A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos,
publicada pelo Departamento de Guerra no segundo mandato de Donald Trump, marca
mais do que uma inflexão de política externa: ela explicita uma mudança de
época. Ao proclamar que o Hemisfério Ocidental é área de interesse vital dos
EUA “do Ártico à América do Sul” e ao ameaçar o uso da força contra países que
não cooperem com seus objetivos, Washington não inaugura uma doutrina,
ressuscita uma antiga. Trata-se de um retorno explícito à Doutrina Monroe,
agora reformulada no que o próprio documento chama, sem pudor, de “Corolário
Trump”.
A Doutrina Monroe, anunciada em 1823, afirmava que o
continente americano não deveria ser objeto de novas intervenções europeias. Na
virada do século XX, Theodore Roosevelt acrescentou seu famoso corolário: os
Estados Unidos se reservavam o direito de intervir militarmente nos países
latino-americanos sempre que julgassem que a “ordem” ou a “estabilidade”
estivessem ameaçadas. Era o nascimento do intervencionismo preventivo no
hemisfério, legitimado pelo argumento da civilização, da dívida ou da
segurança. A estratégia atual ecoa esse passado com inquietante clareza. A
diferença é que, se no início do século XX o discurso era civilizatório e no
pós-1945 foi liberal-institucional, agora o verniz desapareceu. O documento
abandona a retórica da promoção da democracia e dos direitos humanos e assume
uma linguagem abertamente coercitiva, ancorada na força militar, na dissuasão
direta e na noção de soberania hierarquizada.
O Hemisfério Ocidental reaparece como zona de influência
exclusiva, não como espaço de cooperação. Países que não colaborarem no combate
ao narcotráfico ou que permitirem a presença econômica, política ou tecnológica
da China e da Rússia passam a ser tratados como ameaças potenciais. A
estratégia legitima ações militares “focadas e decisivas” e cita, como
precedente virtuoso, a operação que resultou na deposição de Nicolás Maduro na
Venezuela. A mensagem é inequívoca: a força deixa de ser último recurso e se
converte em instrumento regular de gestão regional. Esse deslocamento revela a
passagem de uma hegemonia que se pretendia “benevolente” para uma hegemonia
coercitiva explícita.
Durante décadas, os Estados Unidos combinaram poder militar
com instituições multilaterais, alianças e normas que mascaravam a assimetria
real. Agora, a própria estratégia reconhece que não busca consenso, mas
obediência funcional. Cooperação, quando existe, é definida como alinhamento;
divergência passa a ser vista como hostilidade. A América Latina, nesse
contexto, reaparece como aquilo que sempre foi nos momentos de retração liberal
americana: um espaço de exceção jurídica. O direito internacional, a soberania
e os fóruns multilaterais tornam-se condicionais quando colidem com interesses
estratégicos definidos em Washington. O narcotráfico cumpre aqui o papel que o
comunismo desempenhou no século XX: um inimigo difuso, transnacional e
moralmente absoluto, capaz de justificar intervenções sem declaração formal de
guerra.
O aspecto mais revelador do documento, contudo, é sua
coerência histórica. Ao mesmo tempo em que propõe “delegar” a contenção da
Rússia à OTAN e da Coreia do Norte a aliados asiáticos, os EUA concentram seus
próprios recursos no controle hemisférico e no cerco estratégico à China. A
lógica é clássica: assegurar o entorno imediato antes de administrar o
equilíbrio global. Não por acaso, o texto enfatiza o Canal do Panamá, o Caribe,
a Groenlândia e o Golfo das Américas, os mesmos pontos geoestratégicos centrais
do pensamento naval de Alfred Thayer Mahan no final do século XIX. O que muda
não é a lógica do poder, mas sua franqueza. A ordem liberal internacional, já
corroída por crises internas e guerras periféricas, dá lugar a uma ordem
declaradamente hierárquica, na qual zonas de influência voltam a ser
reconhecidas como legítimas.
