Discretamente
começam a surgir adesivos em carros lançando pré-candidatos a vereador. É claro
que ninguém se assume por enquanto – até porque a legislação não permite – mas
já se vê por aí “Fulana pela educação” ou “Beltrano da justiça social”. Quem olha
distraidamente se entusiasma: as questões que afligem a população estão aí,
contempladas, há quem se ocupe com elas.
Muita
gente não sabe, mas as novas regras eleitorais estão afunilando essa coisa de
candidaturas. Antigamente cada partido lançava chapa completa, era uma festa,
chovia candidato nos programas eleitorais. Agora, não. Segundo as novas regras,
cada partido pode lançar só 100% mais um candidato do total de vagas
disponíveis nas Câmaras Municipais.
Aqui
na Feira de Santana, por exemplo, cada partido pode lançar só 22 candidatos a
vereador. Antes, a regra cravava 150%, ou 33 postulantes. Uma farra em que
nomes inexpressivos, folclóricos ou histriônicos, divertiam o eleitor na tela
da tevê. Tudo indica que parte da diversão vai acabar. Afinal, o número de
candidaturas vai encolher.
Isso,
no entanto, não vem inibindo quem já distribui seus adesivos entre amigos, - ou
cabos eleitorais – tentando firmar-se desde já na memória do eleitor. O fato é
que a fantasia da vereança – com todos os seus privilégios – ainda faz a cabeça
de muita gente.
A
maioria sai das eleições endividada e frustrada, enganada por eleitores
ardilosos. Há quem prometa voto para qualquer postulante que aparecer. “Daqui
da minha casa ninguém sai triste. Prometo voto pra todo mundo”, confidenciou-me,
certa vez, um eleitor.
Muito
aspirante a político acredita nessas conversas. Político matreiro, porém,
costuma desconfiar dessas manifestações de amizade mais exaltadas. Quase sempre
o sorriso e o aperto de mão, firme, são ciladas. Convém ter atenção, não se
entusiasmar nem mesmo com o sucesso dos adesivos nos vidros dos carros.
Aqui na Feira de Santana,
em 2020, alguns inconformados foram procurar a Polícia Federal, reclamar que
seus votos “sumiram”. O gesto, patético, incorporou-se ao anedotário político
local. Era ano de pandemia, a covid-19 matando a torto e a direito. Em 2024 o
País ensaia uma normalidade e, talvez, gestos do gênero – caso se repitam –
divirtam mais que no passado recente, denso e pesado.
“Ao querido Walter
Fontoura, na esperança de que a leitura resgate lembranças da adolescência no
interior do Brasil. Rio, agosto 86”.
A
dedicatória está no exemplar de “Setembro na Feira”, livro lançado pelo
jornalista baiano Juarez Bahia. A obra é ambientada na Feira de Santana e a
personagem principal – arguto e atento observador – provavelmente é o próprio
Juarez Bahia menino, que aqui viveu parte da infância e da adolescência.
Adulto, construiu exitosa carreira jornalística em Santos e, depois, em São
Paulo e no Rio de Janeiro.
Mas
quem foi Walter Fontoura? Uma pesquisa na Internet indica que foi jornalista
renomado no eixo Rio-São Paulo. É considerado um dos expoentes do Jornal do
Brasil, em cuja redação trabalhou durante décadas. Morreu em São Paulo, em
2017. Deduzo que, na redação do JB, conviveu com o baiano de Cachoeira Juarez
Bahia. Deduzo, também, que era o dono do exemplar.
Folheei
o volume com dedicatória num sebo no centro de São Paulo. Lembro da tarde
abrasadora de verão, do calor que entorpecia. No corredor estreito, entre as
prateleiras, revi de relance a Feira de Santana da década de 1940, a
Queimadinha, as verdes colinas circundando a cidade, o centro de cidade
acanhado, o Alto do Cruzeiro ali nas imediações do Sobradinho.
Caminhos
improváveis me conduziram ao exemplar. Revejo-me pela Rua da Palma naquele
remoto agosto de 1986, franzino, sem saber quem seriam Juarez Bahia ou Walter
Fontoura, sem sequer imaginar que, no futuro, passaria boa parte da vida em
redações. Naquele tempo, a existência era pouco mais que o Sobradinho.
