O cenário político se agitou ontem (18) com a operação da Polícia Federal em endereços do senador pela Bahia Jaques Wagner (PT) e do empresário Augusto Lima, até outro dia sócio do Banco Master. Em Brasília e na Bahia houve, inclusive, apreensão de dólares e euros. Investiga-se, também, uma transação envolvendo um apartamento no valor de R$ 2,45 milhões, em Salvador.
O episódio tem potencial de afetar as eleições majoritárias na Bahia. Candidato à reeleição, Jaques Wagner pode ser impactado pelo andamento das investigações, a depender dos seus desdobramentos. No Senado, já se cogita a substituição do senador baiano na liderança do governo. Em entrevista ontem ele negou, afirmando que Lula não falou em sua substituição.
Além do cenário na Bahia, o episódio pode reverberar nas eleições presidenciais. Nos últimos dias, o presidente Lula (PT) distanciou-se de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais justamente por conta das ligações deste último com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Caso resolva abraçar Jaques Wagner e encampar sua defesa, Lula pode perder tração junto ao eleitorado independente.
O cenário para Flávio Bolsonaro tornou-se hostil depois que gravações revelaram conversas dele com Vorcaro, pedindo milhões para a realização do filme sobre a vida do seu pai, Jair Bolsonaro, o “mito”. O petê aproveitou para associar o candidato ao escândalo do Master e colheu indiscutíveis dividendo eleitorais.
Mas e agora? Até o momento, pouca gente da situação saiu em defesa de Jaques Wagner. Algumas manifestações foram chochas e protocolares. Mas, estranhamente, por outro lado, poucos opositores aproveitaram o flanco descoberto para atacar o senador. Poderiam fustigá-lo, mas estão calados, pelo menos por enquanto.
Fica, porém, uma questão: o PT disporá da mesma desenvoltura para sair atacando os Bolsonaro com seu líder no Senado envolvido em quiproquó semelhante? Estes ataques surtirão os mesmos efeitos? E o episódio não pode manchar a campanha de Lula, que, segundo as pesquisas, não dispõe de grande vantagem? As perguntas devem ressoar nos próximos dias.
Será necessário avaliar, também, o impacto deste episódio sobre as eleições na Bahia. A operação da Polícia Federal foi ontem e não se sabe, ainda, sua repercussão junto aos eleitores. Nesta semana, particularmente, está todo mundo voltado para viagens, festejos juninos, Copa do Mundo.
Mais adiante, porém, será possível avaliar com mais clareza o episódio que pode mover as placas tectônicas da política baiana.
Sobre a superfície da Feira de Santana tudo seguia seu curso normal: as sombras da noite expeliam os últimos vestígios do crepúsculo, luzes se acendiam e a agitação diurna aos poucos cedia àquela melancolia do anoitecer. É fato que já paira, sobre a cidade, a quietude típica dos feriados prolongados. Mas imagino que as mentes estavam inquietas pelas celebrações juninas, pelas viagens, pelo ritmo frenético da Copa do Mundo, pelas alegrias e problemas do cotidiano.
Pois enquanto a vida seguia seu curso ordinário, no céu um espetáculo se desenrolava. Durante o crepúsculo, a lua crescente – estreita lâmina luminosa – aproximava-se, aos poucos, de uma estrela que reluzia com vigor. Nas bordas do horizonte, a oeste, a tarde estertorava num vermelho de jatos sanguíneos que, devagar, se diluíam.
Como sempre acontece quando o inverno se aproxima, a noite caiu abrupta e a escuridão se abateu, inexpugnável. Mas lua e estrela – na verdade, um planeta, Vênus – aproximavam-se mais e mais. Li que Mercúrio e Júpiter também estavam próximos, num alinhamento raro, mas confesso que só me ative, no limpo céu feirense, à lua com sua estreita faixa luminosa e a Vênus cintilante.
Dediquei longos minutos à apreciação do espetáculo. Sobre a superfície feirense, gente, carros, agitação e movimento. No céu, aquele silêncio solene, quase palpável, mas apenas intuído. Os astros aproximavam-se? Não imaginava o desfecho daquela dança cósmica, quase imperceptível. Nem sei porque, mas torcia para a estrela esconder-se detrás da lua.
