Acabou o Carnaval e, em 2026, os feirenses disporão de mais tempo para dedicar-se à preparação para as festas juninas e para o forró. Afinal, a Micareta – o Carnaval de Abril que sacudia o Brasil – foi transferida para o mês de novembro. Trata-se de uma mudança histórica, – e drástica – pois a tradicional folia aconteceu, desde 1937, em abril e, excepcionalmente, no começo de maio.
Há quem enxergue na mudança a oportunidade de oxigenar a festa; outros, tradicionalistas, discordam, veem na alteração o sepultamento definitivo da folia, que perdeu muito do seu encanto nas últimas décadas. O assunto é espinhoso e sentenças mais abalizadas só serão possíveis em novembro, quando a Micareta acontecer.
Mas o fato é que, em abril, sem a Micareta, haverá um hiato festivo. A Páscoa será em meados de março e, no mês seguinte, o setor de entretenimento na Feira de Santana enfrentará um período árido. Afinal, abril abrigava as tradicionais festas pré-micaretescas, as feijoadas e os festivos ensaios preparatórios para a folia.
Como a lacuna vai ser preenchida? Obviamente, supõe-se, com a antecipação dos shows de forró e com uma maior atenção popular para o ritmo. Assim como acontece em Salvador e em dezenas de municípios do Recôncavo, cuja economia, em grande medida, se alimenta da festa.
Até o ano passado, sobrava pouco tempo para os rituais juninos na Feira de Santana. Regida pela música baiana e por ritmos dançantes, a Micareta monopolizava as atenções. Sobrava pouco tempo – às vezes ínfimos 50 dias – para se mergulhar no clima junino, organizar festas e celebrações. Tudo indica que, em 2026, uma nova cultura começará a ser internalizada. Caso a Micareta siga em novembro, claro.
Não, o São João não vai assumir, por aqui, a relevância cultural marcante no Recôncavo. Mas vai despertar a atenção da Feira de Santana, com a lacuna festiva sendo preenchida com a típica celebração nordestina. É uma possibilidade, que o gosto popular vai confirmar ou não nos próximos meses e, quiçá, nos próximos anos.
Em anos passados as movimentações eleitorais só ganhavam o noticiário depois do Carnaval. Aqui na Bahia – e no Brasil, em grande medida – o início do ano foi bastante antecipado. Pode-se até afirmar que 2026 começou ainda em 2025, tamanha a precipitação da discussão sobre a chapa majoritária governista. Como todos já sabem, o senador Ângelo Coronel (PSD) foi rifado e os petistas marcharão com a chamada chapa puro-sangue: Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa.
Descartado, Coronel já se articula com a oposição pata tentar manter o mandato. Aliados do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União), já o consideram candidato sacramentado ao Senado na chapa do ex-prefeito. João Roma (PL), ex-ministro de Jair Bolsonaro, completa a composição, segundo os palpites dos analistas que pululam por aí.
Agora as especulações se voltam para quem serão os candidatos a vice-governador no governo e na oposição. O prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho (União), é o nome mais mencionado pela imprensa. Uns o enxergam na chapa de ACM Neto, condição que, dizem, ele deveria ter ocupado há quatro anos; outros garantem que ele será vice de Jerônimo Rodrigues, numa surpreendente guinada em direção ao petismo.
Com o nome na crista da onda eleitoral, o prefeito da Feira de Santana se pronuncia sempre de maneira contida, evitando emitir sinalizações precipitadas. Oportunamente, empurra há meses um posicionamento definitivo para mais à frente, sustentando seu nome no noticiário. Posa para fotos, participa de reuniões e frequenta solenidades com todo mundo, impulsionando as frenéticas especulações.
Ao lado de Ângelo Coronel, José Ronaldo figura como o grande protagonista deste período pré-eleitoral. Graças à sua importância política, é claro, mas graças também ao jogo que vem sustentando com muita competência. Note-se – ao contrário de Coronel – que seu protagonismo é muito positivo, firmando-o como uma das maiores lideranças políticas do interior no momento.
Mas, especulações à parte, o fato é que as duas principais perguntas colocadas só poderão ser respondidas – e só o serão – pelo próprio José Ronaldo de Carvalho, no momento em que ele julgar oportuno. Sairá da prefeitura da Feira de Santana para candidatar-se em 2026? Caso o faça, vai se alinhar aos seus aliados tradicionais ou irá aventurar-se numa coligação com o petismo?
