Os reflexos da mais nova guerra na praça começaram a ser sentidos até mesmo na Feira de Santana. Os postos de combustíveis já elevaram os preços dos seus produtos por aqui, para desespero dos motoristas que reclamam, mas não veem solução à vista. A solução começa, como se sabe, pelo fim da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Possibilidade remota no momento, quando o conflito já alcança a terceira semana e as hostilidades continuam.
Donald Trump, tresloucado presidente norte-americano e candidato a imperador mundial, julgou que, no Irã, experimentaria um êxito similar àquele da Venezuela. Até aqui, a realidade o desmente a todo momento. O poderio bélico dos Estados Unidos é indiscutível e seus bombardeios – em parceria com Israel – impuseram pesadas baixas aos iranianos. Mas estes recorrem a uma estratégia que vem deixando muita gente de cabelo em pé.
Além de restringir a circulação de petróleo pelo estreito de Ormuz, o Irã vem bombardeando a infraestrutura energética de países vizinhos, aliados dos Estados Unidos. O resultado? Impacto sobre a oferta de petróleo no curto e no longo prazos, com elevação dos preços do produto e pesadas incertezas para os próximos meses.
Fala-se muito sobre o impacto no curto prazo, sobretudo em relação às exportações que passam por Ormuz. Mas e a destruição da infraestrutura de produção, que vem se alastrando e alcançando até o próprio Irã, retaliado por Israel? Não é simples, nem rápido, nem barato, reconstruir o que mísseis e drones destruíram em segundos.
Talvez seja possível mitigar a drástica redução da oferta com a liberação do estreito de Ormuz nos próximas dias – ou semanas, ou meses – mas e os impactos sobre a produção no médio e no longo prazos? É provável isso se traduza em preços mais elevados no futuro próximo, causando inflação e reduzindo a geração de riquezas, dado que os combustíveis são insumos estratégicos. Pior cenário, impossível.
Embora produza petróleo e não seja cronicamente dependente da importação do produto como muitos países, é impossível ao Brasil escapar dos preços mais altos em função dessas incertezas. O governo isenta tributos para evitar abruptas elevações de preços, mas o efeito é limitado em razão das dimensões da crise.
O desarranjo é global e se deve aos impulsos imperialistas do tresloucado Donald Trump. Sabe-se que ele labuta sozinho ao lado de Israel, porque o mundo todo evita se envolver no conflito. Gradativamente isolando-se, talvez à frente ele seja forçado a recuar, até porque os impactos econômicos começam a ser sentidos também nos Estados Unidos. Afinal, por lá também os motoristas abastecem e já começam a sentir o peso no bolso.
Mas, de qualquer maneira, o imperador laranja já produziu muita desgraça neste 2026 e os efeitos apenas começam a ser sentidos...
Cresceu muito o número de pessoas que se autodeclararam pretas na Feira de Santana no Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na comparação com 2010. Segundo o levantamento, exatas 180.190 pessoas disseram que são pretas, um avanço expressivo em relação ao censo anterior, de 2010, que registrou 128.440 pessoas declarando esta cor.
A maioria da população feirense, no entanto, se identifica como parda: 330,4 mil, no último censo, contra 310,8 mil no levantamento anterior. A população negra feirense – o somatório de pardos e pretos – totalizou, portanto, 510 mil no Censo 2022, num universo de 616 mil pessoas no conjunto da população. Isso significa que 82,8% dos feirenses, aproximadamente, são negros.
Houve declínio na população que se identificou como branca: eram 110,8 mil em 2010, decrescendo para 103,9 mil no último levantamento. Também houve queda na população autodeclarada amarela: eram 5,3 mil no censo anterior e, em 2022, foram contabilizados apenas 590. Houve uma leve redução entre os indígenas: de 1.118 tornaram-se 1.086.
O que pode explicar a variação nos números? Fatores como diferenças nas taxas de fecundidade, movimentos migratórios ou morte não parecem ter provocado oscilações tão bruscas. Ao que tudo indica, pardos e pretos – sobretudo estes – estão se reconhecendo mais como tais, superando barreiras impostas por séculos de racismo e exclusão.
Em censos anteriores muito mais gente declarava-se branca na Feira de Santana. Talvez por conta do forte estigma sobre a população negra, mais vulnerável a mazelas como a pobreza, a violência, a exclusão social, frutos do racismo e das sólidas desigualdades. Mas isso é só palpite, especulação. Apenas estudos robustos podem confirmar ou não cogitações do gênero.
