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César Oliveira- Crônicas

O fogo de Prometeu e o São João

César Oliveira - 25 de junho de 2019 | 20h 15
O fogo de Prometeu e o São João
Sem o fogo não haveria o homem de hoje, bem, pelo menos não, talvez, nesta forma atual, que vemos nas campanhas eleitorais. Um dos cinco elementos vitais – os outros são a terra, a água, o ar, e o tarja preta- ele foi fundamental ao desenvolvimento da humanidade.
 
Dizem ter sido descoberto lá pelo Paleolítico Médio, quando ainda não havia as cadeias de fast-food, a alimentação era difícil e as noites eram tão perigosas quanto hoje - embora fosse outro o tipo de predador- e corria um frio que faria os ambientalistas de hoje decretarem o irreversível fim da espécie por estarmos diante de uma era de esfriamento global. Certamente que ONGs de Homo Erectus já deviam vagar pelas savanas pregando o fim da caça aos javalis e a demarcação das terras exploráveis.
 
Claro que incêndios deviam acontecer, causados por raios, mas não havia domínio de sua produção até que um Homo Jobs da vida friccionou duas madeiras, ou uma pedra na outra, antes de acertar o inimigo e produziu uma faísca. Por não ter patenteado a descoberta ela rapidamente disseminou-se pelas redes sociais da época. Esta descoberta permitiu ao homem iluminar as noites sem luas, proteger-se dos predadores, aquecer-se, e sobretudo, fazer um churrasquinho na laje das cavernas, aumentando o consumo de proteína animal, que foi fundamental para nosso crescimento cerebral e evolução da espécie até chegar na Paolla Oliveira.
 
Esta teoria do desenvolvimento tem sido contestada diante do comportamento de certos humanos e músicos que vagam por aí claramente em fase Pré- Paleolítica, mas, não devemos nos abater se alguns ainda não foram aquecidos à temperatura ideal.
 
Desde então o fogo tornou-se essencial: da celebração de rituais e produção do aço, ao canibalismo das periguetes cada vez mais fogosas. O fogo está incorporado, simbolicamente, ao nosso imaginário, às divindades , em todos as religiões. Aliás, não foi a toa que Prometeu o roubou dos Deuses para entregá-lo aos homens e, por isso, foi preso a um rochedo com o fígado sendo devorado todos os dias só para lembrar que quem brinca com fogo faz xixi na cama. Em verdade, esta foi só mais uma tragédia na qual a ONU não fez nada, como, aliás, acontece em muitas outras ao redor do mundo.
 
A fogueira, por sinal, sempre nos remete a uma reminiscência tribal, pagã, e ritualística. Confesso que, eu mesmo, tenho devoção por elas e por isso me causa imenso prazer andar pelas cidades do interior, no São João, e ver uma fogueira diante de cada caverna, ou melhor, casa.
 
Neste período, menino, volto a minha roça e aldeia. Meu pai, homem obsessivo pelo trabalho, tinha uma única exceção com festas, feriados, ou aniversários: o São João. A fogueira queimava de São João a São Pedro, feita com troncos secos de Jaqueira ou Cajueiro, puxados até a porta por um Carro de Boi, e, depois, em uma Rural. Maior, recordo-me que rachava umas lenhas com o machado para facilitar o trabalho. Com o tempo ele passou a me dar o querosene e fósforos - minha vantagem em relação ao Homo Erectus-, e eu, me sentindo importante, a acendia. Fazíamos compadres e comadres arrodeando a fogueira e eu aprendia como é que o fogo arde nos corações.
 
Todos os anos, ou até quando eles aceitaram, sem ameaças de rebelião ou morte, levei meus dois filhos para a roça e fizemos do correr das cobrinhas, do colorido das chuvas de prata, e de olhar nos céus a magia dos desenhos coloridos dos foguetes, o elo invisível de meu pai com meus filhos, ao redor do fogo, naquilo que chamamos família.
 
E , esta crônica, é só pra pedir a vocês, filhos, se uma hora me lerem, que não deixem de cortar a lenha, de apanharem os fósforos, ou sei lá, um maçarico cibernético, para acenderem a velha fogueira e me deixarem ficar com os filhos que serão seus, ali, todos juntos, iluminando o caminho da última escuridão com o Fogo de Prometeu


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