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César Oliveira- Crônicas

Benditas as mulheres ...

César Oliveira - 01 de junho de 2019 | 09h 21
Benditas as mulheres ...

Benditos os navegantes de antigamente que acreditavam que a terra acabava na linha do horizonte, de onde cairiam, mas que nunca deixaram de lançar seus frágeis barcos nessa direção; bendito os que pintaram mensagens nas cavernas acreditando que um dia seriam lidos, ainda que sequer soubessem se haveria amanhãs; benditos os catingueiros do árido sertão, marcados pelas sete adagas de anjo, que nunca se mudam de sua terra, porque não hesitam, não duvidam, que o tempo da chuva e dos ventos será alcançado.

Benditos os que não deixam de semear suas roças, ano após ano, sem praguejar contra os deuses ou a sorte, sem deixar de recomeçar, com mais cuidado e mais esperanças, as leiras do inverno que ainda vem, ainda que tarde a chegar

Bendito os que não tiram os céus dos olhos. Os que confiam. Os que acreditam na própria imensidão e percorrem suas léguas. Bendita as cartas de Maria do Alcoforado, bendito Shakespeare e seu soneto CXVI, Romeu e Julieta, Othelo e Desdemôna, bendito meu coração que envelheceu sem ceder ao outono.

Mas agora, que são outros os anéis de Saturno, que a lua não tem dragões, que domaram o sal do mar- tanto sal, tanto mar- e tudo é substituível, como amar a mulher que desistiu das eternidades?

Como amar, na estreiteza de seu peito, se não guardam a perenidade que desfaz os incrédulos; se não tem o desespero de quem faz sua lavoura arcaica, sabendo ser única, a colheita da boca; se não têm fé e não talham a pedra da caverna para serem lidas em outras vidas e nos reencontros?

Como amar, diante de um tempo de tantas incertezas, da urgência de tudo, e da alma liquefeita? Como nunca partir dos cais se cais já não há, nas oferendas delas?

Como amar sem tabuas de salvação, se tábuas, já não há, e permanecer entre os disfarces de amor, se ele já não arde sem se ver? Como amar uma mulher, se elas, antigas fiandeiras, já não tecem o fio do destino, e, delas, de suas margens, já não podemos nos atirar em nossos frágeis barcos de homem ao mundo que acaba no horizonte?

Bendita seja, a que resiste e não reza nas cartilhas do líquido e temporário..



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