Em 9 de novembro de 1889, as águas da Baía de Guanabara
refletiam o brilho de 4.500 convidados no suntuoso Baile da Ilha Fiscal. Entre
badejos ao purê, perdizes ao licor e o tilintar de taças em uma série de festas
em homenagem aos oficiais chilenos, a monarquia celebrava as bodas de prata da
Princesa Isabel. O luxo era tão obsceno quanto o descolamento da realidade: o
esgarçamento da opinião pública foi imediato. Seis dias depois, o Império
desmoronava sob o peso da própria ostentação.
Cento e trinta e cinco anos depois, a história rima, mas com
sotaque londrino e o aroma de exclusivos barris de carvalho de xerez. A exótica
série de eventos jurídicos em solo estrangeiro -fenômeno curioso onde o Brasil
só pode ser debatido longe do solo pátrio- ganhou um novo capítulo de esbórnia
institucional. Não satisfeitos com o já folclórico "Gilmarpalooza",
as autoridades brasileiras cruzaram o Atlântico para o 1º Fórum Jurídico -
Brasil de Ideias, em Londres. O evento foi patrocinado por Daniel Vorcaro,
controlador do Banco Master, uma instituição com interesses tão vastos quanto
suas pendências nos tribunais que estavam representados no evento.
A
Liturgia do Cargo no George Club
Longe da austeridade que o cargo exige, ministros e
parlamentares abdicaram do pudor em uma noite nababesca no George Club, em
Mayfair. No coração da exclusividade londrina, dedicaram-se à degustação do
soberbo uísque Macallan — cuja edição "Genesis Decanter" pode custar
a bagatela de US$ 100 mil — e charutos selecionados.
A lista de presentes na degustação e no Fórum parece um
"quem é quem" do Diário Oficial:
STF: Alexandre de Moraes (acompanhado da esposa, já
contratada pelo Banco Master) e Dias Toffoli (o entusiasta de resorts).
Justiça e Polícia: O diretor da PF, Andrei Rodrigues; o PGR,
Paulo Gonet; o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski; Benedito
Gonçalves (ministro do STJ); André Ramos Tavares (ministro do TSE); José Levi
Mello do Amaral Jr. (conselheiro do Cade); Luis Felipe Salomão (ministro do
STJ); Raul Araújo (ministro do STJ e do TSE); e Michel Temer (ex-presidente da
República). O ministro da AGU, Jorge Messias, declarou ter ido apenas ao Fórum.
Legislativo: Hugo Motta, presidente da Câmara, e Davi
Alcolumbre, presidente do Senado.
Para os que foram ao George, um DJ embalou o consumo dos 1.770 aperitivos servidos. Segundo dados enviados à CPMI, a degustação custou R$ 3,2 milhões de reais e a "festa londrina" total fechou a conta em US$ 6 milhões. Não satisfeitos com o George Club, as autoridades ainda "bateram ponto" no requintado Annabel’s, provando que as ideias sobre o Brasil fluem melhor entre um happy hour e um jantar de luxo.
A
Conta que Sempre Chega
A excessiva proximidade entre o julgador e o financista,
cujos interesses judiciais são notórios, não parece ter causado pruridos
éticos. Esqueceram-se da máxima da sabedoria popular: não existe uísque grátis.
Cada dose de Macallan sorvida em Mayfair é uma nota promissória assinada contra
a imparcialidade das instituições.
A diferença fundamental entre 1889 e 2024 é que, no Baile da
Ilha Fiscal, o Macallan ainda não era o protagonista. No mais, o roteiro é
idêntico: uma elite que celebra o próprio isolamento enquanto o pagador de
impostos observa, atônito, o naufrágio moral da República.
Tim-tim!