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André Pomponet

Vizinho Uruguai é referência democrática na América do Sul

André Pomponet - 06 de novembro de 2018 | 12h 36
Vizinho Uruguai é referência democrática na América do Sul

É sempre prazeroso caminhar pelas ruas de Montevidéu, a capital do vizinho Uruguai. A cidade se irradia a partir da ciudad vieja – o centro antigo, que abriga o porto e imóveis imponentes, históricos – se estendendo ao longo do Rio do Prata, caudaloso, interminavelmente largo, com suas águas ora barrentas, ora plúmbeas. O prazer é mais intenso a partir da primavera, quando o inverno rigoroso é sucedido por um período de frio suportável e sol radioso. Andar, então, pelas calles pontuadas por plátanos, implica em satisfação adicional.

Geograficamente, o Uruguai se espreme entre dois gigantes: a Argentina e, sobretudo, o Brasil. Foi, inclusive, palco de intensas disputas entre os portugueses e os espanhóis, que acabaram prevalecendo, isso séculos atrás, no período colonial. Essa disputa contribuiu – e a histórica cidade de Colônia atesta, com sua arquitetura híbrida, inspirada nas tradições das duas outrora poderosas nações ibéricas – para forjar o aguerrido espírito da população do pequeno país platino.

Mas o que torna o Uruguai pitoresco, hoje, não é o seu passado, mas o seu presente. Pode-se afirmar – sem nenhum medo de errar – que se trata da nação politicamente mais estável da América do Sul. Desde que o País restabeleceu a democracia nos anos 1980 – após uma ditadura militar que constitui praxe na América Latina – eleições vem se sucedendo, com invejável estabilidade de suas instituições.

Enquanto praticamente toda a América do Sul flerta com aventuras com persistente regularidade – e que, não raro, bordejam o descalabro –, o País alterna governos com distintas visões ideológicas, sem sobressaltos ou surtos autoritários. Ao contrário: lá, as instituições exibem uma solidez pouco perceptível pelas conturbadas cercanias.

Desigualdades

Quem visita o País vizinho constata que não existem favelas – aquelas aglomerações urbanas que o cinzento linguajar burocrático no Brasil classifica como subnormais – e o que prevalece são residências de classe média. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País é considerado alto: 0,804.

O Índice de Gini – que mensura a desigualdade – sinaliza para redução consistente: caiu de 43,60 em 1981 para 39,70 em 2015. Quanto menor o índice, melhor é a distribuição da riqueza. O Brasil, por exemplo, ainda tem um longo caminho a percorrer para alcançar o patamar uruguaio: entre 1981 e 2015 até houve queda, de 58,0 para 51,3. Mas, conforme se vê, estamos distantes do padrão do país vizinho.

Lá, o percentual de trabalhadores informais – aqueles que não contribuíam com a seguridade social – correspondia a apenas 23,5% em 2014. Isso se traduz em maior acesso ao direito à aposentadoria no fim da vida, o que contribui para uma sociedade mais equânime. E se reflete nos indicadores mencionados acima e, sobretudo, na qualidade de vida da população.

Agenda Pública

A condição de sociedade mais desenvolvida permite aos uruguaios discutir temas que, nas cercanias, só devem entrar na agenda pública daqui a muito tempo, se o fizerem. É o caso do incentivo à imigração ou à geração de filhos – a população lá vem envelhecendo – para repor a força de trabalho, que vem declinando. É questão normalmente discutida na Europa, mas que já envolve os uruguaios, preocupados com sua economia. Ao contrário dos países vizinhos – que tratam a questão com xenofóbica passionalidade – a imprensa local aborda a delicada questão com o equilíbrio desejável.

O aquecimento global – alvo de deboche na vizinhança semibárbara – preocupa o País, que se vê sob o risco de ver seu território encolher com o avanço do mar, com prejuízos para sua pujante agropecuária. Ressalte-se que o Uruguai produz alimentos em quantidade suficiente para alimentar mais de 20 milhões de pessoas por ano, cerca de sete vezes a sua população.

É visível que, por lá, o debate se dá sob a saudável separação entre Estado e religião. O misticismo grosseiro das redondezas não contamina o país, que recentemente autorizou a venda da maconha para fins recreativos – reduzindo a potencial influência do crime organizado – e que não cultiva o hábito de perseguir minorias. O Uruguai trata-se, então, de um paraíso? Evidentemente, não. Mas é indiscutível que a nação vizinha consegue se manter acima da linha da barbárie que vai se disseminando mundo afora.



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