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André Pomponet

A obscura emergência do fundamentalismo evangélico

03 de julho de 2015 | 09h 21
A obscura emergência do fundamentalismo evangélico

Alguns pensadores com inclinações positivistas tendem a enxergar as sociedades humanas como fadadas ao progresso constante. Traçaríamos, sob essa perspectiva, uma imaginária espiral ascendente, sempre galgando patamares superiores àqueles do passado. Alguns avanços, efetivamente, são indiscutíveis: ninguém, com juízo ou sem mínimas inclinações excêntricas, renunciaria ao conforto de uma lâmpada elétrica para viver sob a luz de um candeeiro fumacento. Ou à comodidade de um banho em chuveiro elétrico para ferver água em caldeirão numa fogueira.

Mas, embora os avanços tecnológicos tendam a ser consensuais, a vida é constituída por múltiplos matizes. Aqui, a superação de um determinado obstáculo, lá adiante, vai ensejar o surgimento de um problema que, acolá, exigirá consideráveis esforços para ser vencido. Esse é o lado fascinante das sociedades humanas e da própria vida.

Até aí os positivistas podem reivindicar alguma razão: o gênio humano, ao longo de milhares de anos, produziu avanços consideráveis, dignos de orgulho e até de exaltação. Porém, essa corrente filosófica, vira e mexe, esbarra em situações capazes de pô-la em xeque, de até mesmo expô-la ao constrangimento. É o caso, no presente, da ressurgência de um fundamentalismo religioso capaz de ameaçar até mesmo as grandes conquistas da era moderna.

A face mais ortodoxa desse fundamentalismo costuma ser associada ao islamismo: em regiões remotas da Ásia e da África, grupos radicais sequestram e matam mulheres e crianças, decapitam reféns ocidentais, desafiam governos e tocam guerras fratricidas que semeiam a dor e o medo. Movem-se inspirados por uma peculiar concepção de sociedade, esquecida no alvorecer da modernidade.

Fundamentalismo cristão

Por aqui, contrariando toda a lógica positivista, também nos vemos às voltas com um fenômeno novo: um fundamentalismo de inspiração pseudo-cristã iracundo, rancoroso, pouco afeito à fraternidade dos Evangelhos. Fermentado desde meados dos anos 1970, esse processo ganhou visibilidade nos últimos anos, alavancado pela proliferação de seitas e pelo significativo controle dos meios de comunicação.

Inicialmente, esse fervor se manifestou com a implacável perseguição aos adeptos das religiões de matriz africana e, sobretudo, aos homossexuais. Os ataques não se limitaram às vituperações nas emissoras de tevê: envolveram, inclusive, assédio e até agressões físicas. Tudo, é claro, envolto no discurso da pureza: converter compulsoriamente os ímpios, aproximando-os de Jesus Cristo.

Aqui ou ali, alguns insanos até se aventuraram a espatifar santos católicos aos pontapés. Mas, dada a própria força da Igreja Católica, a prática ainda é restrita e, eventualmente, criticada. Melhor, portanto, seguir fustigando o candomblé e demonizando seus adeptos, mais vulneráveis à sanha fundamentalista.

Legislação

O crescimento desse fundamentalismo conduziu à inevitável ampliação do número de alvos: das militantes feministas que pelejam para descriminalizar o aborto até à redução da maioridade penal, passando pela legalização da pena de morte e por maior rigor criminal aos usuários de drogas, tudo que destoe desse dogmatismo é estigmatizado. Quem discorda, é inevitavelmente associado ao Tinhoso.

Se isso se associasse à sanha de uma meia-dúzia de lunáticos, tudo bem: todos têm o direito de conviver com seus demônios interiores da forma que melhor lhes convêm. O problema é que o próprio Estado já se sujeita a essa sanha, com uma bem fornida bancada do dízimo – más línguas falam em “trízimo” – impondo uma agenda política que, caso prospere, breve conduzirá a humanidade de volta às cavernas. É o que se vê em Brasília, nos estados e nos municípios.

São tempos difíceis: crise econômica – na qual o trabalhador é o principal convocado para pagar a conta –, infindável crise política, corrupção desenfreada e, desarranjando tudo, a emergência de um conservadorismo religioso cujos desdobramentos são imprevisíveis. Coisa de fazer Auguste Comte – o principal filósofo do Positivismo – rolar em sua tumba lá em Paris, talvez renegando seus pensamentos...



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