Ao chamar essa política de “Corolário Trump”, o próprio governo admite que não está inovando, mas reivindicando uma tradição imperial americana, agora adaptada a um mundo multipolar. A grande ironia é que, ao agir assim, Washington contribui para aquilo que diz querer evitar. Ao tratar a América Latina como quintal estratégico e não como conjunto de Estados soberanos, empurra governos e elites regionais para a busca de contrapesos externos. Ao normalizar a coerção, legitima a coordenação estratégica entre China e Rússia. E ao substituir a diplomacia pela ameaça, acelera a fragmentação da ordem internacional que construiu após 1945. O século XXI, afinal, não caminha para a superação do século XIX. Ele o reencena, dessa vez agora com tecnologia avançada, linguagem direta e menos ilusões.
Donald Trump diz que não quer usar a
força, ele quer apenas a Groenlândia. A frase, dita em Davos com o desassombro
de quem pede um café, deveria ser lida com atenção histórica: poucas vezes, na
política internacional, a força foi tão claramente pressuposta justamente
quando se afirma que ela não será usada.
Enquanto o presidente americano
discursava sobre “um grande e belo pedaço de gelo”, os Estados Unidos
deslocavam porta-aviões, caças, reabastecedores e sistemas antimísseis para
cercar o Irã. De um lado, o Ártico apresentado como objeto de negociação civilizada;
de outro, o Oriente Médio tratado como teatro natural da guerra. A aparência de
dispersão estratégica esconde, na verdade, uma coerência brutal.
A Groenlândia não é um capricho
exótico e, sim, um território. E o
retorno explícito da centralidade do território é um dos sinais mais claros de
que a ordem liberal pós-1945 entrou em colapso. Durante décadas, acreditou-se,
ou fingiu-se acreditar, que mercados,
instituições multilaterais e normas jurídicas haviam domesticado a velha
política das grandes potências. Trump não compartilha dessa ilusão. Ao
reivindicar a Groenlândia, ele afirma algo que sempre foi verdade, mas
raramente dito de forma tão crua: espaço físico, rotas marítimas, controle
aéreo e posições geográficas continuam sendo a base do poder.
O argumento de que “apenas os EUA
podem proteger” a ilha não é novo. É a reedição do velho léxico imperial do
século XIX, quando potências se arrogavam o direito de tutelar territórios e
povos considerados incapazes de se defender. A diferença é que agora o tutelado
é um membro fundador da Otan. A humilhação pública da Europa não é um efeito
colateral; é parte do método. Ao reduzir aliados à condição de dependentes
ingratos, Trump reorganiza hierarquias sem precisar disparar um tiro.
No Oriente Médio, o tom muda, mas a
lógica permanece. Ali, não se fala em negociação imobiliária, mas em segurança,
contenção e estabilidade. A mobilização militar em curso contra o Irã segue um
roteiro conhecido: pressão externa combinada à exploração de tensões internas,
com a retórica da libertação sempre pronta para ser acionada. A história
recente recomenda ceticismo. Derrubar regimes é fácil; construir ordens
políticas estáveis mostrou-se sistematicamente além da capacidade, ou do
interesse, das potências interventoras.
Groenlândia e Irã são, portanto,
dois tabuleiros da mesma partida. No Ártico, Trump testa até onde pode ir sem
usar força aberta, normalizando a ideia de aquisição territorial entre aliados.
No Golfo, prepara a força para que ela não precise ser usada, ou, se for, que
seja rapidamente decisiva. Em ambos os casos, o alvo último não é apenas
regional. Trata-se de conter Rússia e China em todos os eixos possíveis: no
gelo, no deserto, no mar.
A Europa assiste a tudo com
perplexidade e indignação moral, mas pouca capacidade de reação. A Otan,
apresentada como aliança entre iguais, revela-se cada vez mais um protetorado
assimétrico. O Artigo 5º vira fetiche jurídico; a proteção real depende da vontade
política de Washington. Trump apenas verbaliza o que seus antecessores
preferiram disfarçar sob linguagem diplomática.
Nada disso é improviso ou loucura. É
regressão consciente a uma política internacional sem verniz, onde ameaça,
escárnio e demonstração de força voltam a ser instrumentos legítimos. Quando
Trump diz que “não quer usar a força”, o que realmente afirma é que ela já está
lá, visível no horizonte, implícita na negociação, silenciosa nos radares
desligados dos porta-aviões.
