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  • Feira de Santana, sábado, 08 de agosto de 2020

André Pomponet

A silenciosa inquietação do feirense com a pandemia

André Pamponet - 06 de julho de 2020 | 10h 09
A silenciosa inquietação do feirense com a pandemia
Foto: Reprodução
– Vamos torcer para isso acabar logo. Não vejo a hora de poder trabalhar sem máscara. Esse troço incomoda, sufoca. Mas tem que se proteger, fazer o quê?
 
Trajando farda azul, o cidadão media o consumo de energia elétrica e imprimia recibos. Ele trabalha de porta em porta, para a empresa concessionária do serviço. A frase veio quando arrematava a tarefa. Despediu-se e, lépido, seguiu adiante. O desencanto no tom de voz não passou despercebido. Intuí uma esperança trêmula, hesitante, e, talvez, algum desespero com o prolongado calvário do novo coronavírus.
Mais tarde passou o entregador de botijões de gás. Com firmeza e rapidez manuseou o recipiente que retirou de um caminhãozinho com a colaboração de um ajudante jovem. Colocou o botijão no chão, recebeu o pagamento, passou o troco. Por fim, despediu-se com uma mensagem otimista:
 
– Vamos sobreviver, vamos superar isso – Assegurou. Notei a mesma inquietação na voz, a hesitação, o pânico de quem teme que a pandemia se arraste indefinidamente. Depois embarcou no veículo e arrancou com uma manobra ágil.
 
Fiquei remoendo um pouco essas angústias e inquietações, sob o sol da manhã de julho. Até me distraí examinando o jardim de cravos-de-cristo. A planta, impregnada de espinhos, também ostenta florezinhas mimosas. No emaranhado de galhos, aranhas tecem teias engenhosas, cujos fios reluzem sob o sol. O silêncio dessa labuta só é rompido pelo zumbido das abelhas, que sobrevoavam as flores. Apesar da pandemia, a natureza mantém seus pequenos espetáculos cotidianos.
 
O fato é que o brasileiro já está enfastiado com o prolongado isolamento social, com as restrições à antiga rotina, com as agruras econômicas que vão se avolumando. Já não há só fastio. É mais, até, que mal-estar. Percebo – nos olhares da gente que circula pelas ruas com suas máscaras – um desespero surdo, um desânimo que vai se fincando raízes. Talvez o anseio pelo retorno à normalidade a qualquer preço – mesmo com a Covid-19 fazendo estragos – derive deste sentimento.
 
Pior é que, pelas estimativas dos especialistas, sequer se chegou ao pico da pandemia. Depois dela virá o platô para, só em seguida, o horror começar a declinar. Os prognósticos mais otimistas projetam o começo do declive somente em agosto. No fundo, a angústia e o desespero não derivam desse script, comum em qualquer pandemia. A falta de um rumo para o País, de qualquer orientação ou planejamento, é o que atordoa o brasileiro comum. Ele não verbaliza, não racionaliza, mas sente essa desorientação. E se angustia.
 
Na terça-feira (07), o comércio fecha novamente na Feira de Santana, porque a estrutura hospitalar do município aproxima-se do colapso. Com tanta gente na rua era previsível, até para o leigo mais distraído. Mas como garantir o isolamento num país tão desigual, prenhe de carências e dificuldades? Poucos discutem a questão, essencial para se entender a devastação da Covid-19.
 
Infelizmente a semana começa com as angústias renovadas. E lá se vão quase quatro meses desde o começo dessa tragédia que parece não ter fim...


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