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Cultura

Uma terra sem memória é como um corpo sem cabeça; diz o escritor Antonio do Lajedinho

Ísis Moraes - 19 de fevereiro de 2020 | 11h 46
Uma terra sem memória é como um corpo sem cabeça; diz o escritor Antonio do Lajedinho
Foto: Reprodução

“O que a memória ama/ fica eterno...”

(Adélia Prado)

 

O passado de um povo também é feito de silêncios. No tecer e entretecer das narrativas históricas, muitos fatos se perdem, muitos personagens acabam esquecidos, muitas verdades são apagadas. Sem embrenhar-me muito na espinhosa senda entre oficialidade e verdade, é preciso dizer que a História, muitas vezes, impôs um atroz silenciamento a tudo aquilo que divergia dos saberes e poderes dominantes.

Esquecer, no fazer histórico, portanto, é, quase sempre, um movimento voluntário, seja por ideologia, seja porque recortes são necessários, afinal não é possível a um historiador abarcar absolutamente tudo o que constitui o tempo sobre o qual se debruça. Nesse exercício, sobram os que são “inadequados” ou “desimportantes” demais para constar. E, vale lembrar: quando não pode silenciar e apagar, através da História, a mão do domínio demoniza. Muitos são os personagens entregues à sanha do julgamento humano sem isenta reflexão.

Por tudo isso, a História está repleta de personagens e lugares olvidados. Feira de Santana é, nesse sentido, uma cidade fantasma. Aqui, o passado sucumbiu ao descaso dos poderes públicos, à voracidade comercial e à cegueira dos habitantes. Fato que deveria entristecer e envergonhar a todos. Mas a maioria sequer se dá conta da falta que faz não ter um passado preservado.

Movendo-se ao ritmo de uma cidade, agora, meramente maquinal, os feirenses perderam suas raízes. E o reflexo disso está no que vivenciamos diariamente: tradições e valores culturais agonizando em meio à boiada de latas que estoura nas ruas convulsas; a feiura dos galpões pré-moldados dominando a paisagem; pessoas enxotadas das calçadas, pelo comércio informal; omissão na zeladoria do espaço urbano e na destruição do patrimônio arquitetônico.

Caminhamos, apáticos, entre espectros ancestrais, os quais somente a memória é capaz de resgatar. Mas poucos são os que se lembram da Feira de Santana antiga, tão aprazível ao olhar, com seus jardins, praças e casario de estilo eclético enfeitando ruas e avenidas. Menos ainda são os que se recordam dos personagens que marcaram a rotina da cidade, nos remotos tempos em que todos se conheciam pelas alcunhas, mais até do que pelos próprios nomes. Quase ninguém sabe localizar os becos nomeados de acordo com as funções práticas, mas nem sempre nobres, do cotidiano. Passado é mesmo coisa de quem ama com a memória.

MEMORIALISTA – Feirense de nascimento, Antonio Moreira Ferreira é uma dessas raras pessoas que sabem bem que lembrar é tornar imperecível aquilo que somos, não apenas individualmente, mas também coletivamente. Aos 94 anos, o escritor tem 11 livros publicados, entre poesia e prosa, muitos deles de crônicas sobre a Feira de Santana que ele vivenciou na juventude.

Testemunha ocular de muitos acontecimentos históricos que marcaram a cidade e o país, a partir da década de 30, Antonio do Lajedinho, como também ficou conhecido, por causa do nome de uma antiga fazenda de sua propriedade, diz que nunca teve a pretensão de fazer História. “Não sou estudioso ou pesquisador dos assuntos, apenas conto aquilo que vi. Minhas lembranças de mocidade. Sou um memorialista”, explica.

Ao longo dos anos, a prodigiosa memória do escritor e sua imensa habilidade como cronista deram tantos frutos bons, que seus textos são (ainda que não seja essa a sua ambição) fontes de pesquisa histórica (muito prazerosas, por sinal) para todo aquele que quiser saber mais sobre a cidade antiga, tamanha é a riqueza de detalhes, na descrição dos fatos, costumes, modos de vida, localizações, personalidades, tradições e festejos populares e religiosos.