Um pedaço de gelo no Ártico e um mar
de fogo no Oriente Médio parecem temas desconexos apenas para quem ainda
acredita que vivemos em um mundo governado por regras. Para quem observa a
história de longa duração,um historiador experiente, trata-se apenas do retorno do normal:
impérios não pedem; tomam. Quando dizem que não precisam usar a força, é porque
já a colocaram sobre a mesa.
Você é um pedestre e foi com a leitura dos ensaios de Ralph Waldo Emerson que você aprendeu a dominar a arte de caminhar a pé. Seus pés perambulam pelo solo já tão conhecido do campus da Uefs. Ao sair do Museu Casa do Sertão, onde esteve examinando parte do acervo de Eurico Alves, você contempla o céu azulado de uma manhã de outubro de 2025.
A alta
temperatura de primavera, o desconforto térmico e toda aquela excessiva
luminosidade o levam a concluir que se um dia você se tornasse Rei, seria
apenas de um país úmido e chuvoso. Você se desloca de forma quase tão
silenciosa quanto um submarino nuclear de ataque navegando sob o oceano ártico.
Você dirige
seus passos lentos em direção ao novo auditório-teatro da instituição,
equipamento cultural recém entregue à comunidade acadêmica. A sua presença na
biblioteca do Museu, vasculhando arquivos empoeirados, foi apenas a frente
secundária, seu real objetivo, o centro de sua ofensiva se encontra na entrada
do novo prédio a ser inaugurado em breve.
E, lá, uma missão o aguarda, uma tarefa cuja execução exigirá uma grande
soma de energia. Você chega atrasado, a pesquisa documental absorveu muito de
seu tempo e você se perdeu, esquecendo-se de seu compromisso.
Quando você
chega ao objetivo, avista, à distância, o esperado alvo. Lá está ele, o artista
Juraci Dórea; ele está de pé, de costas para você. A seu lado, está a sua
inseparável companheira, Selma Soares; ela usa um chapéu de abas largas,
proteção contra o sol inclemente. Juraci usa um chapéu de pano, ao estilo
daqueles usados por sindicalistas no início do século XX. Ele parece quieto,
seu estado de ânimo natural, e em silêncio contempla algo.
De onde você
se encontra, ele parece, a seus olhos, uma estátua de um gigante; como se algum
devoto houvesse fincado aquela estátua ali com fins devocionais. Em verdade,
assim, de pé e mudo, visto à distância, ele faz recordar a estátua de um
daqueles Moais, da ilha de Páscoa: um gigante silencioso guarnecendo a
paisagem.
Você se
aproxima em silêncio, temendo romper a harmonia do quadro imagético, romper
aquela atmosfera de sortilégio. A professora Selma Soares o avista antes do que
você esperava, ela o recepciona, com sua voz macia; Juraci, envolto na aura de
seriedade que costumeiramente o cerca, aperta sua mão e agradece por sua
presença. Há mais pessoas ali, funcionários da Uefs; o engenheiro-chefe da obra
que está se findando; uma equipe de jardinagem; a reitora da Uefs; o artista
plástico e professor George Lima; Roberval Pereyr, o Vate das Umburanas; e dois
ou três repórteres.
Todos estão ali,
inclusive você, porque Juraci está erguendo diante do novo auditório-teatro uma
escultura. Enquanto os demais observam a escultura tomar forma, você compreende
que, ali, se manifesta algo mais duradouro do que a obra em si: um modo de
estar no mundo. Uma postura que dispensa anúncios e explicações, e que só se
torna visível a quem se aproxima com tempo, atenção e silêncio.
Como um
espião infiltrado em uma área na qual se realizam testes secretos de uma nova
arma, você se afasta da multidão e sem sequer acenar para os presentes, você se
retira para longe, como uma sombra. Furtivamente, você se instala a cerca de
100 metros de distância, sob o abrigo de uma árvore de tronco fino e folhagem
rala. Dali, já de todo esquecido pelo grupo, você observa e cataloga.