Hoje
imagino o lançamento do livro nalguma prestigiosa livraria carioca, notas nos
jornais enaltecendo as virtudes literárias do renomado jornalista Juarez Bahia.
Na fila, Walter Fontoura cumprimentando o autor, recolhendo a dedicatória no
exemplar que, décadas depois, descansa numa prateleira próxima à Queimadinha, a
mesma que inspirou o romance.
O
fascínio de freqüentar sebos reside justamente aí. Quem compra, muitas vezes,
leva mais que o exemplar, mergulha na própria história dos leitores anteriores.
Não é à toa que a atmosfera dos sebos é diferente, há solenidade e mistério, o
grito imaginário e pretérito dos que manusearam as publicações à mostra. Circular pelos corredores dos sebos é
sentir o “cheiro dos livros desesperados”, como Caetano Veloso compôs e Maria
Bethânia cantou.
Onde andei naquele agosto
de 1986? Imagino que, nalguma manhã ensolarada, visitei a antiga Biblioteca
Infantil ali na Praça da Matriz. Ia fazer lições escolares, mas também
mergulhar na atmosfera mágica dos livros. O exemplar de “Setembro na Feira”,
com dedicatória, me fez resgatar essas lembranças...
Salvador,
manhã de sábado, sol vigoroso, algumas nuvens e mar tranquilo. Foi então que,
no rádio, toca “Que tal um samba?”, de Chico Buarque. “Será música antiga, que
nunca ouvi?”. Não: a canção é recente, de 2022, descobri depois. Ouvindo-a pela
primeira vez, percebi que traduzia com perfeição o quadriênio nefasto que o
Brasil atravessou nos últimos tempos.
Depois
daquela descoberta, vira e mexe ouço-a novamente. Como traduz o Brasil doente
que emergiu com a ascensão da extrema-direita ao poder: “Então que tal puxar um
samba/Puxar um samba legal/Puxar um samba porreta/Depois de tanta
mutreta/Depois de tanta cascata/Depois de tanta derrota/Depois de tanta
demência”.
Não
para por aí, porém. Há esperança, há perspectiva de futuro, de dias melhores: “De
novo com a coluna ereta que tal?/Juntar os cacos, ir à luta/Manter o rumo e a
cadência/Esconjurar a ignorância, que tal?”. Erguer-se dos escombros, no entanto,
vem exigindo muito esforço, conforme previam os mais lúcidos. Mesmo que as
ameaças ainda não foram totalmente debeladas.
Mas
por quê a lembrança na noite de sexta-feira em que há mais ânimo e mais gente
pela cidade, mesmo com a trovoada que se insinuou? É que, nos últimos dias, o
noticiário exibe a exumação do golpe fracassado que a extrema-direita tentou.
Jair Bolsonaro, o “mito”, estava enfronhado na intentona, conforme sinalizam as
investigações. Está longe de ser surpreendente.
Quem
digere, horrorizado, os detalhes da investigação, sente-se por um instante de
volta ao pesadelo que durou quatro anos, mas que foi perversamente infinito. A
vulgaridade, a truculência, a selvageria, a ignorância, o autoritarismo, o
cinismo, a desfaçatez, a mentira, tudo brota feito um bueiro que transborda, caudaloso.
Por enquanto, respira-se.
A
disposição golpista, porém, não arrefece. O “mito” convoca seus acólitos para fazerem
número na Avenida Paulista, lá em São Paulo. Com o espetáculo grotesco pretendem
intimidar o Judiciário, acuar os sensatos que repelem uma ridícula e
extemporânea ditadura de lunáticos de extrema-direita. Novamente se verá o
triste espetáculo dos dementes, dos alucinados, dos aloprados e dos facinorosos
em êxtase com o “mito”.
Mas é noite de sexta-feira.
Melhor respirar, preparar-se para o final de semana, para as alegrias miúdas do
cotidiano que ainda não foram ceifadas. Há vida, pelo menos até a próxima
intentona golpista. Então, “Que tal um samba?”
Durante
muito tempo planejei ler “A Guerra do Fim do Mundo”, de Mario Vargas Llosa. Lia
comentários sobre a obra, ouvia elogios e prometia procurá-la na próxima visita
a uma livraria qualquer. Mas, quando entro em livrarias e sebos, uma espécie de
transe me domina e não consigo pensar num volume específico, circulo entre as prateleiras
examinando dorsos, buscando localizar algo por instinto, por uma afinidade meio
mágica.