No livro A Feira na década de 30, por exemplo, o autor conduz o leitor a uma deleitosa viagem pelo tempo dos coronéis, chefes políticos com “patente” e poder de mandar e desmandar na cidadezinha de pouquíssimas ruas centrais, dentre elas a famosa Rua do Meio (atual Marechal Deodoro) e o seu prolongamento (hoje, Sales Barbosa), antigamente dividido em Rua de Cima (zona de baixo meretrício, onde estava situado o Beco do Bom e Barato, local de entretenimento masculino a preços módicos) e Rua de Baixo (área habitada por famílias feirenses).

A Feira de Santana do início do século passado ressurge tão vívida e familiar, nas páginas escritas pelo memorialista, que mesmo quem não viveu essa época áurea sente que pertence a ela. “É como encontrar um velho ancestral, que refaz o elo da nossa memória. Todo leitor que tenha afeição por Feira há de encontrar, nesse livro, não só as delimitações geográficas urbanas, mas também os costumes e comportamentos que forjam e constituem o diário do nosso povo. Há de viver um tempo que não alcançou, mas que é recuperado pelas palavras do autor. É um canto de saudação e saudade aos becos, ao povo feirense, às ruas ainda encobertas de poeira e apinhadas de tropeiros e vaqueiros, que compõem, desde sempre, nossa identidade. É uma forma de nos perpetuar, através de uma longa viagem sentimental pela história e pelas recordações de nossa cidade”, observa o médico e jornalista César Oliveira.

Muitos são os personagens ilustres que revivem através das narrativas de Antonio do Lajedinho, mas os tipos populares pinçados do esquecimento protagonizam as histórias mais divertidas, roubando a atenção do leitor. É o caso do bêbado Arthur Bostoque, a malhar, impiedosamente, os integralistas, apelidados de “Galinhas Verdes”, pelos adversários políticos, quando presos, por ordem do presidente Getúlio Vargas, a quem, inicialmente, apoiavam.

Outra figura hilária relembrada pelo cronista é Benzinho Cadê a Ema, apelido do pintor de parede Zeferino, amigo de infância do Coronel Agostinho Fróes da Motta. Nascido em 1871, viveu sua juventude em Feira, sempre pregando peças nos amigos. Ficou conhecido assim depois de rifar uma ema, prêmio que jamais entregou. No dia do sorteio, apareceu embriagado e quando lhe perguntavam pelo animal, dizia: “olhe eu nela!”. Também foi dele a façanha de ter vivido anos sem pagar aluguel, em uma casa de propriedade do Cel. Agostinho, localizada na Praça 2 de Julho. Muitas foram as peripécias de Benzinho para não deixar o imóvel, inclusive ameaçar explodir uma barrica de bacalhau cheia de carvão, mas que ele dizia ser pólvora. Tanto aprontou que acabou ficando.

MARIA QUITÉRIA – Mas, nas lembranças de Antonio do Lajedinho, nem tudo é riso. Em vários de seus livros, especialmente em A Feira na década de 30, A Feira no Século XX e Memórias de um feirense (aos 91 anos), o escritor também lamenta o parco reconhecimento aos que lutaram, bravamente, pelo país. Com vasto conhecimento histórico, relata a trajetória de vida da heroína feirense Maria Quitéria, que, vestida de homem, ingressou no Exército Brasileiro, alistada como Soldado Medeiros, com a finalidade de lutar contra os colonizadores portugueses, na Guerra de Independência.

Inconformado com a pouca importância dada a tão admirável personalidade local, foi dele a iniciativa de solicitar ao Governo Municipal que festejasse, oficialmente, o 2 de Julho (data que marca a expulsão dos dominadores da Bahia) no distrito de Maria Quitéria, antiga Vila de São José das Itapororocas, onde nasceu a oficial do Batalhão dos Voluntários do Príncipe (popularmente apelidado de Batalhão dos Periquitos), posteriormente condecorada, pelo próprio imperador Dom Pedro I, como Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro e elevada a Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército, por Decreto expedido em 1996.

O pedido de Antonio Moreira foi atendido em 2015 e, desde então, a celebração é realizada na localidade, com a presença de autoridades políticas e militares, em homenagem à heroína, que, para ele, veio ao mundo no dia 22 de maio de 1792, já que, naquela época, “era costume católico batizar os filhos com os nomes dos santos dos dias em que nasciam”.