O espetáculo parecia que se estenderia por muito tempo. Então cedi aos insistentes pedidos do gato e levei-o a um curto e breve passeio pelo corredor. Imaginava que, ao voltar, a lua e Vênus estariam me aguardando para o desfecho daquela dança celeste. Qual: traiçoeiramente, a estrela escondeu-se detrás da lua sem o meu testemunho.
Ficou só o silêncio, a estreita faixa luminosa da lua, sua face obscurecida pela sombra da terra, muitas estrelas pálidas em volta. Mas Vênus mergulhara misteriosamente detrás da lua, deixando na atmosfera uma estranha sensação de solidão...
Todos os detalhes técnicos da estreia da Seleção Brasileira já foram esmiuçados em detalhes infinitesimais. Ações, reações, posturas, posições, tudo foi esquadrinhado, medido, pesado e – sobretudo – analisado com hipérboles, eufemismos e mil outras figuras de linguagem que só os iniciados no estudo do idioma podem elencar. Muito do que foi dito – particularmente o exagero, o teatral – serviu para estimular o engajamento nas redes, como já é praxe.
Quem pretende, como retardatário, enxergar detalhes técnicos, observar o que escapou à primeira vista corre o risco de ser, solenemente, ignorado. Pior: ser visto com fastio. Afinal, foram míseros 90 minutos de peleja para justificar milhares (milhões?) de horas de comentários, opiniões e palpites, dos mais rasteiros e dispensáveis – a maioria absoluta - até aqueles efetivamente abalizados, esclarecedores.
Mas, mesmo assim, arrisco-me a uma observação que envereda pela conflagrada fronteira entre futebol e política no Brasil. Vi, nos dias que antecederam a Copa do Mundo, muita gente perder o medo de ostentar o verde-e-amarelo e curtir a Seleção Brasileira sem aquele receio do estigma, da associação com a turma que semeou o ódio e que se apropriou de um dos símbolos nacionais.
Até pouco mais de uma década atrás era assim: quando chegava o ano par que anunciava a Copa do Mundo, o povo pintava as ruas, os muros, a cara, o corpo, até os animais de estimação com o verde-amarelo símbolo do melhor futebol do mundo. Havia alegria autêntica. No Nordeste, particularmente, as festas eram potencializadas pelas celebrações juninas.
Depois que o ódio se disseminou e a extrema-direita se apropriou dos símbolos nacionais, o brasileiro médio se retraiu, assustado com a estridência dos trogloditas. Este ano, pelo jeito, trouxe uma salutar resgate de um passado que era muito mais harmonioso. Mesmo com o time não correspondendo tanto, mesmo com o ódio ainda na atmosfera. Não, nada se converteu em um mar de rosas, longe disso.
Mas, pelo menos, retomou-se o direito de torcer pela Seleção Brasileira sem os sustos de há pouco tempo, sem os temores e os receios de um período de ódio e intolerância que, se nada der errado, ficará no passado...
A proposta de redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40, com a adoção da escala 5 por 2 para boa parte dos trabalhadores, empacou no Senado. Na Câmara dos Deputados, apesar das resistências, as discussões andaram, os prazos foram céleres e a aprovação foi esmagadora. Mas Davi Alcolumbre (UB-AP) – presidente do Senado – resolveu colocar o projeto em banho-maria, retardando sua votação pelos senadores.
Noutra frente, senadores da oposição tentam emplacar uma proposta que institui o sistema de trabalho por horas. Nas mídias sociais, foi apelidado de “escala 7 por 0”. O argumento para aprová-lo é o de sempre: livre negociação entre patrões e empregados. Como se trabalhador dispusesse desse poder de barganha para impor suas condições.
O modelo por horas trabalhadas é comum nos Estados Unidos. O valor mínimo é de US$ 7.25, sem férias regulamentadas, sem décimo-terceiro salário, sem vale alimentação ou transporte e sem Fundo de Garantia. Demitir também é mais fácil do que aqui. Inspirados nesse modelo, os representantes do povo em Brasília querem aprovar algo similar, mas com direitos proporcionais, segundo dizem.
A visão que se dissemina sobre os Estados Unidos é sempre a da potência econômica, de um paraíso liberal, de riqueza disseminada. Pouco se sabe sobre a realidade do trabalhador, atual ou pretérita. Muito do que há possui forte ranço ideológico Fui encontrar um relato cru e contundente em Charles Bukowski, poeta e escritor de grande sucesso.
