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  • Feira de Santana, quarta, 27 de outubro de 2021

André Pomponet

Fugindo para o futuro

André Pomponet - 25 de Setembro de 2021 | 20h 34
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Fugindo para o futuro

Lembro que, há dois anos, as propagandas para o Natal que se avizinhava começaram logo no início de outubro. Pelas mídias sociais e pelas ruas notava gente reclamando, desejando que o ano - 2019 não foi visto como muito auspicioso por bastante gente - acabasse logo e, junto com ele, findasse a sucessão de dissabores individuais e coletivos. Na precoce publicidade natalina e nestes anseios - na verdade, a propaganda antecipada era uma expressão destas mesmas aspirações - havia aquele desejo de fugir para o futuro, deixando atrás de si o presente aziago.

Como todo mundo sabe, 2020 não foi e 2021 não está sendo exatamente favorável. Afinal, a pandemia da Covid-19 começou ano passado e ainda está aí na praça, matando centenas de brasileiros todos os dias. Os impactos sobre a economia - e sobre as demais dimensões da vida - estão sendo brutais. Sobretudo porque, hoje, o Brasil é um País sem governo. Assim, o que seria naturalmente ruim se tornou muito pior.

Ano que vem também promete ser bem amargo. Afinal, a crise hídrica - com repercussão sobre a oferta de energia -, a inflação crescente, o desemprego alarmante, a implosão de direitos trabalhistas, a precária oferta de serviços públicos, a anti-política ambiental e o acintoso desrespeito à democracia e aos direitos humanos não serão revogados com genuflexões, jejuns e orações. O Brasil ainda corre o alarmante risco de desembestar para uma degeneração talebanesca, conduzido por lunáticos, alucinados e aloprados.

Mas, como sempre cabe cultivar otimismo moderado - nestas circunstâncias, exige-se muita cautela -, talvez em 2022 o Brasil consiga se livrar da zombaria que o diabo, arguto, engendrou nas eleições de 2018. Afinal, nas eleições presidenciais não estarão em jogo projetos políticos, mas uma disjuntiva bem mais cristalina: a vida contra a morte, a civilização versus a barbárie. Nem é preciso mencionar quem encarna a morte e a barbárie.

As ideias e o texto brotam no começo da noite de sábado. Noutros tempos, haveria rumor, música ao longe, vozes animadas. Sobretudo com as noites mais quentes, com o verão se aproximando. Mas, desde o começo da pandemia, um silêncio melancólico pesa sobre o casario da Feira de Santana. Até as noites de sábado estão melancólicas.

Muitos permanecem por aí remoendo suas agruras sob um silêncio incomum para o baiano. Talvez, também, exercitando a desesperada utopia de fugir para um futuro mais venturoso que nunca chega...



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