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André Pomponet

Anotações de uma silenciosa sexta-feira

André Pomponet - 03 de abril de 2020 | 22h 59
Anotações de uma silenciosa sexta-feira

Aqui da janela é possível ver, à distância, o declive que conduz ao rio Jacuípe e à BR 116 Sul. Ontem (03), o sol radioso – manhãs e tardes de abril são de uma luminosidade festiva aqui na Feira de Santana – e o céu claro permitiam ver as colinas suaves, verdejantes depois dos meses de chuvas regulares. Aqui ou ali se sobressaem os tons marrons do solo rugoso, pedregoso, típico daquelas cercanias. Forçando a vista – e a imaginação – o observador intui até mesmo a vegetação espinhosa, avara, da caatinga.

Mais além, contrastando com o azul esbranquiçado do céu, bem na linha do horizonte, as formas azuladas, arredondadas, de montanhas longínquas. Serão montanhas? Diluem-se um pouco no horizonte, é preciso atenção para vê-las. Onde ficam? Ipuaçu? Mais além em Antônio Cardoso, Santo Estêvão? Quem olha de longe e não é íntimo daquela região não consegue identificar.

À noite, a escuridão engole tudo. Então surgem as luzes distantes, que tremulam e, por instantes, se apagam. Mas logo ressurgem, ampliando a confusão do observador. São alaranjadas, amareladas; misturam-se, condensam-se, num jogo que prende a atenção por longos instantes. Com elas, alguns pensamentos sempre afloram.

Um deles é uma lembrança antiga. Quem vem à noite pela Estrada do Feijão desbrava longos quilômetros de escuridão profunda, quase indevassável. Lá adiante, na curva ampla de um aclive – subitamente – a Feira de Santana aparece espetacularmente como um imenso, multicolorido e vibrante tapete de luzes. É comum a sensação de conforto de quem, finalmente, chega.

À distância intui-se que o fluxo de veículos se reduziu com a pandemia do novo coronavírus. Sim, porque no horizonte viam-se fugazes, mas intensos focos de luz deslocando-se. Eram os faróis dos veículos que chegavam à Feira de Santana. Agora se intui apenas um movimento espasmódico, monótono para quem observa.

Essas observações lentas, cuidadosas, seriam impossíveis antes da pandemia do coronavírus. Há o trabalho, a rotina, aporrinhações miúdas, o acúmulo de tarefas que inibem a contemplação. Hoje o texto aflorou em meio à descoberta do céu azul, limpo de nuvens, da luz alaranjada do outono e dos voos graciosos de pássaros – sabiás, bem-te-vis, beija-flores, mesmo os pardais – nos intervalos do trabalho remoto.

A pandemia assusta, desconforta, amedronta. E o isolamento – que não se confunde com o ócio – é um incômodo suceder de expectativas. Mesmo assim, oferece algumas oportunidades. Uma delas é observar o que se passa à volta e até se encantar e se enternecer. A outra – mais desafiadora – é olhar para dentro de si mesmo.



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