Pois
foi o que aconteceu cinco ou seis anos atrás. Numa escaldante tarde paulistana
de verão, num sebo, – foi na Praça João Mendes? Na Xavier de Toledo? – circulava
entre prateleiras quando, subitamente, quase esbarro num tamborete. Qual era o
volume que encimava a pilha curta no tamborete? “A Guerra do Fim do Mundo”. Nem
hesitei. Entre milhares de títulos diferentes, justamente o romance do genial escritor
peruano estava ali, à mão.
“A
Guerra do Fim do Mundo” é a versão romantizada da epopeia de Canudos. O texto é
magnífico: quem lê, sente-se na Salvador do final do século XIX, nos ásperos
sertões da vergonhosa carnificina. Impressionante como um estrangeiro, nada íntimo
da Bahia e de suas singularidades, conseguiu produzir obra tão grandiosa.
Jorge
Amado, em “Navegação de Cabotagem”, lembra que desaconselhou Vargas Llosa a tentar
a empreitada. Tempos depois, confessou-se surpreso com a capacidade do escritor
peruano de imergir na Bahia, de captar os sentidos daquela epopeia. Com todo o
respeito aos baianos e a quem produziu literatura sobre a Bahia, julgo “A
Guerra do Fim do Mundo” livro único, ímpar, insuperável.
Mas
por que essas lembranças despropositadas? É que, num Carnaval ardente e
silencioso da Feira de Santana, li “A Guerra do Fim do Mundo”. Leitura febril,
à noite sonhava com o livro e suas personagens. Particularmente encantou-me o
jornalista míope, que acompanhou a epopeia sem os seus óculos e que, por isso, “viveu
mas não viu” as batalhas, o massacre.
Neste Carnaval que finda, não
engatei nenhuma leitura mágica e os dias de folia devem confinar-se naqueles
escaninhos da memória que ninguém perscruta. Ficará, no máximo, a memória do
afã com que as pessoas se dedicaram ao feriadão, nas praias ou nos circuitos da
folia. Resquício, talvez, da apreensão e do confinamento da pandemia. Lembra as
personagens de “A Peste”, de Albert Camus. Mas é melhor parar por aqui, porque
já há literatura demais nesta prosa torta...
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A feirinha está devagar hoje. É o Carnaval...
O
comentário – quase um bocejo – foi lançando por uma feirante ali na feirinha
do Sobradinho neste domingo de Carnaval. Havia, de fato, pouca gente. Era possível
circular com liberdade entre as barracas, pisando o asfalto umedecido pelas
chuvas.
Havia,
também, escassez de produtos: umas poucas pencas de banana numa barraca,
hortaliças minguadas noutra, tomates, batatas e cebolas sem aquela profusão
habitual. Enfadados, os feirantes pareciam contar os minutos para encerrar a
jornada. No galpão de carnes, linguiça, fígado bovino, refrigeradores vazios e
a mesma pasmaceira.
Naquele
trecho agitado que abriga os boxes que vendem comida e bebida havia mais
movimento, mas, mesmo assim, bem abaixo da frequência habitual. Sob o céu
cinzento e o vento úmido a cerveja empolgava pouco. Espalhada pelas mesas coloridas,
a clientela mastigava as carnes que as churrasqueiras assavam.
No
entorno, pouca gente e, pelas ruas próximas, um silêncio incomum, típico da
Feira de Santana de outros tempos. Quem ficou na cidade circulou pouco no domingo,
talvez intimidado pelas chuvas intermitentes, pelo céu de nuvens cinzentas, de
tons paulistanos.
À
noite prevalece o silêncio, quebrado só pelos roncos de motores distantes, por
um grilo persistente. Nuvens esbranquiçadas deslizam na orla do céu, opacas,
contrastando com as tristonhas luzes citadinas. Ânimo mesmo só na transmissão do
Carnaval nos aparelhos de tevê.
A noite do domingo de
Carnaval é a mais estranha das noites de domingo na Feira de Santana. Não tem
aquela melancolia típica dos domingos comuns porque, na segunda-feira, é
feriado; mas, mesmo assim, há na atmosfera aquela tensão mercantil que aguarda,
com ansiedade, a Quarta-Feira de Cinzas, a reabertura do comércio e o começo do
ano de fato...