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César Oliveira

Do Último Baile da Ilha Fiscal ao Macallan de Londres

César Oliveira - 12 de Março de 2026 | 17h 17
Do Último Baile da Ilha Fiscal ao Macallan de Londres
Foto: Reprodução

Em 9 de novembro de 1889, as águas da Baía de Guanabara refletiam o brilho de 4.500 convidados no suntuoso Baile da Ilha Fiscal. Entre badejos ao purê, perdizes ao licor e o tilintar de taças em uma série de festas em homenagem aos oficiais chilenos, a monarquia celebrava as bodas de prata da Princesa Isabel. O luxo era tão obsceno quanto o descolamento da realidade: o esgarçamento da opinião pública foi imediato. Seis dias depois, o Império desmoronava sob o peso da própria ostentação.

Cento e trinta e cinco anos depois, a história rima, mas com sotaque londrino e o aroma de exclusivos barris de carvalho de xerez. A exótica série de eventos jurídicos em solo estrangeiro -fenômeno curioso onde o Brasil só pode ser debatido longe do solo pátrio- ganhou um novo capítulo de esbórnia institucional. Não satisfeitos com o já folclórico "Gilmarpalooza", as autoridades brasileiras cruzaram o Atlântico para o 1º Fórum Jurídico - Brasil de Ideias, em Londres. O evento foi patrocinado por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, uma instituição com interesses tão vastos quanto suas pendências nos tribunais que estavam representados no evento.

A Liturgia do Cargo no George Club

Longe da austeridade que o cargo exige, ministros e parlamentares abdicaram do pudor em uma noite nababesca no George Club, em Mayfair. No coração da exclusividade londrina, dedicaram-se à degustação do soberbo uísque Macallan — cuja edição "Genesis Decanter" pode custar a bagatela de US$ 100 mil — e charutos selecionados.

A lista de presentes na degustação e no Fórum parece um "quem é quem" do Diário Oficial:

 

STF: Alexandre de Moraes (acompanhado da esposa, já contratada pelo Banco Master) e Dias Toffoli (o entusiasta de resorts).

Justiça e Polícia: O diretor da PF, Andrei Rodrigues; o PGR, Paulo Gonet; o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski; Benedito Gonçalves (ministro do STJ); André Ramos Tavares (ministro do TSE); José Levi Mello do Amaral Jr. (conselheiro do Cade); Luis Felipe Salomão (ministro do STJ); Raul Araújo (ministro do STJ e do TSE); e Michel Temer (ex-presidente da República). O ministro da AGU, Jorge Messias, declarou ter ido apenas ao Fórum.

Legislativo: Hugo Motta, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, presidente do Senado.

Para os que foram ao George, um DJ embalou o consumo dos 1.770 aperitivos servidos. Segundo dados enviados à CPMI, a degustação custou R$ 3,2 milhões de reais e a "festa londrina" total fechou a conta em US$ 6 milhões. Não satisfeitos com o George Club, as autoridades ainda "bateram ponto" no requintado Annabel’s, provando que as ideias sobre o Brasil fluem melhor entre um happy hour e um jantar de luxo.

A Conta que Sempre Chega

A excessiva proximidade entre o julgador e o financista, cujos interesses judiciais são notórios, não parece ter causado pruridos éticos. Esqueceram-se da máxima da sabedoria popular: não existe uísque grátis. Cada dose de Macallan sorvida em Mayfair é uma nota promissória assinada contra a imparcialidade das instituições.

A diferença fundamental entre 1889 e 2024 é que, no Baile da Ilha Fiscal, o Macallan ainda não era o protagonista. No mais, o roteiro é idêntico: uma elite que celebra o próprio isolamento enquanto o pagador de impostos observa, atônito, o naufrágio moral da República.

Tim-tim!



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