Juraci se
movimenta discretamente. Apesar de seus 81 anos de idade, ele mantém a agilidade
e força de ânimo. Como um sacerdote provindo de eras arcaicas, Juraci se
prepara para oficiar um culto, cuja real ancestralidade até mesmo ele parece
desconhecer. Ele distribui ordens e indica posições onde devem ser colocadas as
estacas de madeira de sua escultura.
De longe,
você vê o corpo magro do artista se deslocar de um ponto a outro, enquanto
alguns membros do círculo de pessoas ao redor produzem e captam imagens com
câmeras. O que ele está erguendo, ali, é uma espécie de desdobramento de um
projeto mais amplo e que foi por ele criado no início da década de 1980: o Projeto
Terra, uma premiada intervenção artística que consistiu em expor esculturas
no meio da caatinga: a arte sem público; ou um ritual mágico evocatório, cujo
real significado não foi compreendido.
A óbvia
referência telúrica presente no título de seu projeto artístico remete a
conceituações religiosas de fundamentação pré-histórica: “arrasta-te para tua
Mãe Terra e possa ela livrar-te do Nada”, diz um dos versos do Rig Veda
indiano. A Matter Tellus parece ser um componente fundamental dessa
conceituação estética. O universo artístico de Juraci é fundamentalmente
sertanejo, fincado sobre o solo do sertão e animado por um conceito de
religiosidade arcaica. Essa escultura que ele está erguendo parece uma Stonehenge de paus e couros de boi.
A certa altura, você se afasta
ainda mais. Não há nada a acrescentar. Juraci continua ali, trabalhando em
silêncio, como se o mundo ao redor fosse apenas paisagem. Você observa por
alguns instantes e depois se retira. O que precisava ser visto já foi visto.
Você recolhe seus instrumentos de observação e, cabisbaixo, caminha para longe
dali. Seu modus operandi de espião o permite se retirar discretamente,
quase sem ser notado. Sua atividade de observação preliminar está finda.
Aos 81 anos completos em junho
último, Juraci Dórea Falcão é um artista consagrado. E não apenas ali naquele
ambiente acadêmico no qual ele exerceu a atividade de docência durante anos. A
consagração é nacional. E prova disso está no texto ensaístico longo que o
Jornal Folha de São Paulo a ele dedicou, por volta do primeiro semestre de
2025. O nome de Juraci é pronunciado com reverência nos meios onde circulam
aqueles que produzem e apreciam as elevadas formas das artes plásticas modernas
no Brasil.
Apesar disso, ele continua a ser
aquele mesmo homem alto, magro e de ar sisudo que você conheceu há exatos 31 anos.
Certamente, ele não se recorda disso. O ano era 1994 e você era um estudante de
ensino médio, um adolescente membro do corpo discente do Colégio Assis
Chateaubriand, em Feira de Santana. Por intermédio de Roberval Pereyr, você
convidou o artista para realizar uma palestra para seus colegas adolescentes.
E, ali, foi a primeira vez que
você viu de perto o artista que era, já naqueles dias, um nome consagrado. Você
se recorda dos braços ossudos e das mãos finas dele segurando uma obra sobre
pintores modernos. Ele nos mostrava as gravuras e dissertava sobre elas. Você
se recorda dele saindo da sala, sério, olhos baixos; ele apertou sua mão
molemente e agradeceu de forma um tanto mecânica pelo convite e partiu.
Ele usava uma camisa branca,
folgada e limpa, uma calça tênis surrada, mas também limpa. Seus cabelos eram
escuros, olhos pretos e que pareciam imóveis. E, ao redor dele, como uma
espécie de armadura invisível ao olhar profano, você viu uma dura crosta de
silêncio. E você não pode deixar de pensar: “pela honra do general Ludendorff!
Este homem é rigoroso, sisudo e deve ser um homem obcecado pela beleza; ele é um
igual, ele é um irmão”.
Um general passadista é aquele que comete o grave equívoco de
preparar-se sempre para lutar a guerra anterior. Trata-se de um erro clássico,
recorrente na história militar, e quase sempre fatal. A função precípua do
setor de planejamento operacional das forças armadas de qualquer país - o
Estado-Maior-Geral - é propor soluções para um dos aspectos centrais da
estratégia: identificar a natureza e as características da próxima guerra e
definir os métodos capazes de derrotar o inimigo no menor tempo possível. Essa
discussão é fundamental porque dela deriva a doutrina de emprego da força
militar por parte de um organismo político estatal. Diante disso, impõe-se uma
pergunta incontornável: qual é a atual doutrina militar das forças armadas
norte-americanas e de que maneira ela ajuda a compreender o fim da velha ordem
internacional, recentemente proclamado por Ursula von der Leyen?
