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Traumas físicos e psicológicos acompanham acidentados pelo resto da vida

Karoliny Dias - 12 de Fevereiro de 2019 | 10h 03
Traumas físicos e psicológicos acompanham acidentados pelo resto da vida
Foto: Ítalo Ricardo/ Reprodução

Acidentes envolvendo motocicletas são um dos grandes responsáveis por casos de morte e invalidez no trânsito brasileiro. Em uma moto, o risco que um indivíduo corre de morrer é 20 vezes maior. É o que apontam estudos recentes, publicados pelo site do Senado Federal. Esse número sobe para 60 vezes, se a pessoa não estiver usando o capacete, item obrigatório pela ­legislação.

O professor e coordenador do Curso Prático de Emergências Médicas da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), Rinaldo Antunes Barros, destaca que, ao dar entrada em uma unidade hospitalar, todo acidentado passa por um protocolo de atendimento que visa minimizar o risco imediato de morte.

“É preciso realizar o adequado controle das vias aéreas, com proteção da coluna cervical, através do uso de colar. Ofertar oxigênio suplementar, observando a frequência e qualidade das respirações. Verificar pulso, perfusão, cor e temperatura, buscando foco de sangramento e contendo qualquer hemorragia identificada. É preciso, ainda, avaliar a consciência, pupilas e a exposição das zonas afetadas, com prevenção de hipotermia”, explica.

Conforme o médico, os traumatismos, nos acidentados de moto, variam segundo o tipo de impacto sofrido. No impacto frontal, a motocicleta tomba para frente e o motociclista colide com o guidão, podendo sofrer lesões em crânio, tórax, abdome ou pelve, a depender de qual parte anatômica for atingida. Caso os pés do motociclista permanecerem nos pedais e as coxas colidirem com o guidão, ocorrerá, possivelmente, fratura de fêmur bilateral.

No impacto angular, a motocicleta cai sobre o motociclista ou o imprensa entre o veículo e o objeto atingido, ocorrendo, habitualmente, lesões nos membros superiores e/ou inferiores, resultando em fraturas e/ou lesões extensas de musculatura.

No impacto com ejeção, o motociclista é lançado da motocicleta como um míssil, voando até que sua cabeça, braços, tórax, abdome ou pernas atinjam outro objeto, como um veículo automotivo, um poste ou, até mesmo, o chão. Dessa forma, a lesão ocorre no ponto de impacto, irradiando para o resto do corpo à medida que a energia é absorvida, situação na qual o potencial de ocorrência de lesões graves e fatais é grande para o condutor desprotegido.

O período de internação, ainda de acordo com o cirurgião-geral, depende das lesões sofridas e dos segmentos comprometidos. “Vale ressaltar que muitos desses períodos de recuperação se somam aos períodos de reabilitação e recondicionamento, levando a interrupção da vida laboral do referido paciente politraumatizado”, observa.

EDUCAÇÃO - Rinaldo Barros acredita que acidentes como esses causam prejuízos físicos, psicológicos e sociais, cuja intensidade pode ser variável, para cada indivíduo, e a forma que o mesmo encara a vida e lida com as adversidades. “O maior prejuízo que o acidentado de moto pode ter que levar para a vida inteira é a certeza de que o que fora tido como acidente, por ser imprevisível, na verdade, fora um evento que poderia ser evitado, caso a prudência, um segundo antes do ocorrido, tivesse sido acionada”, opina.

Ele acha que a solução para a redução de acidentes dessa natureza é a conscientização. “Acredito no poder da educação. Cabe, sempre, a necessidade de campanhas que alertem a população para os riscos de um acidente de moto. Publicidade massiva, nos meios de comunicação; rodas de conversas, com público-alvo específico; e exacerbação quanto à prática de direção defensiva são essenciais para alterar a percepção pública do risco e do risco tolerável, contribuindo para mudar normas e atitudes”, defende.

Já o ortopedista George Neves destaca que as vítimas de acidentes com trauma de alta energia, seja moto, carro, queda de grandes alturas ou atropelamento, inicialmente, são atendidas pelo cirurgião-geral, que seguirá o protocolo para estabilizar e garantir todo o suporte de vida. “Só depois de estabilizado é que se inicia a avaliação ortopédica. Na ortopedia, o trauma que mais acontece são fraturas de ossos longos, como o fêmur, o úmero, a tíbia e o antebraço”, enumera.

