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André Pomponet

Oposição quer importar impeachment do Paraguai

16 de fevereiro de 2015 | 19h 34
Oposição quer importar impeachment do Paraguai

Ainda bem que vem chegando o Carnaval. Não que eu seja movido por uma ânsia foliã: é que os cinco dias do reinado momesco vão representar uma trégua passageira no infindável terceiro turno das eleições presidenciais. Explique-se: findo o processo eleitoral e proclamado o resultado das urnas, a oposição mergulhou em uma espiral conspiratória, à cata de uma justificativa para o impeachment de Dilma Rousseff que, talvez, arrefeça um pouco durante o reinado do Momo.

                 Primeiro, toscamente, contestou-se o resultado das urnas e o PSDB requereu uma auditoria visando apreciá-lo mais amiúde. Pelo visto, essa estratégia não rendeu o esperado. Depois, foi a vez de se contestar as contas da campanha presidencial: também sem efeito prático. O terceiro bote foi o questionamento da flexibilização do superávit primário – o que Fernando Henrique Cardoso também fez – igualmente sem resultado.

                A cada tentativa pairava, onipresente, a ameaça e o anseio incontido pelo impeachment. A expressão, aliás, incorporou-se à pauta do jornalismo político apenas uns três dias depois do pleito, espumejando a cada crítica dirigida à presidente. Mas, até dezembro, o espumejar mostrou-se totalmente inconsistente.

A aposta atual reside no descalabro da Petrobras, que vem vindo à tona em doses homeopáticas. Nele, até os empreiteiros e os executivos flagrados com a mão na massa foram convertidos em despojados delatores. A cada declaração, oposição e imprensa tateiam atalhos que conduzam a Dilma Rousseff e a Lula.

“Delação Premiada”

É evidente que o escândalo de corrupção que abalroou a Petrobras deve ser investigado e os responsáveis, punidos. Inclusive os empreiteiros que apontam o dedo acusador, sob o rótulo adocicado de “delação premiada”. O que está em jogo, porém, é mais que isso: é a possibilidade de apear o PT do poder na marra, já que nas urnas, pelo menos em 2014, não deu.

Para isso, vale até apostar em Eduardo Cunha na presidência da Câmara dos Deputados. Afinal, o reiterado discurso da “independência” que ele adotou ao longo da campanha talvez tenha sido para sinalizar que, caso o pedido de impeachment chegue à sua mesa, lá adiante, ele não vai se furtar em encaminhá-lo, celeremente, ao plenário.

Como novidade recente, do nada, como raio em céu azul, surge o parecer de um jurista conservador sinalizando para a existência de condições jurídicas para o impeachment. Isso sob encomenda de um advogado vinculado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais sintomático, impossível.

Condições políticas

 Todos esses elementos compõem o cenário apropriado para o pedido de impeachment que se pretende ir arquitetando. Enquanto isso, a oposição vai acumulando forças, escorando-se na imprensa que repisa impiedosamente o escândalo. Esse roteiro, a propósito, não tem nada de novo: é quase o mesmo aplicado no próprio Brasil em 1964 e nos demais países da América Latina.

O que há de novo é a ausência de uma conspiração militar – pelo menos até aqui – e o fato, amplamente conhecido, que a oposição também tem lá seus esqueletos no armário. Afinal, o escândalo no metrô da capital paulista, a crise hídrica que também afeta São Paulo e, provavelmente, Minas Gerais, e o próprio mensalão do PSDB mineiro não ornam com o discurso pudico apresentado pela oposição para consumo público.

É difícil prever no que pode resultar essa tentativa de golpe, que inclusive vem sendo tramado nos mesmos moldes do que foi aplicado no Paraguai há quase três anos. Suas consequências, no entanto, são facilmente imagináveis: restrições à liberdade, perseguições, autoritarismo e aumento das desigualdades estão sempre presentes nesse amarrotado roteiro...



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