O que não é especulação é a constatação de que a Feira de Santana é fruto de uma intensa miscigenação: 53,5% da população declara-se parda. Descendem de uniões de pretos, brancos, indígenas daqui e de outros lugares – muitos deles remotos – que aportaram na Princesa do Sertão e que, por aqui, construíram e constroem suas vidas. Expressam o intenso intercâmbio de serviços, mercadorias e de gentes também.
Enfim, os números do Censo 2022 trazem resultados que refletem mais a realidade das ruas da Princesa do Sertão. Trata-se de um passo além na luta contra as desigualdades.
Conheci Carybé no começo da adolescência, lendo os livros de Jorge Amado, que ele ilustrava com seus traços inconfundíveis. Aqueles pequenos desenhos – que passam sempre a sensação de movimento – impunham demoradas e deslumbradas contemplações. A ansiedade com que percorria as páginas dos romances se diluíam quando deparava-me com as ilustrações. Eram precisos detidos e rigorosos olhares para absorver a sua arte.
Na vida adulta, percorrendo exposições – algumas delas fora da Bahia – às vezes reencontrava Carybé nalgum museu e as sensações juvenis retornavam, pulsantes. Mas nestas ocasiões com intensidade maior, pois estavam ali os originais, com os traços inconfundíveis do mestre argentino de nascimento, mas baiano por afetividade e afinidade espiritual.
Pois, neste final de semana, tive o privilégio de visitar uma fantástica exposição das obras de Carybé. No Museu da Bahia – no Corredor da Vitória, em Salvador – estão em exposição 227 desenhos do mestre argentino em nanquim sobre papel. Boa parte data de 1950, quando o artista visitou a Bahia pela quarta vez, fixando residência. Os desenhos integraram a Coleção Recôncavo, lançada em 1951 e estão sendo expostos pela primeira vez.
Maravilhado percorrendo as obras, notei que boa parte do cotidiano baiano dos anos 1950 está ali. A Lavagem do Bonfim daquele ano conta com uma série de desenhos; o Candomblé e suas personagens também estão lá, como não poderia deixa de ser; há, também, reproduções de festas – como quermesses – que envolvem o observador na sensação de agitação e movimento.
Mas, o que mais chamou a atenção, foi a reprodução do cotidiano dos trabalhadores baianos, a Baía de Todos os Santos infestada de saveiros, a lufa-lufa mercantil na rampa do Mercado Modelo, em Água de Meninos, em toda a Cidade Baixa. São pescadores, marítimos, carregadores, vendedores de peixe, ambulantes, camelôs, vendedoras de acarajé, comerciantes e comerciários, fregueses, enfim, a Bahia reproduzida nas lides econômicas.
Nas águas da Baía, as velas estufadas de uma infinidade de embarcações. Naquela época de escassas rodovias e intenso dinamismo econômico no Recôncavo, as águas tranquilas da Baía de Todos os Santos substituíam rodovias, ferrovias, aeródromos, transportando as riquezas em saveiros que balançavam ao ritmo das ondas do mar. Rota comercial e objeto de contemplação misturando-se.
Além da exposição de Carybé em si, há como atrativo adicional o próprio Museu da Bahia. É construção antiga, ano que vem completa 100 anos. Funcionou como sede da Secretaria de Educação e Saúde e incorporou diversos elementos arquitetônicos de solares demolidos da Bahia. A porta gigantesca, entalhada, de arenito e jacarandá, data de 1674 e veio do solar João Matos de Aguiar, da Ladeira da Praça.
Vale, vale muito a pena conhecer os desenhos de Carybé – que anda esquecido pelos baianos – e o próprio Museu da Bahia, para quem nunca teve a oportunidade de visitar o espaço.
Depois de meses de muita especulação o prefeito José Ronaldo de Carvalho (União) descartou a possibilidade de afastar-se da prefeitura para ser candidato a vice-governador. Alguns analistas mais experientes apostavam que o prefeito não deixaria o cargo. Não há, portanto, grande novidade. Na própria campanha eleitoral para prefeito, em 2024, ele anunciou que não renunciaria ao mandato para candidatar-se em 2026. Cumpriu a palavra, mas alimentou um prolongado suspense que manteve seu nome em evidência.
A novidade na entrevista ao Acorda Cidade está na revelação de que foi convidado para ser candidato a vice-governador tanto por ACM Neto (União), quanto por Jerônimo Rodrigues (PT), atual governador. O convite feito pelo ex-prefeito de Salvador foi, inclusive, público, não se trata também de algo que o eleitorado não conheça.