Segundo o médico, o prejuízo maior está relacionado à quantidade de ossos quebrados e à gravidade dessas fraturas. “Fraturas articulares, expostas e da coluna apresentam piores prognósticos, com a piora das sequelas”, enfatiza.

Para ortopedista George Neves, a falta de mecanismos de segurança faz com que o indivíduo seja projetado para fora do veículo. “Isso pode gerar perfuração de órgãos internos e fraturas na coluna”, alerta.

Ele explica que o período de internação do paciente dependerá muito de seu quadro clínico. “Não é possível definir um tempo de internação, no primeiro momento. São pacientes que precisam de muitos cuidados”, pondera, salientando ainda que o tipo de cirurgia mais comum, em casos de acidentes dessa natureza, são as de fratura de ossos longos. “Mas, em se tratando de motocicleta, também podem ocorrer fraturas de punho, joelho e clavícula. Cada fratura pode levar até dois anos para cicatrizar. Dependendo da gravidade, há casos de invalidez, sobretudo quando acontecem fraturas articulares ou com encurtamento ósseo”, ressalta.

Para diminuir os índices de acidentes de trânsito, George Neves também diz que é necessário educar os condutores. Além disso, ele destaca que é preciso que os transportes coletivos sejam mais eficazes. “Países desenvolvidos e com bons sistemas de transportes apresentam baixos índices de acidentes de moto”, observa.

TRAUMAS PSICOLÓGICOS - A psicóloga Lorena Viena destaca que acidentes de trânsito podem causar grandes traumas em um indivíduo. “Para nós, psicólogos e psicanalistas, o conceito de trauma está ligado a um choque emocional violento, vivido de maneira tão intensa que o aparelho psíquico não dá conta de elaborar, provocando efeitos danosos no psiquismo como um todo”, explica.

Lorena diz ainda que o trauma pode advir de uma única vivência muito violenta ou a partir da somatória de experiências de grande impacto emocional, que não conseguem ser metabolizadas pelo aparelho psíquico. “A pessoa que vivenciou uma situação traumática tem dificuldade de expressar, com palavras, aquilo que sente em relação ao evento ou ao choque. É como se houvesse uma ruptura de uma ponte e a pessoa não conseguisse acessar o outro lado, depois do rio. Porém esse conteúdo arquivado e doloroso passa a fazer parte integrante do psiquismo, produzindo efeitos que se expressam de maneira constante e repetitiva, como uma tentativa insistente de o aparelho psíquico liberar uma energia que ainda não pode ser elaborada”, compara.

A psicóloga ressalta ainda que é necessário um trabalho minucioso para o tratamento do trauma, em que o psicólogo/psicanalista fará a leitura dos sinais memoriais da experiência traumática, proporcionando um lugar de fala. “A palavra funciona, portanto, como um contorno, facilitando uma representação simbólica acerca do trauma”, esclarece.

Dessa forma, ainda conforme Lorena Viena, o trauma pode deixar de ser uma fonte de recorrência de sintomas de angústia sem nomeação para tornar-se um registro simbolizado de vivências, que podem ser elaboradas e reintegradas de maneira a permitir um funcionamento psíquico saudável. “É importante salientar que o tempo de elaboração de um trauma nada tem a ver com o tempo cronológico, visto que o inconsciente é atemporal”, aclara.

Poliana Diniz, psicóloga perita do trânsito, destacou que os principais traumas que as pessoas adquirem, após um acidente de moto, são o medo de voltar a pilotar, caso estivessem pilotando as próprias motocicletas, na hora do acidente; ou de voltar a estar em uma garupa, se estivessem como passageiras.

Outro problema é o estresse no trânsito. “O condutor também pode desencadear síndrome do pânico, a depender da proporção do acidente. Pode adquirir, ainda, um transtorno de atenção e mesmo depressão, o que torna o caso mais grave, porque esses sentimentos podem desencadear o isolamento, a culpa e levar a pessoa até mesmo ao suicídio e ao homicídio. Um esposo depressivo crônico pode, por exemplo, tirar a vida da esposa e, logo após, cometer suicídio”, exemplifica.

Ainda segundo Poliana, um acidente de moto, quando não fatal, pode deixar sequelas irreversíveis. É preciso, portanto, que os sobreviventes se submetam a terapias e reabilitação não apenas física, mas também psicológica. “Sua duração dependerá do trauma a que foi submetido”, conclui.



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