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André Pomponet

Oposição não vai se restringir aos partidos políticos

André Pomponet - 07 de novembro de 2018 | 13h 20
Oposição não vai se restringir aos partidos políticos

Nos próximos meses a oposição à extrema-direita – que chegou ao poder no Brasil – deve se recompor e começar a se articular. Contrariando a lógica pretérita – na qual os partidos políticos eram, praticamente, os únicos catalisadores da insatisfação com os donos do poder – o País deve viver experiências inéditas a partir daqui. Muitos ainda não perceberam, mas aquele intervalo batizado de Nova República – e que se estendeu de 1985 a 2016 – findou. Uma nova dinâmica deve reger a política desde já.

Isso significa que a importância relativa dos partidos políticos, por exemplo, deve diminuir. Desde 2013, com aquelas monumentais manifestações, ficou evidente que os canais convencionais da democracia representativa – como os parlamentos – estão desgastados e precisam sintonizar-se às ruas, arejar-se, refletir o que pensa o cidadão comum.

Isso não foi feito até aqui. E deu no que deu: um candidato de extrema-direita – Jair Bolsonaro (PSL) – com um calculado discurso iconoclasta chegou ao poder, derrotando a esquerda letárgica e a centro-direita paralisada por antigas convicções. Enquanto se rearrumam, os derrotados – incluindo os liberais autênticos – deveriam aprender com a desastrosa experiência eleitoral de 2018.

Acostumados ao toma lá dá cá, às barganhas vergonhosas, ao impudico mercadejar, os partidos encastelaram-se em seus privilégios e afastaram-se da população. Em grande medida, isso alavancou a ascensão de novas expressões de luta coletiva – como coletivos e movimentos autônomos – e de demandas que não reverberavam pelos canais políticos tradicionais. Trata-se, portanto, de uma cisão que conferiu maior complexidade ao cenário político.

Paradoxalmente, esses desarranjos viabilizaram a ascensão da extrema-direita nas eleições de outubro. É que a esquerda tradicional – os partidos que vinham compartilhando o poder desde a vitória do petismo em 2002 – ignoraram esses movimentos e, em muitos momentos, foram francamente hostis. Resolveram apostar num modelo falido cujo estertor final aconteceu em outubro.

Novas formas

A emergência dessas formas não partidárias de expressão política, porém, é irreversível. Será enorme o desserviço da oposição que pretender represá-las, cerceá-las, esvaziar-lhes o conteúdo. Enfraquecerá uma batalha que se desenha árdua e, no fim das contas, pode se traduzir numa fragilidade que tenderá a perpetuar a extrema-direita no poder.

Também não será produtivo tentar projetar-se a partir delas, usá-las como alavanca eleitoral, conforme se faz muito hoje com movimentos sociais. Mas o que virá? Ninguém sabe. A marcha, contudo, começa com uma constatação óbvia: o caminho será muito árido e esses ardis – tão convenientes no passado – não produzirão os mesmos resultados no futuro.

A seara para a reaglutinação dos progressistas a partir daqui, porém, é ampla: não vai se limitar ao combate às nocivas investidas orquestradas por Michel Temer (MDB) contra direitos trabalhistas, previdenciários ou contra o patrimônio público; envereda por uma gama mais ampla de direitos e implica em ameaças à própria democracia.

Essas ameaças estão em recorrentes discursos dos novos donos do poder. Mas, apesar da conjuntura funesta do momento – com uma agenda política obscurantista em evidência – é patente que, no futuro, não poderá haver democracia sem crescente participação social. É a lição que fica dos dias atuais para quem pretende manter distância asséptica da barbárie lá adiante.

Isso, claro, caso a própria democracia não seja suprimida no futuro. Os rumores nos meses que antecederam as eleições – e mesmo algumas insinuações contra as instituições que, em tese, amparam a democracia – têm sido inquietantes.



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