Bukowski relatou, em diversos romances, suas experiências como trabalhador pouco qualificado, às vezes braçal, em dezenas de empresas. Antes de consagrar-se como escritor, permaneceu mais de uma década nos Correios. As longas jornadas, os baixos salários, as condições aviltantes, as demissões frequentes, o desamparo de quem trabalha e a indiferença de quem contrata estão em suas páginas.
Na estreia, em “Cartas da Rua”, ele ofereceu um panorama da realidade dos Correios, onde trabalhava em ritmo frenético durante até 11 ou 12 horas diárias. Para suportar as jornada extensas, as tarefas enfadonhas e os movimentos repetitivos que corroeram sua saúde, ele recorria à bebida nos curtos períodos de folga.
“Factotum”, um dos seus romances mais importantes, narra sua epopeia circulando por diversas cidades dos Estados Unidos em busca de trabalhos precários, disputados por multidões de desvalidos, mesmo no próspero período pós-guerra. Nua e crua, a literatura de Bukowski não oferece espaços para lamentações ou queixas, centrando-se em uma fria e estoica objetividade.
Ao contrário do que muitos podem imaginar, Bukowski não foi comunista, nem exerceu nenhum tipo de militância política. Apenas teve a oportunidade de, a partir funções braçais ou muito modestas, enxergar a realidade do mercado de trabalho norte-americano. Justamente a realidade engendrada pelo modelo que querem copiar por aqui.
Como se, no Brasil, precisássemos de mais precariedade ainda...
O distrito tem um nome bem solene: Governador João Durval Carneiro. Foi rebatizado pela lei estadual 4.224, de 26 de dezembro de 1983, na própria gestão de João Durval, que é natural da localidade. Mas, até hoje, na média, as pessoas costumam chamá-lo de Ipuaçu. Não imagino que nenhuma antipatia ao ex-governador justifique a opção: no fundo, o antigo nome é mais simples e mais poético. Daí a insistência em se utilizá-lo, mesmo tantas décadas depois.
O sul do distrito de Ipuaçu é cercado pelas águas escuras do Rio Jacuípe. Localidades como Cumbe, Mocó, Pedra Funda e Bom Jardim são próximos do rio. O distrito – ao sul da Feira de Santana – contrasta com Bonfim de Feira, Maria Quitéria, Tiquaruçu e Matinha, situados em regiões mais áridas, típicas de Caatinga. Em Ipuaçu há, além do Jacuípe, vegetação típica de Mata Atlântica.
No distrito residem 3.692 pessoas, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. A população é, em sua maioria, negra: pretos (1,3 mil) e pardos (2 mil), coexistem com apenas 323 brancos, menos de 10% dos moradores locais.
O distrito possui a segunda maior extensão territorial da Feira de Santana, com 168 quilômetros quadrados, perdendo apenas para Jaguara. A densidade populacional é baixa: 21,9 habitantes por quilômetro quadrado.
As mulheres são maioria por pequena diferença (51,1% a 48,8%) e o analfabetismo é grande entre os moradores de Ipuaçu: 22,57% da população com idade superior a 15 anos é analfabeta.
A exemplo do que ocorre em outros distritos feirenses, a população de Ipuaçu envelhece e há poucas crianças: menos de 10% dos moradores locais tem idade igual ou inferior a 14 anos. Na faixa acima de 60 anos, por outro lado, estão 9,5% das mulheres e 7% dos homens. Cerca de 7,5% de homens e mulheres tem idade entre 30 e 39 anos, a faixa com maior número de pessoas no distrito.
Na média, Ipuaçu não tem aquelas famílias enormes, comuns em comunidades rurais décadas atrás: cada residência abriga, em média, três pessoas. O que se mantém como no passado é a forma de habitação: 100% das residências de Ipuaçu são casas. Não há apartamentos, casas de vila ou condomínio, nem cortiços ou malocas, para usar as categorias empregadas pelo IBGE.
Em Ipuaçu existe a igreja de Santa Luzia, erguida em 1656. Imagina-se que a ocupação, por lá, começou a partir de surgimento dos primitivos núcleos de povoamento nos limites da Baía de Todos os Santos. Por via fluvial, chegou-se a Ipuaçu. Mas isso é só especulação, porque deu preguiça de pesquisar para confirmar a informação...