A declaração da presidente da Comissão Europeia no Fórum
Econômico Mundial de Davos, segundo a qual a “velha ordem acabou”, não deve ser
interpretada como um gesto retórico isolado ou como mera reação às ameaças do
presidente americano Donald Trump. Ela expressa, antes de tudo, uma confissão
política: a de que a Europa demorou a reconhecer uma transformação profunda e
já em curso no sistema internacional. Quando Von der Leyen fala em “nova
independência europeia”, ela admite implicitamente que os pressupostos
estratégicos do pós-Guerra Fria, previsibilidade, alianças automáticas e
liderança benevolente dos Estados Unidos, deixaram de existir.
Do ponto de vista americano, essa ruptura não é nova. Desde
pelo menos o início da década de 2010, as forças armadas dos Estados Unidos vêm
reformulando sua doutrina em torno da chamada great power competition.
O foco deixou de ser o contraterrorismo e os conflitos assimétricos no Oriente
Médio para concentrar-se na competição estratégica contínua com outros polos de
poder, notadamente China e Rússia. A guerra, nesse novo paradigma, já não é
concebida como um evento excepcional que começa com uma declaração formal e
termina com um armistício. Ela passa a ser permanente, difusa e
multidimensional.
A doutrina militar americana contemporânea, expressa em
conceitos como Multi-Domain Operations, entende o conflito como um
continuum que integra meios militares, econômicos, tecnológicos, informacionais
e diplomáticos. Tarifas, sanções, coerção territorial, controle de cadeias
produtivas, pressão sobre aliados e domínio de espaços estratégicos tornam-se
instrumentos tão relevantes quanto divisões blindadas ou porta-aviões. Não se
trata de um desvio ocasional, mas de uma concepção coerente de poder em um
mundo pós-hegemônico.
É nesse contexto que a Groenlândia adquire centralidade
estratégica. Longe de ser uma excentricidade retórica ou um capricho
presidencial, o interesse americano pela ilha responde a uma lógica geopolítica
clara: controle do Ártico, das novas rotas marítimas, de recursos estratégicos
e da projeção militar em uma região cada vez mais disputada por Rússia e China.
A surpresa europeia diante desse movimento revela menos sobre a
imprevisibilidade americana e mais sobre a persistência de uma mentalidade
estratégica ultrapassada no continente.
A União Europeia, ao que tudo indica, ainda operava segundo
os parâmetros da ordem anterior, na qual divergências entre aliados eram
administradas dentro de limites tácitos e a coerção entre parceiros era
considerada impensável. A reação atônita às ameaças tarifárias, à pressão
territorial e à erosão da confiança transatlântica expõe o atraso europeu em
compreender que a política internacional retornou, de forma explícita, à lógica
do poder.
O paradoxo é evidente: enquanto Washington reorganiza sua
doutrina militar e estratégica para um mundo de competição permanente, Bruxelas
apenas agora começa a verbalizar a necessidade de adaptação. A fala de Von der
Leyen, nesse sentido, marca menos o início de uma nova ordem do que o
reconhecimento tardio de que ela já está em vigor.
A história militar ensinaa que ordens internacionais
raramente colapsam de forma abrupta. Elas se esgotam. Perdem coerência,
previsibilidade e capacidade de produzir estabilidade. Em geral, continuam a
ser invocadas retoricamente muito depois de já terem deixado de operar na
prática. Foi assim com o sistema europeu do século XIX, com a ordem liberal do
entreguerras e, agora, com a arquitetura construída após 1991. O erro recorrente
das elites políticas não é provocar a ruptura, mas insistir na permanência de
um mundo que já não responde aos seus próprios pressupostos.