SEGUNDA GUERRA – Do mesmo modo, o autor condena a desonrosa sentença de esquecimento imposta ao oficial do Exército Filemon Ferreira Cruz, feirense nascido no dia 8 de março de 1923, que, em 1942, abandonou os estudos para “atender o chamamento da Pátria” ultrajada pelo ataque nazifascista que, em 1941, vitimou mais de 500 brasileiros, entre homens, mulheres e crianças, nas águas de Salvador e Aracaju. O episódio determinou a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Na crônica intitulada Filemon morreu, Lajedinho desabafa, por ocasião do óbito do oficial, no dia 9 de julho de 2001, e do seu sepultamento, no dia seguinte: “Não fosse a presença do Exército, Filemon teria morrido como viveu: esquecido. Mas, um dia, as futuras gerações irão cobrar da sociedade e, principalmente, dos políticos, os nomes daqueles que não foram cantores, nem jogadores de futebol, mas resgataram a nossa liberdade e a nossa soberania, merecendo o desgastado nome de herói. Feira tem este débito para com os seus Filemons”, critica.

A dívida histórica de Feira de Santana para com seus ex-combatentes é, de fato, imensa. A cidade pouco fez para honrar a memória dos muitos homens que morreram em batalha e dos que sobreviveram aos horrores da Segunda Guerra. Antonio Moreira é um destes homens. Em janeiro de 1942, seguindo o exemplo do irmão, Eurícles Moreira Ferreira, que, um ano antes, ingressou na Marinha Brasileira, com o firme propósito de defender o país, decidiu prestar concurso, tendo sido habilitado a entrar na Escola de Aprendizes Marinheiros, onde concluiu os estudos se preparou, por dez meses, para o combate.

O escritor, que, aliás, é o único ex-combatente ainda vivo, em toda a região Nordeste, conta que, depois de passar pelo Comando Naval do Leste, finalmente embarcou no Cruzador Bahia, com destino à Base Naval do Nordeste, onde serviu no Encouraçado São Paulo, então em Recife, tendo participado de inúmeras operações, em toda a costa brasileira e também em território italiano, até o fim da guerra, em 1945.

No livro Um marinheiro do Brasil na 2ª Guerra Mundial: verdades que a História ainda omite, lançado em 2012, ele relata, nos mínimos detalhes, diversos aspectos da decisiva participação do Brasil no conflito. O país que lutou ao lado dos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e ex-União Soviética (Aliados) contra os países que formavam o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) ainda não teve reconhecido o seu devido valor na vitória sobre o projeto totalitarista de Adolf Hitler.

De acordo com o historiador Rodrigo Osório Pereira, autor do prefácio, a obra é de fundamental importância, por apresentar problemáticas ainda em aberto e pouco analisadas; por rever o papel do Brasil a partir da história de seus combatentes, que desempenharam funções militares na Itália e, sobretudo, no Atlântico Sul, infestado de submarinos alemães; e por trazer uma leitura individualizada do processo, por um ângulo diferente do habitual, isto é, do mar. “Chama a atenção uma narrativa que nos dá pistas sobre o importante papel desempenhado por nossos marinheiros, seja escoltando embarcações que movimentavam nossa vida mercantil ou enfrentando submarinos inimigos, numa guerra silenciosa, traiçoeira, surpreendente e perigosa, travada em águas profundas, que, embora na periferia do conflito, longe do front nazista, possibilitou toda a dinâmica náutica necessária para que, num trabalho conjunto, o assombroso projeto de Hitler para o mundo fosse completamente enterrado”, observa.

Antonio Moreira Ferreira diz que o livro é o único que une memória e pesquisa histórica. Ele salienta que buscou, em inúmeros arquivos militares, Brasil afora, informações e documentos para compor a obra. Nela, faz uma extensa contextualização, começando a série de narrativas pela Primeira Guerra Mundial.

Em seguida, detalha episódios da Segunda Guerra, sendo o mais famoso deles o que diz respeito às Batalhas de Monte Castelo. O ex-combatente dá uma versão que diz ser mais realista, já que a vitória na região italiana só foi conseguida após quatro derrotas, por um erro de estratégia. De acordo com o autor, corrigidas as táticas, os últimos confrontos não só foram vitoriosos, como marcaram a rendição da tropa nazista que ali combatia. E, segundo ele, o Brasil teve uma participação fundamental nesses eventos.

