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André Pomponet

Números da religião na Feira de Santana

20 de fevereiro de 2015 | 09h 59
Números da religião na Feira de Santana

Religião sempre foi tema espinhoso. Tanto que circula por aí uma máxima popular que lista três temas-tabu acerca dos quais é bom evitar discussão: política, futebol e – como é previsível – religião. Paradoxalmente, eventuais polêmicas em torno dos dois primeiros temas são compreensíveis: no futebol,centenasde equipes disputam a simpatia dos torcedores, pulverizando preferências e, por esta razão, despertando apaixonadas e inconclusivas discussões. A política, por sua vez, segue uma regra tautológica: se há governo, logo, há oposição. Mesmo minúscula ou lipoaspirada pelos encantos dos cofres públicos. Sendo assim, há debate e divergência.

Na seara da religião, no entanto, diversidade é coisa recente no Brasil. É que, ao longo de séculos, a Igreja Católica exerceu monopólio quase exclusivo sobre corações e mentes daqueles que pleiteavam conexão com o divino. Logo, divergência era coisa isolada. Isso até aproximadamente meados do século XX, quando os brados exaltados dos pastores começaram a se sobrepor às pregações mansas dos padres católicos.

Em Feira de Santana, por exemplo, o rebanho católico encolhe, apesar do crescimento da população. Em 1991 os católicos representavam 334 mil pessoas. Dez anos depois, eram 327 mil, para recuar para 318 mil em 2010. Ao longo dos mesmos 19 anos, a população feirense passou de 406 mil para 556 mil. Todos os números são de censos do IBGE.

No sentido oposto, os chamados evangélicos expandiram-se de maneira robusta: eram, no total, 27 mil em 1991; saltaram para pouco mais de 80 mil no censo seguinte, alcançando, por fim, 108 mil fieis no último levantamento, em 2010. Representam, portanto, cerca de um sexto da população. O total agrega os chamados pentecostais e as demais vertentes, que se pulverizam em dezenas – talvez centenas – de denominações diferentes.

Proliferação

Uma série de indícios sinalizava o crescimento dos evangélicos na Feira de Santana. O mais evidente é o surgimento de novos templos: em garagens, antigas borracharias, mercados de bairro falidos e até em instalações de bares e restaurantes, com frequência impressionante, surgem templos improvisados, sobretudo nos bairros periféricos. Alguns prosperam e, com reformas, ganham ar mais condizente com a sisudez religiosa; a maioria, porém, pouco frequentada, fecha em pouco tempo.

Outro indício foi o crescimento da chamada bancada evangélica, pejorativamente batizada de “bancada do dízimo”. Estão presentes em todos os parlamentos, com os mesmos discursos conservadores, a mesma disposição messiânica e – aqui ou ali – escorregam em escândalos de corrupção, já que a carne é fraca. Foi o caso, por exemplo, da Máfia dos Sanguessugas, que envolveu boa parte da bancada federal em 2006.

O esforço agressivo para promover conversões em massa, a propaganda baseada na banalização dos milagres e – sobretudo – o uso maciço da programação televisiva explicam parte do êxito. Porém, nem tudo na discussão religiosa é conversão. Há outras tendências em curso.

Sem religião

No Censo 1991 do IBGE, 31,4 mil feirenses declararam-se sem religião. Nove anos depois, em 2000, o número passou para pouco mais de 51 mil; No Censo 2010, novo salto: 68,3 mil pessoas afirmaram que não seguem nenhuma religião. Pelo visto, replica-se aqui fenômeno semelhante ao observado em relação à expansão evangélica: um grande salto no período 1991/2000 e um crescimento mais moderado no intervalo 2000/2010.

Os dados censitários atestam a estagnação da Igreja Católica, a ascensão dos chamados evangélicos e dos sem-religião. A comparação entre os dois censos, porém, mostra uma tendência à estabilização dos números, com o catolicismo ainda hegemônico e os evangélicos representando parcela expressiva da população.

Em suma, pode-se afirmar que hoje, de fato, existe maior diversidade religiosa. E essa diversidade empresta verdade à máxima popular indicada no início do texto. O que se espera é que a reconfiguração das opções religiosas da população não conduza à divisão e à intolerância. Ao logo de séculos, as disputas religiosas funcionaram como combustível para conflitos fraticidas. Exatamente o oposto daquilo que Jesus Cristo pregou...



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