Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, ter�a, 09 de junho de 2026

Wellington Freire

A fronteira invisível dos impérios

Wellington Freire - 09 de Junho de 2026 | 06h 42
A fronteira invisível dos impérios
Créditos: BBC Brasil

Quando um míssil iraniano cruza os céus em direção a Israel, a atenção do noticiário costuma se concentrar na trajetória do projétil, nos danos provocados e no risco de escalada militar. Mas, muitas vezes, o aspecto mais importante de um ataque não está na explosão. Está na mensagem política que ele carrega.

A recente justificativa apresentada por Teerã para sua ação militar contém uma ideia que atravessa séculos de história: a de que um ataque contra um aliado pode ser interpretado como um ataque contra o próprio Estado. Os mapas mostram fronteiras. A história mostra outra coisa.

À primeira vista, parece uma formulação moderna. Na realidade, é uma das mais antigas lógicas da política internacional. Impérios raramente se limitam ao território que controlam diretamente. Eles costumam construir ao redor de si uma zona de influência composta por aliados, clientes, protetorados e parceiros estratégicos. Com o tempo, esses espaços passam a ser percebidos não apenas como amigos, mas como extensões da própria segurança nacional.

Atenas compreendeu isso há mais de dois mil anos. Após as Guerras Médicas, os atenienses organizaram a Liga de Delos, uma aliança destinada, em teoria, à defesa coletiva contra os persas. Com o passar das décadas, porém, Atenas passou a enxergar qualquer ameaça às cidades aliadas como uma ameaça à própria cidade. O império ateniense não terminava nos limites da Ática. Suas fronteiras reais estavam espalhadas pelo mar Egeu.

Roma agiu de forma semelhante. Os romanos desenvolveram uma vasta rede de reinos clientes e povos aliados. Muitos desses territórios permaneciam formalmente independentes. Na prática, porém, qualquer agressão contra eles podia justificar uma intervenção das legiões. O império expandia sua influência muito antes de expandir suas fronteiras.

  A lógica permaneceu viva nos séculos seguintes. Em 1914, a Áustria-Hungria utilizou o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando para pressionar a Sérvia. A Rússia, por sua vez, considerava os sérvios parte de sua esfera de influência. O resultado foi uma reação em cadeia que transformou uma crise balcânica em uma guerra mundial. O problema não estava apenas na Sérvia. Estava naquilo que a Sérvia representava para outras potências.

O mesmo princípio continua operando no século XXI. Quando um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte sofre um ataque, os demais integrantes consideram que todos foram atacados. O famoso Artigo 5 da aliança transforma uma agressão local em uma questão coletiva. Nesse sentido, as fronteiras estratégicas dos Estados Unidos não terminam na Califórnia ou na Flórida. Elas alcançam Varsóvia, Tallinn, Vilnius e dezenas de outros pontos espalhados pelo globo.

É justamente essa lógica que parece emergir na atual postura iraniana. Ao sugerir que uma ação israelense contra o Hezbollah exige uma resposta iraniana, Teerã está tentando redesenhar as linhas do confronto. O recado é simples: o Hezbollah não deve ser visto apenas como um aliado distante. Deve ser percebido como parte de um espaço estratégico cuja violação terá custos.

Se essa interpretação vier a ser aceita pelos adversários, a geografia política do Oriente Médio sofrerá uma alteração importante. O Líbano deixará de ser apenas o Líbano. Passará a funcionar, aos olhos de muitos estrategistas, como uma extensão da própria fronteira iraniana.

A história ensina que os impérios raramente começam expandindo seus territórios. Eles começam expandindo suas definições de segurança. Primeiro surgem os aliados. Depois aparecem os compromissos. Em seguida vêm as garantias. E, por fim, nasce uma nova fronteira, invisível nos mapas, mas extremamente real nos cálculos da guerra.

Os cartógrafos desenham linhas. As potências desenham zonas de influência. E, muitas vezes, é nessa fronteira invisível que as grandes guerras começam.





Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

Charge do Borega

As mais lidas hoje