Pelas ruas e na própria imprensa muita gente cogita, discute hipóteses, até hipóteses das hipóteses, em detalhes infinitesimais. Talvez isso gere muito engajamento nas mídias sociais, mas tudo não passa de mera especulação, “livre pensar”, como se diria. No fundo, o valor objetivo dessas especulações é nenhum.
Mesmo assim, provavelmente até abril as especulações seguirão à toda, mas as respostas – como se disse – caberão unicamente ao prefeito José Ronaldo de Carvalho.
Finalmente, ontem, uma forte chuva caiu sobre a Feira de Santana. Não vieram os raios e os trovões, mas a precipitação foi caudalosa. Por alguns minutos uma densa cortina d’água envolveu o horizonte e as nuvens baixas tornaram a atmosfera acinzentada. Só que durou pouco. A água acumulou-se em ruas e avenidas mas, na maior parte delas, logo escoou pelos bueiros. O trânsito congestionou-se durante algum tempo, mas fluiu em seguida.
A chuva me colheu embarcando num carro de aplicativo, os pingos encharcando a roupa. Na véspera, escrevera um texto reclamando das trovoadas que chegavam aqui e se dispersavam, recalcitrantes. Mesmo encharcado não reclamei, claro: afora o incômodo da roupa molhada, a precipitação foi muito bem-vinda: o calor declinou, o céu ardente ganhou uma acolhedora camada de nuvens e o cheiro agradável de terra molhada se irradiou por algum tempo.
Mas há gente preocupada: o Carnaval está aí logo à frente. Será que vai chover no Carnaval? Talvez o clima chuvoso atrapalhe nos circuitos soteropolitanos e nas praias que abrigarão levas de turistas. Mas aqui, na Feira de Santana, caso chova, o incômodo será pequeno. Afinal, a cidade se esvazia nos cinco dias de folia. Quem pode, pega a estrada.
Até o começo da tarde de sábado há o bulício comercial, há gente que vem de fora para fazer compras. Depois, resta a lufa-lufa de quem vai viajar e, já à noite, reina uma tristonha melancolia. É dilacerante o contraste entre o silêncio e a solidão da Princesa do Sertão e as imagens de multidões animadas e ruidosas nos circuitos momescos, sob a iluminação profusa.
Nem a luz alegre do sol na manhã do domingo de Carnaval espanta essa melancolia. O silêncio, persistente, parece que reverbera os ecos da cidade vazia, sem sua agitação habitual. A segunda-feira sem feira-livre e sem comércio é uma contradição violenta, que quase pulsa em meio à pasmaceira. Não se vê, mas se sente aquela requisição muda, indeterminada, por agitação e movimento.
Só na terça-feira a tensão e a inquietude diminuem, pois já prevalece aquela atmosfera de feriado que finda, para alívio de quem anseia retomar suas atividades mercantis, comprar, vender, fazer dinheiro, apurar o lucro. O silêncio também é menor, o ronco dos motores anuncia o retorno ruidoso de quem foi veranear pelas praias, refugiar-se nalguma fazenda.
É provável que não chova na Feira de Santana no Carnaval, conforme estima a previsão do tempo. Mas, se chover, o incômodo será pequeno. No máximo, atiçará só mais uma ponta de melancolia em quem ficará na Princesa do Sertão...
Ao longo do dia não havia nenhum sinal. Na metade da tarde ensolarada, porém, sombras plúmbeas despontaram a oeste, lá para os lados de Jaguara e mais acima um pouco. Avançaram devagar, trovões roncando, raios empalidecendo a amplidão cinzenta. À frente, nuvens altas, muito escuras; mais atrás, uma espessa camada esbranquiçada, prenunciando chuva.
O vento soprava sem piedade, sacudindo as copas das árvores, levantando a poeira das ruas, varrendo papeis e copos plásticos espalhados pelas calçadas. Nas janelas e nas quinas dos prédios a lufada até uivava, soturna. Durante o crepúsculo umas nuvens miúdas, baixas, azuladas, avançaram do leste, na direção contrária, desafiando a anunciada tempestade. Naquele momento, o céu assumia um fulgor de aço. O cenário lembrava filme impressionista.
Só que não choveu. Os clarões dos raios se amiudaram, trovões intensificaram a frequência, mas a aguardada tempestade mão caiu. Sobre a atmosfera feirense, as nuvens, empurradas pelo vento, deslocaram-se para o sudoeste, em demanda de Antônio Cardoso e Santo Estêvão. Quando a noite caiu, estrelas já reluziam, nas fendas entre as nuvens. O cenário impressionista feneceu.
