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  • Feira de Santana, terça, 22 de outubro de 2019

André Pomponet

A interminável peleja dos camelôs e ambulantes feirenses

André Pomponet - 16 de setembro de 2019 | 12h 34
A interminável peleja dos camelôs e ambulantes feirenses

Em meados de agosto a Feira de Santana viveu um dos momentos mais polêmicos do prolongado épico que envolve o festejado Shopping Popular, que está sendo construído ali na área do malcuidado Centro de Abastecimento. Inconformados com taxas e valor de aluguel, um grupo de camelôs e ambulantes marchou pelas ruas do centro da cidade, levando sua insatisfação para a Câmara Municipal. Foram recebidos pelos vereadores que, desta vez, não puderam ignorar o quiproquó cujo desfecho está longe do fim. Pelo contrário: tudo indica que, mesmo depois da entrega formal, as altercações vão prosseguir.

Quem sobrevive há décadas pelo calçadão da Sales Barbosa, pela praça Bernardino Bahia, pela fervilhante Marechal Deodoro, pelos estreitos becos de gastas pedras portuguesas provavelmente não tem como arcar com os custos estabelecidos para quem vai se instalar no afamado entreposto. Principalmente porque a economia brasileira não deslancha, apesar e todas as promessas dos empertigados ministros de plantão.

Caso um permissionário qualquer não consiga pagar as taxas estabelecidas – cada metro quadrado sairá pela bagatela de oitenta reais – vai perder a concessão, é o que deve constar no contrato. E aí? Aí a empresa que administrará o entreposto poderá repassar a vaga outro interessado. Normalmente é assim que funcionam contratos do gênero, assinados todos os dias mundo afora.

Mas o que o permissionário inadimplente – camelô ou ambulante até outro dia – vai fazer da vida? Aí surge um problema espinhoso. E, pelo que se percebe no noticiário, ninguém se dispõe a oferecer uma resposta, pelo menos até aqui. O silêncio indica que caberá a ele se virar sozinho. Noutras palavras, retornar à roda-viva da precariedade atual, que muitos conhecem bastante bem.

Soluções

Talvez haja aí, na praça, um criterioso estudo determinando quanto os ambulantes podem pagar, em média, e, por outro lado, qual o valor mínimo de toda a infraestrutura oferecida pelo Shopping Popular. Ajustando-se oferta e demanda, reduz-se o risco de inadimplência e, por consequência, garante-se que o problema será minimizado. Mas será que houve esse levantamento? Caso exista, falou-se pouco nele. E, pelo que se percebe, os manifestantes não se julgam contemplados.

Em meados dos anos 1970, quando o Centro de Abastecimento foi inaugurado – sob a retórica do progresso e do desenvolvimento – prometia-se a mesma solução de agora: alocar todo mundo que mercadejava pelas ruas centrais da cidade no novo entreposto. Como se percebe, não deu certo. Ironicamente, quarenta anos depois, busca-se a mesma solução para o mesmo problema. Talvez fosse recomendável se pensar noutras alternativas.

É claro que o perfil do camelô e do ambulante mudou. Naqueles tempos, o cidadão vendia a fruta, a verdura, o legume, a literatura de cordel, a carne, os artigos de couro para a lida do sertanejo. Hoje, majoritariamente, quem tenta a sorte apregoa a infinidade de produtos chineses que o Brasil importa e o brasileiro consome com sofreguidão. A dinâmica, porém, é a mesma.

 

Tendências

Então, se houver uma acentuada inadimplência no novo entreposto? Qual vai ser a solução? A não-solução já foi mencionada acima: ignorar o problema. Nem é preciso tanta intimidade com a questão para deduzir que – tudo indica – a tendência é que o trabalhador tente voltar para a Sales Barbosa, a Bernardino Bahia, a Marechal Deodoro. Exatamente como aconteceu décadas atrás.

Viria, portanto, um novo ciclo de tudo que já se viu: precariedade, desorganização, ação do “rapa”, truculência e, por fim, uma inevitável acomodação. E – Quem sabe – em três ou quatro décadas surjam os mesmos debates e se aponte para as mesmas soluções. Parece piada, mas desde já é possível antever a hipótese. A não ser, claro, que a prometida revitalização do centro da cidade saia do papel e a gentrificação se torne regra.

O fato é que mobilização de camelôs e ambulantes não pode ser ignorada e o diálogo contínuo é imprescindível. Há milhares de feirenses dedicados ao ofício árduo de mercadejar pelas ruas, porque não dispõem da alternativa melhor. As hipóteses levantadas por muitos não são mero exercício de “futurologia”, mas fundamentadas possibilidades que o médio prazo tende a confirmar. 



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