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Geral

No escurinho do cinema pornô

22 de Outubro de 2015 | 11h 03
No escurinho do cinema pornô
A fachada está desgastada, mas há um público fiel que não cansa de freqüentar o cinema

O nome do Cine Íris deveria ser trocado para “Resistência”. Vendo a morte se aproximar, para sobreviver mudou radicalmente os cartazes. Antes tinha mudado de dono. Passou a exibir filme de sexo explícito. Dois, três, quatro por sessão, sempre à tarde. Uma maratona, mesmo para os “sexocinéfilos”. Também viu o perfil do público mudar, bem como minguar a quantidade de espectadores. Muitos homens e poucas, muito poucas mulheres, compram ingresso, que custa R$ 8. Não existe a figura da meia-entrada e não há registro de reclamação por parte de quem defende a meia para estudante.

O fim do Íris na Senhor dos Passos, onde funcionou por décadas, foi dos mais melancólicos. O prédio foi derrubado e a marca transferida para a rua de Aurora, oficialmente batizada de Filinto Marques. A relação entre os dois Íris é apenas o fato de serem homônimos. Hoje é o único cinema de rua da cidade e funciona todos os dias da semana.

O Íris foi fundado em meados da década de 40, e tinha “Theatro” no meio do seu nome. Teve seu período áureo, quando as filas de  espectadores entravam pela rua Carlos Gomes. Começou a morrer bem antes da consolidação das modernas salas de cinemas instaladas no shopping Center. Também morreram o Timbira e o Centro, em períodos próximos. Todos funcionavam na Senhor dos Passos. O Centro teve vida breve e funcionou em um pequeno shopping Center, onde depois foi instalada uma loja que vende eletrodomésticos. O Timbira deu lugar a uma loja de departamentos. O Íris foi parar num prédio modesto na rua de Aurora e continua mostrando seus filmes pornográficos em um equipamento também modesto.

As sessões começam pouco depois do meio-dia e se estendem até depois das 19 horas. Uma mulher, que pede para não ser identificada, vende os ingressos, os doces e os refrigerantes. Os espectadores pouco conversam e tratam logo de passar pela cortina preta que separa as cadeiras da recepção. Chegam sozinhos ou acompanhados. Mulher não é coisa rara no Íris, mas é difícil de ser ver entrando no cinema. Alguns, pela forma como cumprimentam, parecem ser clientes há tempos. Outros não conversam nada e somem rapidamente no escurinho. “Vem gente de outras cidades ver filmes aqui”, comentou a porteira/bilheteira.

A mulher, que revelou ter trabalhado em vários cinemas do centro, disse que nunca passou da cortina – nem antes, nem durante nem depois das exibições. Mas é impossível não ouvir “a trilha sonora” da ação dos filmes, quando diminui o barulho dos carros na rua. Discreta, ela parece não ouvir nada.  Diz que são poucos os homossexuais que freqüentam o cinema e garante que nunca foi chamada para intervir em qualquer situação constrangedora.

As portas do Íris são fechadas para os menores de idade. Entre balas e chicletes, preservativos são também oferecidos à clientela. “O que a gente procura aqui é diversão e nada mais”, diz um rapaz que assistiu dois filmes na sessão de segunda-feira passada, e pediu para não ser identificado. Um sorriso enigmático foi a resposta sobre a possibilidade de pegação no escurinho, fetiche alimentado por muitos, impulsionado pelo estímulo que vem das telas. “O que a gente pode dizer é que se quiser, encontra o que deseja”. Revelou que vai ao cinema até três vezes por semana. “Gosto do gênero. E quem não?”, provocou.

Outro que pediu que a sua identidade fosse preservada, mesmo afirmando que não estava fazendo nada de anormal, disse que o Cine Íris é a diversão de muitas pessoas que se sentem sozinhas. “Na sala a gente pode se socializar, conhecer novas pessoas ou simplesmente, no seu canto, assistir ao filme”, argumenta.

Do mesmo jeito que entram, saem. Mergulham no escuro e emergem. Tudo muito rapidamente. No dia seguinte, com certeza, parte dos espectadores retornará. “Que decadência nada”, afirma outro. É a diversão deles.



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