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  • Feira de Santana, segunda, 10 de agosto de 2020

Brasil

Bia Doria diz que não se deve doar marmitas para moradores de rua porque eles gostam de ficar nas ruas

03 de julho de 2020 | 16h 30
Bia Doria diz que não se deve doar marmitas para moradores de rua porque eles gostam de ficar nas ruas
Foto: Reprodução
Bia Doria, mulher do governador de São Paulo João Doria (PSDB), declarou em entrevista à socialite Val Marchiori que não se deve doar marmitas para moradores de rua porque "as pessoas gostam de ficar na rua" e elas "têm que se conscientizar e sair dessa situação".
 
Gravado no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, o vídeo da entrevista foi publicado em uma rede social na noite de quinta-feira (2), e se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter nesta sexta-feira (3). Inúmeras instituições divulgaram notas de repúdio sobre a fala da primeira-dama.
 
"Mas olha, falando dos projetos sociais, algo muito importante é assim: as pessoas que estão na rua, não é correto você chegar lá na rua e dar marmita e dar porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua. Porque a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua", afirma Bia Doria.
 
Uma pesquisa da Prefeitura de janeiro deste ano revelou que a população de rua cresceu 53% nos últimos quatro anos, chegando a 24 mil pessoas. Bia cita esse número, que diz ser "muito grande". Ela é presidente do Conselho do Fundo Social de São Paulo e está à frente do Fundo Social de Solidariedade com projetos como Alimento Solidário e Inverno Solidário.
 
Segundo a Prefeitura, a pandemia de coronavírus já matou 28 sem-teto na capital paulista. Conforme o G1 mostrou, um projeto da Prefeitura para oferecer vagas em hotéis a sem-teto idosos não saiu do papel. As propostas recebidas não atendiam aos requisitos de editais. A terceira convocação pública sequer teve donos de hoteis interessados.
 
No vídeo, Val e Bia falam que moradores de rua resistem a procurar abrigos porque "não querem ter responsabilidades."
 
"Você estava me explicando e eu fiquei passada. Eles não querem sair da rua porque em um abrigo eles têm horário para entrar, eles têm responsabilidades, limpeza, e eles não querem né", diz Val.
 
"Não querem", responde Bia. "A pessoa quer, ela quer receber, ela quer a comida, ela quer roupa, ela quer uma ajuda e não quer ter responsabilidade. Então isso tá muito errado, porque se a gente quer viver num país..."
 
"É, todo mundo tem suas responsabilidades, todo mundo", interrompe Val. "Nós temos, se a gente não pagar nossas contas...", completa Bia.
 
Durante a conversa, Val reclama de ter de usar máscara e conta que "graças a Deus" já teve Covid-19. Bia diz que, então, ela pode tirar a máscara e só voltar a usar ao sair do local.
 
"E a Bia Doria está fazendo um trabalho maravilhoso, de consciência mesmo, as pessoas que vivem na rua tentar levar para os abrigos, eu tenho acompanhado aí e esse é o trabalho da primeira-dama, gente, não é só fazer foto não, hello, tem que primeira dama só fica com o cabelinho arrumado? Não, não, a Bia ó, a Bia é mão na massa aqui, a loca. Ai gente, eu detesto falar de máscara, mas enfim", diz Val.
 
Em nota, a Secretaria Especial de Comunicação do governo estadual esclarece que a fala de Bia "foi tirada do contexto" e diz que a intenção dela "é que as pessoas em situação de rua tenham acesso aos abrigos públicos, onde terão alimentação de qualidade dentro das normas de higiene da Vigilância Sanitária, e uma condição de vida mais digna. Ou mesmo nos Restaurantes Bom Prato, que recentemente decretaram gratuidade aos moradores de rua."
 
Inúmeras instituições divulgaram notas de repúdio contra a fala de Bia Doria.
 
A pastoral de rua de São Paulo, representada pelo Padre Júlio Lancellotti, da Arquidiocese de São Paulo, disse que "vê com indignação e perplexidade o vídeo em que a senhora primeira-dama do estado e presidente do Conselho do Fundo Social de São Paulo declara que a população de rua 'gosta' de estar na rua e que se acomoda por receber alimentos e roupas."
 
"Opiniões desta natureza reforçam a violência, discriminação e preconceito que diariamente fere e humilha os que são relegados ao abandono e omissão do Estado. Tais declarações ferem a dignidade humana e são mais uma agressão aos que nas ruas não tem como se defender", diz a nota.
 
Levi Araujo, pastor batista da Comunidade Caverna, disse que o vídeo é "repugnante" e "revela a feiura de alma e a ignorância vergonhosa da maioria abastada classe social brasileira."
 
"Esses meritocratas realmente acreditam nessa lógica tosca e inculta. Nada sabem sobre as pessoas em situação de rua, as condições que as levaram a esse estado e, principalmente, como a compreensão dessa realidade é complexa e mais profunda."
 
"Ultimamente, todo dia é dia de ficar indignado, hoje essas madames, representantes da maioria de sua classe, ofenderam os meus irmãos e irmãs de rua, desrespeitaram os profissionais e amigos que entregam a vida diariamente para servir essas pessoas e, principalmente, a Jesus de Nazaré, a quem sigo e sirvo. Quando estou respeitando a dignidade dessas pessoas, buscando políticas públicas abalizadas pela ciência, enfim, quando eu as sirvo com amor eu estou servindo ao próprio Jesus Cristo."
 
Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), disse em nota que a decisão de entregar ou não comida, roupas e dinheiro para as pessoas que estão nas ruas pedindo é individual e pessoal e que não cabe ao estado interferir.
 
“O estado (governos) precisa oferecer vários serviços públicos, de saúde mental, moradia, geração de renda, qualificação para o mercado de trabalho, educação, assistência social, inclusive albergues e serviços de acolhimento que recebam as pessoas com seus animais (cães e gatos) e bens pessoais, que incluem os carrinhos dos catadores de materiais recicláveis. Essas ações evitariam que tantas pessoas estivessem nas ruas."
 
"Agora com a pandemia e aumento do desemprego e da falta de renda o número de pessoas nas ruas tem aumentado e o estado não tem tomado as ações necessárias, como convênios com hotéis de baixo custo para manter as pessoas hospedadas. Se não fossem as ONGs, igrejas e iniciativas individuais, com o fechamento dos comércios na quarentena, as pessoas em situação de rua estariam passando fome.”
 
Leia abaixo a nota completa enviada ao G1 pela Secretaria Especial de Comunicação do governo estadual.
 
"Em relação aos comentários sobre pessoas em situação de rua, a presidente do Conselho do Fundo Social de São Paulo, Bia Doria, esclarece que sua fala foi tirada do contexto e enfatiza que a sua intenção é que as pessoas em situação de rua tenham acesso aos abrigos públicos, onde terão alimentação de qualidade dentro das normas de higiene da Vigilância Sanitária, e uma condição de vida mais digna. Ou mesmo nos Restaurantes Bom Prato, que recentemente decretaram gratuidade aos moradores de rua.
 
À frente do Fundo Social de Solidariedade, Bia Doria desenvolve uma série de ações em benefício dos mais necessitados, participando ativamente na execução das ações em campo, como a campanha Inverno Solidário, que já distribuiu milhares de cobertores, e a distribuição de cestas básicas em comunidades carentes."

FONTE: G1



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