Nesse sentido, o verdadeiro risco estratégico para a Europa
não reside apenas na assertividade americana, na ascensão chinesa ou no
revisionismo russo, mas na persistência de uma cultura estratégica moldada por
uma ordem que deixou de existir. Preparar-se para defender regras, alianças e
automatismos que já não vinculam os atores centrais do sistema é, no plano estratégico,
uma forma sofisticada de negação da realidade. Estados que não atualizam suas
categorias de análise acabam reagindo a choques sistêmicos com improviso,
moralismo ou apelos normativos, instrumentos insuficientes em um ambiente de
competição aberta.
A nova guerra, como já se delineia, não será precedida por
declarações formais nem obedecerá a fronteiras nítidas entre paz e conflito.
Ela se manifesta por meio de coerção econômica, disputas tecnológicas, pressão
sobre territórios periféricos, instrumentalização de alianças e demonstrações
seletivas de força. Trata-se de uma guerra administrada, prolongada e
deliberadamente ambígua, cujo objetivo não é a vitória decisiva, mas a erosão
gradual da capacidade de decisão do adversário.
Alguns atores compreenderam essa mutação e adaptaram suas
doutrinas, instituições e instrumentos de poder. Outros, presos às lições da
guerra passada, continuam a operar como se o mundo ainda fosse regido por
compromissos tácitos e convergência de interesses entre aliados. A história
sugere que, nesse tipo de transição, a vantagem inicial pertence menos aos que
proclamam novas ordens do que àqueles que, silenciosamente, já aprenderam a
operar na ausência delas.
A nova guerra não será declarada. Ela já começou. E, como quase sempre ocorre, alguns atores chegaram a ela preparados e outros, ainda presos às lições da guerra passada.
Na história moderna das grandes potências europeias, o
recurso à força constituiu elemento recorrente, embora não exclusivo, das
relações políticas interestatais. Entre a Paz de Westfália, em 1648, e o
encerramento da chamada era das revoluções, em 1848, a diplomacia europeia
organizou-se fundamentalmente em torno do princípio do equilíbrio de poder,
entendido como um sistema flexível de alianças, contenções e acomodações
destinado a impedir a consolidação de uma hegemonia continental duradoura.
Ainda assim, momentos de predominância estratégica não podem
ser ignorados: a Monarquia Hispânica sob Felipe II, a França de Luís XIV e o
império napoleônico representaram tentativas, em graus distintos e com
resultados desiguais, de ruptura desse equilíbrio. Na contemporaneidade, a
política externa da Rússia sob Vladimir Putin insere-se nessa tradição
revisionista, ao empregar a força militar como instrumento de reconfiguração do
status quo europeu, não com vistas à hegemonia continental clássica, mas à
erosão deliberada da ordem política e de segurança estabelecida após o fim da
Guerra Fria.
O colapso da União Soviética, em 1991, não deu origem a um
novo equilíbrio de poder no continente europeu, mas a uma assimetria
estratégica inédita, marcada pela dissolução de um polo sem a correspondente
reconstrução de um sistema inclusivo de segurança coletiva. A expansão gradual
da Organização do Tratado do Atlântico Norte em direção ao Leste, embora
justificada no discurso ocidental como processo defensivo e voluntário, foi
percebida em Moscou como um movimento de cerco estratégico, incompatível com as
premissas clássicas da estabilidade sistêmica.
Nesse contexto, a Ucrânia emergiu como espaço
geopolítico decisivo: não apenas um Estado soberano em processo de afirmação
nacional, mas um território-chave na disputa entre uma ordem europeia baseada
na ampliação da esfera atlântica e uma Rússia empenhada em preservar zonas de
influência consideradas vitais à sua segurança. A guerra, portanto, não resulta
de um desvio irracional ou de uma anomalia histórica, mas da erosão prolongada
de um equilíbrio já frágil, no qual a diplomacia cedeu lugar à lógica da
dissuasão, da coerção e, finalmente, do confronto armado.