Mas a revelação sobre o convite de Jerônimo Rodrigues foi mais surpreendente. Tudo bem que, há tempos, especulava-se sobre esta hipótese, a imprensa martelava diariamente, embora nenhum ator político relevante confirmasse. Mas, agora, foi o próprio José Ronaldo quem revelou o convite.
Por enquanto, segue a expectativa sobre o apoio de José Ronaldo a um dos candidatos a governador. Os mesmos analistas que duvidavam de sua renúncia apostam que ele manterá o apoio a ACM Neto. Tudo indica que sim. O que surpreende não é a opção, é a demora no anúncio. Afinal, José Ronaldo e ACM Neto integram o mesmo partido e, em tese, não deveria haver hesitação.
Assim, as revelações, em si, importam menos do que os seus prováveis desdobramentos. O mais importante deles é que o prefeito feirense se robustece politicamente para tentar a reeleição em 2028, caso deseje renovar o mandato. Afinal, foi convidado para compor chapa até com o candidato a governador do PT, principal partido adversário de José Ronaldo em nível local.
Dessa maneira, a tendência é José Ronaldo fortalecer-se frente à oposição feirense. Que discurso terão os petistas daqui a dois anos para contestar sua possível candidatura à reeleição? Discurso até se arranja, mas o convite de Jerônimo Rodrigues, sem dúvida, deixará a oposição local fragilizada, por mais que se negue. Isso, claro, caso o PT permaneça à frente do governo estadual. Se der ACM Neto, o prefeito feirense terá ainda mais margem de manobra.
Todo este cenário, obviamente, depende dos desdobramentos das eleições de outubro. Mas é indiscutível que o prefeito José Ronaldo de Carvalho e seu grupo político, desde já, largam em vantagem em relação à oposição local, graças ao convite formulado pelo governador Jerônimo Rodrigues.
No começo dos anos 2000, o noticiário abordava, com bastante
frequência, o escasso percentual de jovens brasileiros no ensino superior. Era
baixa, também, a quantidade de brasileiros com diploma universitário. Ninguém
imaginava que, nos anos seguintes, haveria um boom na oferta de vagas no ensino
superior privado, nem que as universidades públicas experimentariam uma rápida
expansão, alcançando, sobretudo, o interior do Brasil.
Na época, pouca gente dispunha de diploma de nível superior
na Feira de Santana. Desde então, a realidade mudou de maneira significativa,
no Brasil e por aqui também. O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) trouxe uma atualização do cenário, registrando uma mudança
radical em um par de decênios. No levantamento, constatou-se que 67 mil pessoas
dispunham de diploma de nível superior na Feira de Santana. Representavam
14,41% da população com mais de 18 anos.
Entre o nível médio completo e o superior incompleto havia
muito mais gente: 193,8 mil pessoas, ou 41,6% do contingente. Somam-se a outras
69,3 mil pessoas - 14,88% – que avançaram pelo filtro do ensino fundamental,
mas que não concluíram o ensino médio. Só que é significativo, ainda, o número
daqueles que não concluíram o ensino fundamental: 135,3 mil, o que corresponde
a 29% dos feirenses com mais de 18 anos.
Quais as profissões que os feirenses com diploma
universitário abraçaram? O IBGE também traz respostas: 21 mil pessoas estão em
Negócios, Administração e Direito; Na sequência, 15,1 mil em Saúde e Bem-Estar
e 8,9 mil em Educação. O total, em alguma medida, reflete a demanda por
trabalho, sobretudo na Saúde, na Educação, na Justiça e em atividades
vinculadas à Administração Pública.
Mas há também profissionais de Engenharias (5,2 mil), Artes e
Humanidades (5 mil), Ciências Sociais, Comunicação e Informação (4 mil) e
Ciências Naturais, Matemática e Estatística (3,1 mil). Nestes segmentos,
obviamente, figuram profissionais da educação também, mas, sobretudo, a
mão-de-obra mobilizada pelas empresas privadas do município.
A mão de obra mais qualificada disponível no mercado feirense
viabilizou o incremento da produtividade, traduzindo-se em uma maior geração de
riquezas para o município. Alguns segmentos foram mais favorecidos, a exemplo
daqueles vinculados aos serviços de saúde e educação. Como efeito indireto,
ajudou a dinamizar o comércio e demais serviços, já que estes trabalhadores
recebem remunerações melhores.
Dispor de trabalhadores qualificados é um requisito essencial
para a dinamização econômica. A Princesa do Sertão, como se vê, avançou
bastante na oferta de educação superior ao longo deste século. O que falta,
então, para se dispor de um mercado mais atrativo para a mão de obra feirense?
Certamente, uma maior diversidade nas atividades econômicas.
Mas isso é assunto para outro texto...