“Basta você comprar o jornal uma vez por semana, pois as
notícias não mudam muito". Era assim que meu pai percebia o mundo.
Morávamos na zona rural, a quatro quilômetros da cidade, à qual eu, com 8 anos,
ia, diariamente, de bicicleta para estudar. No retorno, trazia pão e, uma vez
por semana, o jornal A Tarde.
O mundo era mais interno e menos de exibição; mais resumido e
menos diverso; mais definido e menos ambíguo. O intervalo de sete dias,
escolhido por meu pai, mostrava o tempo em que a terra parecia estacionada
diante do sol. E, no entanto, se movia. E
pur si muove...
A vida era vivida em silêncio e quase anonimato. A existência
não precisava de eco, para ter valor. Não tínhamos repercussão além dos limites
da vizinhança ou de algum parente próximo. Ninguém estranho nos validava, e a
inveja — tão humana — era estreita e pontual. Não havia a angústia da
comparação com os palácios de vidro do resto do mundo.
No rádio que tínhamos — e ainda tenho —, o que interessava
eram as radionovelas e as notícias. Não havia resenha da vida fútil de
desconhecidos ou de influencers de
pouco talento e escasso caráter, que, hoje, ditam regras, modas e modelos.
A modernidade operou uma transição violenta. Ela nos jogou em
uma arena pública permanente. Hoje, a existência virou uma performance diária.
Lutamos, desde o instante em que acordamos, para sermos visualizados e,
preferencialmente, "curtidos" por uma massa amorfa de pessoas que não
conhecemos, com quem não compactuamos e com quem nunca cruzaremos, na vida
real.
O paradoxo dessa hiperconexão é assustador. Ao mesmo tempo em
que buscamos o aplauso desses estranhos, vivemos sob o terror constante de sua
desaprovação. O tribunal da internet é implacável e invisível. Somos julgados
por críticos ocultos, linchadores digitais que destilam frustrações atrás de
telas e impulsionamentos artificiais — gente que você nem imagina do que seria
capaz se vista de perto, sem o filtro da impessoalidade.
A vida deixou de ser a busca por significado e tornou-se a
busca por repercussão — o novo Deus do universo moderno. O narciso coletivo
passou a achar feio o que não é postado e comentado. O algoritmo, essa entidade
matemática e invisível que decide quem é incluído ou isolado, tornou-se o
senhor absoluto dos nossos destinos.
O novo Santo Graal
da existência humana passou a ser o barulho. Transformamos nossas vidas
privadas em um confessionário público e permanente, mas com uma trágica
diferença dos confessionários de outrora: nas redes sociais, não há perdão,
apenas julgamento. Nietzsche já nos alertava que o barulho e a agitação da vida
moderna envenenam a espiritualidade.
Já não nos bastamos a nós mesmos. Abrimos mão da nossa própria
consciência e do nosso próprio tribunal interno, para entregar a chave da nossa
autoestima nas mãos de desconhecidos. Trocamos a paz daquela estrada de terra
de quatro quilômetros, onde o vento e o silêncio bastavam, pela ilusão
barulhenta de uma aprovação que, no fundo, não preenche ninguém.
O jornal semanal é apenas passado, mas precisamos ser reinventados à moda antiga.