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André Pomponet

... Pois já vai terminando o verão...

André Pomponet - 04 de março de 2021 | 20h 18
... Pois já vai terminando o verão...

“... Pois já vai terminando o verão...”

O canto melancólico das cigarras vem tornando as manhãs mais tristes, apesar da luz alegre do sol. O que às vezes espanta essa tristeza é o trinado do sabiá. Ambos devem silenciar dentro de mais alguns dias porque, como bem diz a letra de “As rosas não falam”, do imortal Cartola, transcrita acima, o verão vai terminando. É o mais triste final de verão do Brasil nas últimas décadas. Por aqui, ultimamente, sempre bate a sensação de que a esperança saiu de férias. Sem perspectiva de retornar.

Parece que o diabo zombou duas vezes do Brasil nos últimos tempos. A primeira foi em 2018, quando parte do eleitorado chancelou um pacto com a morte elegendo Jair Bolsonaro, o “mito”, para a presidência da República. A segunda zombaria foi a pandemia do novo coronavírus, que abalroou o mundo também. Aqui, combinados, esses eventos malignos produziram todo esse horror que completou um ano. E, o que é pior, sem perspectiva de acabar.

Em “As rosas não falam” Cartola canta um amor que não é mais correspondido. Quem o ouve sente a dor, o vazio, a tristeza, a desolação de quem foi abandonado e que agora só tem as rosas, mudas, para se queixar. Piorando tudo, o verão que termina. A canção – uma das mais belas da Música Popular Brasileira – é de uma sensibilidade poética ímpar, marca registrada deste sambista genial. Mas reflete apenas um drama particular. À volta do apaixonado, o mundo seguia seu curso normal.

No Brasil de hoje, cujo verão também já vai terminando, o drama é coletivo, por mais que muitos desdenhem, façam pouco caso, só pensem no lucro. São funestas as projeções para a pandemia em março, com suas águas que encerram o verão e com o outono que já se descortina com temperatura mais amena, com luminosidade magnífica. E sequer temos um Cartola para cantar nossas dores coletivas no Brasil que emburrece e empobrece. Lá fora, o canto das cigarras tem um quê de fúnebre.

Nossos laços com a vida – que muitos querem suprimir, sufocar, extirpar – dependem, agora, de uma campanha maciça de vacinação. Governadores e prefeitos sensatos e consequentes estão se mobilizando, costurando um consórcio para adquirir os imunizantes. É bom. Porque, no que depender da trupe encastelada no Planalto Central, muita gente vai seguir morrendo porque a deles, no fundo, é a morte.

Mesmo com os milhões de doses de vacinas que eles anunciam, toda semana, num teatro patético que já cansou os brasileiros mais esclarecidos...



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