A falência desse equilíbrio pós-1991 está ligada menos a
decisões isoladas do que a uma ilusão estrutural compartilhada pelas elites
políticas europeias: a crença de que a superação da bipolaridade significaria,
automaticamente, a superação da lógica do poder. A substituição do equilíbrio
pela expansão normativa, democracia liberal, economia de mercado e
institucionalismo multilateral, ocorreu sem o correspondente reconhecimento de
que grandes potências raramente abdicam de interesses estratégicos vitais em
nome de princípios abstratos. A Europa, ao terceirizar sua segurança aos
Estados Unidos e diluir sua autonomia estratégica no interior da OTAN, renunciou
ao papel histórico de mediadora e reguladora do sistema continental.
Nesse contexto, a Rússia pós-soviética experimentou
simultaneamente declínio material, retração territorial e perda de prestígio
internacional. A década de 1990, longe de inaugurar uma integração equilibrada
de Moscou à ordem europeia, consolidou um sentimento de humilhação estratégica,
agravado pela percepção de que compromissos tácitos haviam sido
desconsiderados. A partir dos anos 2000, sob Putin, esse ressentimento foi
gradualmente convertido em doutrina: reconstrução do Estado, revalorização do
poder militar e disposição crescente para empregar a força como instrumento
legítimo de política externa. A intervenção na Geórgia, a anexação da Crimeia
e, por fim, a guerra na Ucrânia inscrevem-se nessa trajetória.
A Ucrânia, por sua vez, tornou-se o ponto de fratura desse
processo não apenas por sua posição geográfica, mas por seu significado
simbólico e estratégico. Para o Ocidente, sua incorporação à esfera
euro-atlântica representaria a consolidação de uma Europa “inteira e livre”.
Para a Rússia, significaria a perda definitiva de profundidade estratégica, a
ruptura de laços históricos e a confirmação de um cerco geopolítico
irreversível. O conflito, assim, não é apenas territorial, mas civilizacional
no sentido estratégico do termo: envolve concepções incompatíveis de ordem,
segurança e legitimidade.
A guerra em curso expõe, de forma incontornável, a crise da
arquitetura de segurança europeia. A diplomacia preventiva falhou; os mecanismos
multilaterais revelaram-se impotentes; e o continente retornou a uma lógica que
julgava superada. Não se trata, contudo, de um simples retorno ao passado. O
atual cenário combina elementos clássicos, dissuasão, zonas de influência,
balanço de poder, com fatores novos, como a interdependência econômica, a
guerra híbrida e a centralidade da informação. O resultado é um sistema
instável, propenso à escalada e pobre em canais eficazes de acomodação.
Em última instância, a guerra na Ucrânia não representa uma
ruptura com a história europeia, mas sua continuidade mais sombria. O
continente que, após 1945, jurou ter aprendido com a própria devastação, voltou
a confundir estabilidade com negação do poder e paz com expansão normativa. Ao
recusar-se a reconhecer que o equilíbrio sempre foi o verdadeiro fundamento da
ordem europeia, substituiu a prudência estratégica pela ilusão de
irreversibilidade histórica. O resultado não foi a superação do conflito, mas
sua postergação até o momento em que ele retornasse sob formas mais violentas.
A tragédia não reside apenas na guerra em si, mas na
constatação de que ela era evitável apenas no plano retórico. Ignorar as
percepções de segurança de uma grande potência nunca foi receita para a paz;
foi, ao contrário, um convite à reação. Ao marginalizar a Rússia sem integrá-la
a um sistema efetivo de contenção e acomodação, a Europa renunciou ao papel que
historicamente lhe coube: o de administrar rivalidades antes que estas
degenerassem em catástrofe. O continente reaprende, assim, da maneira mais
custosa, uma lição antiga: quando o equilíbrio é abandonado em nome de
promessas abstratas, o vazio deixado por ele é invariavelmente preenchido pela
força.
Se a história ensina algo, é que ordens políticas não colapsam por malícia isolada, mas por cegueira coletiva. A guerra atual não é um acidente, nem uma anomalia moral, mas o sintoma tardio de uma arquitetura de segurança construída sobre pressupostos frágeis e expectativas irrealistas. A Europa, mais uma vez, encontra-se diante de seu dilema recorrente: reconstruir conscientemente um equilíbrio imperfeito, reconhecendo limites, interesses e assimetrias, ou persistir na recusa da realidade estratégica, condenando-se a reviver, sob novas roupagens, os ciclos de violência que marcaram sua própria formação histórica.