foram implantadas pelo poder público. De acordo com Ildes Ferreira, secretário Municipal de Desenvolvimento Social, hoje, muito do que existe em relação ao reconhecimento dos autistas foi provocado pelo Família Azul, grupo formado por mães de pessoas autistas, que lutam pelo direito de seus filhos e de todos os que têm o TEA.

Desde o lançamento do censo, foi inaugurado o Núcleo Especializado para Pessoas com Espectro do Autismo (NEPEA), que atende, aproximadamente, a 100 autistas, na faixa etária de 4 a 12 anos. Além disso, foi implantado o projeto de aulas de karatê para alunos do Grupo Família Azul. E promovidas outras ações, pela Prefeitura Municipal, como é o caso da 1ª Semana Olhares Sobre o Autismo, que trouxe discussões acerca do tema para educadores, profissionais e familiares.

Em maio desse ano, o prefeito Colbert Martins também assinou a ordem de serviço para a construção de uma sede específica para tratar pessoas portadoras do Espectro Autista. Idealizada pelo poder público municipal, a instituição, cuja obra está orçada em R$ 936 mil,deverá disponibilizar o acompanhamento de profissionais das secretarias de Saúde, Desenvolvimento Social e Educação.

INICIATIVA PRIVADA – Enquanto o poder público avança nos quesitos reconhecimento e assistência aos autistas, instituições privadas também buscam acolher esses indivíduos. É o caso da Clínica Ideal, estabelecimento particular que atende a 30 autistas com idades entre dois e 22 anos. Fundada em 2012, pela psicóloga Carina Soares e pelo médico Jair Soares, a Clínica Ideal tem funcionamento diário e carrega algumas bandeiras relacionadas ao TEA. A primeira delas diz respeito ao diagnóstico, que, no entendimento dos profissionais, deve ser passado à família o quanto antes.

Para Carina Soares, idealizadora do projeto, quanto mais cedo se descobrir o TEA, melhor para o seu tratamento. Carina e Jair são pais de Guilherme, de 12 anos, diagnosticado como “autista severo” aos 2 anos e 8 meses. A condição do filho motivou o casal a realizar pesquisas, a estudar o assunto profundamente e a, posteriormente, fundar a clínica.

A psicóloga enfatiza que o diagnóstico tardio é um fator prejudicial ao desenvolvimento dos autistas. “O que vemos, hoje, em Feira de Santana, são crianças que, inicialmente, apresentavam comportamentos sutis e que poderiam ser autistas leves, mas que acabaram se tornando autistas severos, porque a intervenção aconteceu tarde demais”, fundamenta.

Carina e Jair Soares utilizam, na Clínica Ideal, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), abordagem da psicologia comportamental adaptada e direcionada ao ensino de crianças com TEA. “Fundamos a clínica porque vimos que, em Feira, não existia nada voltado aos autistas. Aqui, aplicamos a terapia ABA, considerada padrão ouro para o tratamento do Autismo. Essa abordagem diz que quanto mais horas essa criança tem de intervenção, mais ela tem êxito no tratamento, tanto que algumas chegam até mesmo a sair do espectro autista”, explica.

Segundo Carina, ao chegar à clínica, cada indivíduo é analisado e, a depender do nível de espectro autista, são determinadas as atividades a serem realizadas. Todas guiadas por profissionais capacitados.

A psicóloga ressalta que o preconceito contra os autistas ainda é grande em Feira de Santana, mas que essa realidade vem mudando aos poucos. Ela conta que, por vergonha, muitas pessoas deixam de oferecer o tratamento adequado aos filhos. Por outro lado, salienta que aqueles que o fazem de coração, doando-se por completo, vibram a cada pequena conquista.

De acordo com Carina Soares, muitos pacientes vêm de outras cidades, tanto circunvizinhas quanto distantes, a exemplo de Coração de Maria, Berimbau, Bonfim de Feira, Conceição da Feira, Morro de São Paulo e Monte Santo.

VIDAS TRANSFORMADAS – A recepcionista Fernanda Souza é uma das pessoas que teve sua vida modificada pelo Autismo. Ela é mãe de Enrico, de oito anos, natural da cidade de Nova Soure. Quando soube que o filho era autista, buscou alternativas para um acompanhamento adequado, mas não encontrou tratamento em diversas cidades, até chegar a Feira de Santana. Ela diz que, aqui, Enrico começou a frequentar a Clínica Ideal. E, para não interromper o tratamento do filho, ela e o esposo se mudaram para a cidade.

No espaço, Enrico participa de aulas de equoterapia, musicoterapia, hidroterapia, fonoaudiologia, dentre outras atividades. Recepcionista da Clínica Ideal, Fernanda comemora as pequenas conquistas de cada aluno como se fossem as do seu próprio filho. “Conseguimos acolher bem as pessoas, porque vivemos a mesma situação que elas. O nosso olhar não é só financeiro, é de amor, de empatia. Queremos que cada criança se desenvolva da mesma forma que queremos que nossos filhos se desenvolvam”, afirma.

Outra mãe que teve sua vida modificada pelo Autismo foi Margarida Cambuí. Mãe de Jander, de 21 anos, ela se viu sozinha e sem informações a respeito do transtorno que seu filho sofria. Foi então que começou a estudar sobre o assunto e a aprender dicas de atividades e cuidados, com a finalidade de aplicá-los à vida do filho. Através dessas pesquisas, ela descobriu a importância da alimentação para os autistas. Algum tempo depois, decidiu cursar Nutrição. Hoje, Margarida atua como nutricionista na Clínica Ideal e orienta outras mães a organizarem bem a alimentação de seus filhos. Ela chama a atenção, por exemplo, para itens que devem ser adicionados ou retirados da dieta de cada um, porque interferem diretamente no desenvolvimento.

Como mãe de um portador de Autismo e idealizadora da Clínica Ideal, Carina Soares conta, emocionada, qual o seu sentimento em relação ao trabalho realizado no local. “Como mãe, realizo-me ao ver essas crianças melhorando. Estudei, fiz especialização e mestrado em São Paulo, precisei ficar longe do meu filho, mas tudo isso foi para a concretização desse trabalho. Aqui, só temos casos de melhora. Ver essas crianças se desenvolvendo é maravilhoso. Tenho certeza de que estou no caminho certo”, conclui.



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