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César Oliveira

O carnaval na Bahia

24 de fevereiro de 2015 | 10h 09
O carnaval na Bahia
Camarotes e foliões na rua, no Campo Grande

Longe de mim a pretensão de debater o axé - o que pode ser feito em várias vertentes, por especialistas - ou o carnaval em si, já que são meio e fim, um do outro. Pontuo apenas uma questão. Com início marcado, se preferirem, por Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, com o Fricote, sobre o trio e fama criada por Dodô&Osmar, Armandinho, Moraes, etc, o axé explodiu nacionalmente com Daniela (O Canto da Cidade), sendo o responsável por mudar o fluxo da cobertura de TV e migração de artistas do eixo Rio-São Paulo pra Bahia. A participação popular aqui, extensa e livre, acentuava o contraste com o espetáculo televisivo fantástico que é o carnaval das escolas de samba, limitado, porém, na inclusão de pessoas.

O fenômeno comercial do axé/carnaval atuou para o bem e o mal. Atraiu multidões, mas à medida que foi industrializando sua música, produziu degenerescências rítmicas, descartáveis, foi encastelando-se, camarotizando-se, tentando ser um espetáculo exibível, cênico. Este progressivo isolamento foi acompanhando um período de administrações desastrosas em Salvador, favorecendo a ação comercial, reduzindo os espaços para incorporação do folião sem bloco e a criatividade oriunda desta Bahia espetacularmente musical - muito negra - e resultando, em análise ligeira, na tão falada crise do axé, com a separação de Chiclete, Jamil, Asa, e redução do protagonismo musical (Olodum, Araketu, Gerônimo, etc) até da estrela maior, Ivete, que está longe de sucessos do passado.

Mais do que crise, acho, no entanto, que a queda destes artistas é natural, afinal, são 30 anos de atuação musical e os ciclos de criatividade são finitos. O que devemos observar é se há o surgimento de novos artistas que possam ocupar este espaço, com mais energia, renovando o cenário, criando no padrão da perene Raiz de Todo Bem, de Saulo. Se não detectarmos esta existência, se não viabilizarmos este espaço, e ficarmos presos e dependentes dos velhos ídolos, aí sim, teremos uma crise anunciada e fatal.

Por outro lado, sofrendo o impacto do carnaval de Salvador, Rio e São Paulo, resgataram seu adormecido carnaval de rua. Blocos sem corda, como o Cordão da Bola Preta (mínimo de 1 milhão de pessoas), Sargento Pimenta (180 mil), Bangalafumenga, entre outros, recolocaram a festa para participação popular em um crescimento explosivo.

Em mecanismo inverso de pressão creio que haverá uma nítida necessidade do carnaval de Salvador voltar às ruas. Alguns blocos desceram as cordas, várias estrelas desfilaram para o pipoca e uma administração mais organizada na cidade tenta realinhar o carnaval, embora ainda pareça pouco. Não é a toa que Mano Goes (Alavonté) acaba de dizer que o bloco de cordas acabou e Saulo declara que “é preciso devolver as ruas, porque as ruas sempre deram mais que receberam”.

A mudança, certamente, não deve agradar muito os puramente comerciantes, mas a necessidade é imperiosa para que a alegria do incomparável carnaval da Bahia - e seu axé, ou sucessor - não seja vencida pela comercialização excessiva, que gera um pacto de mediocridade, ainda que lucrativo. É preciso rever as maneiras de financiamento, de viabilização comercial, sim, inclusive com blocos e camarotes, mas nunca mais na dimensão e centralidade que tiveram, para que a festa se liberte e a criatividade musical tão evidente, desta terra, reapareça. Axé. 



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