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  • Feira de Santana, segunda, 29 de junho de 2026

César Oliveira

O fim da vida em silêncio

César Oliveira - 29 de Junho de 2026 | 12h 45
O fim da vida em silêncio
Foto: Reprodução

“Basta você comprar o jornal uma vez por semana, pois as notícias não mudam muito". Era assim que meu pai percebia o mundo. Morávamos na zona rural, a quatro quilômetros da cidade, à qual eu, com 8 anos, ia, diariamente, de bicicleta para estudar. No retorno, trazia pão e, uma vez por semana, o jornal A Tarde.

O mundo era mais interno e menos de exibição; mais resumido e menos diverso; mais definido e menos ambíguo. O intervalo de sete dias, escolhido por meu pai, mostrava o tempo em que a terra parecia estacionada diante do sol. E, no entanto, se movia. E pur si muove...

A vida era vivida em silêncio e quase anonimato. A existência não precisava de eco, para ter valor. Não tínhamos repercussão além dos limites da vizinhança ou de algum parente próximo. Ninguém estranho nos validava, e a inveja — tão humana — era estreita e pontual. Não havia a angústia da comparação  com os palácios de vidro do resto do mundo.

No rádio que tínhamos — e ainda tenho —, o que interessava eram as radionovelas e as notícias. Não havia resenha da vida fútil de desconhecidos ou de influencers de pouco talento e escasso caráter, que, hoje, ditam regras, modas e modelos.

A modernidade operou uma transição violenta. Ela nos jogou em uma arena pública permanente. Hoje, a existência virou uma performance diária. Lutamos, desde o instante em que acordamos, para sermos visualizados e, preferencialmente, "curtidos" por uma massa amorfa de pessoas que não conhecemos, com quem não compactuamos e com quem nunca cruzaremos, na vida real.

O paradoxo dessa hiperconexão é assustador. Ao mesmo tempo em que buscamos o aplauso desses estranhos, vivemos sob o terror constante de sua desaprovação. O tribunal da internet é implacável e invisível. Somos julgados por críticos ocultos, linchadores digitais que destilam frustrações atrás de telas e impulsionamentos artificiais — gente que você nem imagina do que seria capaz se vista de perto, sem o filtro da impessoalidade.

A vida deixou de ser a busca por significado e tornou-se a busca por repercussão — o novo Deus do universo moderno. O narciso coletivo passou a achar feio o que não é postado e comentado. O algoritmo, essa entidade matemática e invisível que decide quem é incluído ou isolado, tornou-se o senhor absoluto dos nossos destinos.

O novo Santo Graal da existência humana passou a ser o barulho. Transformamos nossas vidas privadas em um confessionário público e permanente, mas com uma trágica diferença dos confessionários de outrora: nas redes sociais, não há perdão, apenas julgamento. Nietzsche já nos alertava que o barulho e a agitação da vida moderna envenenam a espiritualidade.

Já não nos bastamos a nós mesmos. Abrimos mão da nossa própria consciência e do nosso próprio tribunal interno, para entregar a chave da nossa autoestima nas mãos de desconhecidos. Trocamos a paz daquela estrada de terra de quatro quilômetros, onde o vento e o silêncio bastavam, pela ilusão barulhenta de uma aprovação que, no fundo, não preenche ninguém.

O jornal semanal é apenas passado, mas precisamos ser reinventados à moda antiga.



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