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  • Feira de Santana, quinta, 04 de junho de 2020

César Oliveira

Temor não há

César oliveira - 22 de abril de 2020 | 09h 24
Temor não há

Leio as notícias e vejo que os serviços de saúde de alguns Estados se aproximam do colapso, mas é tanta notícia que já não sei o que é verdade o que é pandemia. Dizem que o pico da doença ainda virá, e parece que virá mesmo, ao menos nas cidades maiores. Imagino a fila de espera de nosso limitado sistema de saúde, em um país que prefere estádios quase inúteis a hospitais, afinal, eles não servem para disputar Copas e como isso pode se tornar explosivo. E a fome já espreita na cidade quase vazia e lacrada.

Tento de alguma maneira não pensar nas cenas difíceis das despedidas sem liturgias e do anonimato da morte. A história humana, no entanto, sempre foi tocada ao ritmo de grandes perdas embora achássemos que os tempos modernos, em que sondas espaciais já pousam em cometas, nos tivessem garantido proteção contra isso.

É sábado, e passo o dia no plantão da dialise. São pacientes de alto risco. Sinto a densidade que existe na espera, como se o ar pudesse ser cortado com o bisturi. Os chavões, às vezes, dizem coisas reais. Estamos todos diferentes na sala, com certo cerimonialismo, mascarados, evitando quebrar as barreiras, falar próximos, circular com objetos, e tensos com qualquer queixa de gripe. Lemos cada paper publicado com a esperança de um remédio que nos dê a liberdade do confinamento, mas que não se concretiza, embora saibamos cada vez mais dos poderosos estragos do vírus nos casos graves.

Celebramos as altas, nos hospitais, como afirmação a nós mesmos que é possível vencer. Faço exercício por uma hora quando chego em casa como um recado aos pulmões que, se preciso, eles têm o dever de aguentar e agradeço não ter sido fumante por mais de quinze dias. Em um dia longo, sinto falta dos filhos, impedidos de voltarem para casa , mas confio, apesar de que toda certeza que temos não passa de uma cordilheira de isopor.

No intervalo, vou tomar um café-antiviral efetivo-, e ouço, da entrada da Copa, dona Geisa, funcionária, cantando: porque ele vive, posso crer no amanhã/ porque ele vive, temor não há, não há, não há.

Demoro ali, até ela acabar. Desafinado, cantava isso para meus filhos dormirem e o canto me volta como um aditivo, um galope para o horizonte. Penso que temos ciência, água, sabão, e solidariedade, para vencermos. Vamos ficar bem.

Eu bem sei, temor não há, não há, não há, não há...



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