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André Pomponet

Lembranças de Havana IV

André Pomponet - 13 de Novembro de 2015 | 09h 58
Lembranças de Havana IV

No quarto do Hotel Vedado os móveis são antigos e os lençóis, surrados. Há um aparelho de televisão que lembra aqueles que eram vendidos no Brasil na primeira metade da década de 1980. No banheiro encontra-se um luxo que, certamente, não está acessível aos cubanos: uma banheira. Pelo basculante é possível enxergar, com dificuldade, as fachadas dos prédios no entorno. Embora próximo, não se vê o mar, por causa dos prédios.

Uma meia-dúzia de emissoras de tevê está disponível para os telespectadores. Durante a madrugada, uma delas exibe algo difícil de se ver na televisão brasileira: uma apresentação de balé. Outra passava propaganda governamental e uma terceira exibia avaliações sobre a crise econômica que se acentuava – era início de março de 2009 – no mundo capitalista.

Durante o café da manhã no Hotel Vedado não havia o mesmo burburinho da noite anterior, mas as pessoas que se serviam demonstravam a ávida inquietação de turistas que desejam conhecer a cidade. Em meio aos turistas, funcionários estatais mexiam-se, atendendo pedidos.

Utilizar o transporte público é uma forma interessante de conhecer um país estrangeiro. A dois quarteirões do hotel dezenas de pessoas aglomeravam-se no Malecón, à espera de condução. Estava ainda um pouco frio, pois soprava um vento cortante vindo do mar.

O embarque e o desembarque num dos ônibus que rodam em Havana é operação delicada. Os veículos circulam cheios e há sempre muita gente disposta a embarcar, nos pontos. Os ônibus são semi-novos, articulados, verdes, de fabricação coreana.

O próprio motorista é o encarregado de cobrar a passagem. O curioso, todavia, é que não existe aquele rito solene do pagamento da tarifa visível mundo afora: o motorista recebe as moedas, displicente, enquanto os passageiros procuram onde se acomodar; até vi um passageiro recusar-se a pagar, sob os protestos frouxos do motorista, que desistiu da cobrança depois de alguns instantes.

A viagem é embalada pelo som de ritmos caribenhos no rádio do ônibus. Nos intervalos musicais anunciam-se reuniões ou eventos governamentais: num desses intervalos, o motorista limitou-se a trocar de estação.

Observei ao redor, curioso: haveria algum dedo-duro anotando meticulosamente o horário e o número do ônibus? Não. Os passageiros pareciam pouco interessados em fazer espionagem.

O gesto e a reação soam estranhos: ditaduras terríveis se manifestam nos pequenos gestos de coação ou intimidação; o patrulhamento ideológico e a observância dos códigos de conduta, rígidos. Pelo menos é a imagem que se constrói no ocidente democrático e civilizado. Depois dessa surpresa inicial, viriam outras.



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