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César Oliveira- Crônicas

Filhos não voltam para casa

César Oliveira - 15 de julho de 2019 | 15h 56
Filhos não voltam para casa

Fui criado na roça, à luz do candeeiro, e do carro de boi. Aos dez anos, meu pai, em busca de educação melhor, levou-me para Salvador, para morar sozinho em uma pensão. Ele sempre dizia que o que precisava ser feito tinha de ser feito. Depois fui para Brasília, São Paulo, e voltei para Feira. Mas não para a casa de meus pais.

Criar filhos é remar o rio ao avesso em que invertemos o tempo e vamos mimetizando os papéis, durante uma longa mutação, até a derradeira de todas. Não são apenas as memórias, a apoteose de criador, o amor absoluto, que te consagra e realiza. É a esperança de nossa edição melhorada sem as fragilidades e as falhas que tivemos. Somos senhores da realização de lhes dar régua, compasso, princípios, para viverem, embora, por vezes, esqueçamos que os filhos nos decifram em silêncio e nos criam, mas à sua própria imagem e leitura.

Adivinhássemos o futuro, desfrutaríamos mais desta relação, desse mito da fé mágica, e renunciaríamos mais as exigências de fora para nos abastecermos dos seus abraços e descobertas. E, dormiríamos, nós todos, em histórias e fantasias intermináveis, apesar das dúvidas para achar a medida exata entre a firmeza que educa, a recusa da autoridade que estraga, e o amor que humaniza.

Criar os filhos, doer suas dores, rir de sua inocência, perder o sono na sua febre ou ausência, caminhar de mãos dadas numa praça ou num sonho, nos eterniza. Faremos escolhas por eles- nem sempre as melhores-, muitas vezes com intenções que temos com nós mesmos, esquecendo que a vida só se faz para seu dono. Cruzaremos a longeva e barulhenta infância e adolescência -o tempo mais doce do tempo-, às vezes sem perceber a progressiva e inexorável redução da dependência conosco. Acostumamo-nos com o barulho de suas vozes, agenda, lições, ocupação da casa, cama, espaços da vida, achando que será para sempre.

É que, embora não acreditemos e ninguém nos prove o contrário, filhos crescem. E partem. E farão de sua partida um remoer sem fim, deixando em seus quartos um troféu das competições, um som, um aroma de milagre, um diário esquecido, um vestido abandonado por ser infantil, em um vazio que parece nunca acabar de ser olhado.

Um dia seu filho mais velho irá embora, para a faculdade, e você sentirá que sua invenção de homem tomou rumo próprio e se lembrará do dia em que também partiu e pensará em infinitos conselhos que acabará não dando, esquecidos no abraço. Depois sua filha fará o mesmo gesto e sua ausência será chorada às escondidas, porque apartar, disse-me meu pai, nessa quarta, ao vê-lo no cemitério, precisa ser feito. E, então, rezamos as rezas dos rezadores, por eles.

Sem o ofício do cotidiano os horários se embrulharão, a casa silenciosa se ressentirá do revés, como uma árvore sem vento, sem folhas. Que não abriga, nem sombreia. E, nesta reinvenção do ninho vazio não teremos a bênção ao dormir. Ela que nos protegia, e não a eles. E os medos serão só nossos, sem a redenção primitiva que suas presenças nas manhãs. E não importa, se for a primeira ou a centésima partida, pois, todas reinauguram uma mesma falta, uma teia que nunca se fecha em definitivo.

Estaremos juntos nas férias, viajaremos, faremos muitas refeições em família, e, um dia, os netos atiçarão a árvore, mas eu sei - eu também não vim-, que filhos não voltam para casa.

 
 
 
 


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