Para Lajedinho, a História do Brasil deve muito aos milhares de oficiais que perderam suas vidas nos fronts das duas guerras mundiais. Diferentemente de outros países, diz ele, o Brasil sequer comemora o fim dos conflitos. Homenagear seus militares, então, nem modestamente. O escritor enfatiza que o esquecimento institucional é tão grande que até mesmo livros didáticos chegam a ignorar a participação do Brasil, especialmente na Primeira Guerra. “Os soldados das Três Armas lavaram a honra da Pátria, que, então, fora agredida e ultrajada. Pena que o brasileiro sofre do mal de Alzheimer cultural”, lamenta, em uma crônica de 2017 sobre os 72 nos do fim da Segunda Guerra.

SOBREVIVENTE – Sobreviver a um conflito bélico deixa marcas profundas. Uma delas está descrita na crônica A minha simplória participação (trocando o Nós pelo Eu), na qual o autor relata o torpedeamento do navio Vital de Oliveira, do qual estava a bordo, pelo submarino alemão U 861, quando a embarcação navegava de Vitória em direção ao Rio de Janeiro. Náufrago, passou toda a noite no mar, à espera do resgate. Nesse meio tempo, perdeu o grande amigo apelidado de Bola Sete, que morreu nos seus braços, com uma perna destroçada, sem chance de socorro. Sem dúvida, esta é a narrativa mais tocante do livro, que deixa claro o valor de todos os oficiais que defenderam o país com suas próprias vidas. O episódio é sempre contado com muita emoção, pelo ex-combatente, em palestras realizadas nas escolas da cidade.

Primeiro cidadão feirense a entrar em combate contra os nazifascistas (ao todo, dez se alistaram), durante toda a sua trajetória, Antonio Moreira lutou para manter viva a memória da participação da cidade na Segunda Guerra. Presidente da Associação dos Ex-Combatentes, foi entusiasta da doação do prédio da entidade à Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), transmissão de posse que se concretizou em 2012, bem como da concessão do acervo ao 35º Batalhão de Infantaria, que o mantém salvaguardado e aberto à visitação pública.

Após muitos anos, com o auxílio do 35º BI e do Governo Municipal, conseguiu ver concretizado o sonho de equipar a Praça dos Ex-Combatentes com peças originais da Segunda Guerra (um canhão e dois flutuadores do Avião Catalina), além de um monumento representando o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.

SAUDADE – Como membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana (IHGFS), inúmeras foram as ações em prol do resgate e da valorização da memória da cidade. O escritor, que foi jornalista profissional, tendo atuado também como rábula (advogado que, não possuindo formação acadêmica em Direito, obtinha autorização do órgão competente do Poder Judiciário ou da entidade de classe para exercer, em primeira instância, a postulação em juízo), é imortal pela Academia Feirense de Letras (AFL).

Antonio do Lajedinho publicou diversas crônicas, nos jornais locais, criticando, incisivamente, a destruição do patrimônio arquitetônico, que ele diz considerar um crime. “Não sei o que leva as pessoas ao descaso pela memória de uma cidade, mesmo que não seja a sua terra natal. A repercussão desse descaso reflete a cultura do seu povo. E Feira de Santana vem se notabilizando pela maneira cruel e perversa com que destrói a memória da sua história”, lastima o autor, para quem “uma terra sem memória é como um corpo sem cabeça”.

Casado, há mais de 70 anos, com a professora Célia Lima Ferreira, partilha com ela a mesma saudade dos edifícios imponentes; das vendedoras de cuscuz e beiju de coco; das viagens a Salvador a bordo das marinetes; das brincadeiras da infância, nas ruas feirenses ainda livres da violência. “São muitas as lembranças e grande é a saudade das festas de Santana, com suas lavagens e tocatas; saudade dos festejos juninos, dos velhos carnavais e da primeira micareta; saudade do footing, nas proximidades do ‘Sueto’; dos estudos na Escola Normal Rural e das normalistas; dos passeios de trem, aos domingos, promovidos pelas filarmônicas locais; e saudade da minha infância e mocidade, que ficaram, há muitos e muitos anos, naquele maravilhoso baú de lembranças guardado no saudoso recanto do passado. Ah! Quanta saudade daquela cidadezinha antiga – Paraíso com Nome de Feira!”, recorda.



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