As mídias digitais trouxeram muitos vídeos sobre chuvas Bahia afora desde janeiro. De Juazeiro a Vitória da Conquista – passando pelo entorno sertanejo da Feira de Santana – caíram copiosas tempestades. No litoral e no Recôncavo, então, nem se fala. Rios se encorparam, represas sangraram, tanques encheram e, nas cidades, houve torrentes e até alagamentos.
Mas, por aqui, nenhuma chuva digna de nota. Algumas garoas miúdas, uma ou outra chuva fraca, passageira. Nada capaz de encher os reservatórios, menos ainda de umedecer a terra para a lavoura. Vá lá que o calor é intenso, mas bem mais moderado que aquele do ano passado. Para quem labuta sobre a terra, porém, a escassez de chuvas frustra.
Fevereiro já vai avançando e, logo à frente, chega março e o dia 19, de São José. A ciência popular sinaliza que, para o ano ser bom, farto, é necessário que chova até lá. Ficarão as chuvas sobre a Feira de Santana para abril, que em anos anteriores molhavam os foliões na Micareta? Não se sabe.
Mas que é desolador atravessar o verão sem as tradicionais trovoadas, é...
Muitas personalidades de destaque visitaram a antiga feira-livre que acontecia no centro da Feira de Santana às segundas-feiras. Um dos relatos foi o do escritor, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras, Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima. Colunista do prestigiado “Jornal do Brasil”, Athayde visitou a Feira de Santana em companhia do jornalista Zitelmann de Oliva. A viagem rendeu a crônica batizada com o singelo nome de “Feira”, na edição de 29 de março de 1962 do JB.
A visita aconteceu numa segunda-feira, depois de uma viagem pela rodovia que o escritor descreveu como “perfeita e moderna, quase em linha reta”. Ele prossegue, já descrevendo a feira-livre: “O mercado, propriamente dito, é apenas o centro da grande feira, que se estende pela Cidade inteira, enchendo ruas e praças a perder de vista. Dizem que outrora, quando havia também a feira de gado, hoje suprimida, as proporções eram incomparavelmente maiores”.
Na sequência, Tristão de Athayde revela suas impressões sobre o comércio e louva a farinha de mandioca: “A indústria é primitiva, os principais produtos industriais mais elaborados vem de fora. (...) Mas as farinhas, especialmente estas, são maravilhosas, perfumadas, coloridas, quentes de aspecto e fresquinhas das mãos que as prepararam nas humildes casas sertanejas de farinha”.
A descrição segue, vívida: “Os inhambus, os galos de catinga, os teiús, as próprias cobras [sic] ali estão espalhados pelo chão, esventrados, espetados em bambus”. As frutas também mereceram atenção: “Os licores de frutos, esses mesmos, os umbus, as mangabas, os maracujás, outros frutos silvestres de nomes inéditos e gosto adocicado”.
Outros produtos das feiras-livres nordestinas são notados: “Ao lado das barraquinhas da rústica cerâmica, em que os bonecos de barro do Vitalino e de seus discípulos e já numerosos imitadores, nos dão uma mostra primitiva dos costumes populares”. As ervas e a medicina popular não escaparam à sua observação: “As ervas medicinais constituem um capítulo saboroso, cada qual com sua direta aplicação para o peito, para os rins, para o estômago, até para os males da alma”.
Não faltaram também – é claro – referências à literatura de cordel: “a barraquinha dos folhetos de cordel, com suas capas decalcadas de cromos sentimentais da belle époque europeia, que ali continuam a alimentar o sentimentalismo sertanejo”. Havia fartura, mas havia miséria, como bem notou o pensador católico: “E no meio de toda aquela fartura – a miséria, os trapos, o reflexo trágico da seca, que há meses assola todo o sertão”.
Na sequência, Tristão de Athayde foi almoçar na fazenda do empresário e jornalista feirense João Falcão, - “figura típica de nordestino adiantado” – onde notou os efeitos da seca sobre uma lagoa e louvou a carne de sol servida na refeição. No retorno, comenta o ritmo lento dos sertanejos que retornam da feira: “Sertanejos que à tarde encontramos pela estrada, de volta da agitação acalorada da feira, com os cajás vazios, ao choto modorrento dos seus esqueléticos rocinantes”.
Tristão de Athayde – ou Alceu Amoroso Lima – foi uma dos mais destacados intelectuais brasileiros do século passado. Atuou em frentes diversas e a crônica em que rememora sua passagem pela Feira de Santana reflete suas qualidades literárias.