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  • Feira de Santana, quarta, 14 de janeiro de 2026

Welligton Freire

Welligton Freire - Os casos de Irã e Venezuela sinalizam o retorno de uma paz armada

14 de Janeiro de 2026 | 09h 25
Welligton Freire - Os casos de Irã e Venezuela sinalizam o retorno de uma paz armada
Manifestantes protestam contra o regime do aiatolá Ali Khamenei por todo o Irã. (Foto: Reprodução/TV Globo)

Enquanto multidões desafiam o regime iraniano nas ruas de Teerã e de cidades periféricas do país, os Estados Unidos capturam o presidente da Venezuela e declaram o direito de “governar” um Estado soberano até uma transição considerada segura. À primeira vista, tratam-se de crises distintas, separadas por geografia, cultura e história. Observadas em conjunto, porém, elas expõem algo mais profundo: o retorno de uma ordem internacional marcada pela instabilidade, pela força e pela suspensão seletiva das normas,  uma dinâmica que lembra a chamada “paz armada” que precedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

As grandes rupturas da ordem internacional raramente começam no centro do sistema. Antes de 1914, não foi Berlim, Londres ou Paris que detonaram a crise geral, mas episódios periféricos, as crises do Marrocos, nos confins do império colonial, e as guerras balcânicas, em regiões consideradas instáveis e secundárias. Ainda assim, esses choques “laterais” foram suficientes para expor a fragilidade das regras, das alianças e da capacidade de contenção das grandes potências. Algo semelhante parece ocorrer hoje. À primeira vista, os protestos que desafiam o regime iraniano e a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos pertencem a universos distintos. Observados em conjunto, porém, revelam um mesmo padrão: Irã e Venezuela funcionam como elos fracos do sistema internacional, zonas onde se testam os limites da tolerância global ao uso da força, à exceção jurídica e à erosão das normas que estruturaram o pós-Guerra Fria.

No Irã, o que se desenrola já não pode ser compreendido como mais um ciclo de protestos reprimidos pelo aparato estatal. A escala inédita das manifestações, seu caráter nacional e transversal, atingindo grandes centros e cidades periféricas, classes médias e regiões historicamente marginalizadas, e, sobretudo, a ruptura simbólica com a figura do líder supremo indicam algo mais profundo: uma crise de legitimidade. Essa crise interna se articula a um contexto externo adverso. O Irã enfrenta isolamento regional, a perda ou enfraquecimento de aliados estratégicos e pressões militares recentes que abalaram o prestígio da Guarda Revolucionária, um dos pilares simbólicos do regime. Estados pressionados simultaneamente por dentro e por fora tendem a reagir de forma errática, o que amplia a instabilidade sistêmica.

Se o Irã expõe o colapso interno de um regime, a Venezuela revela o enfraquecimento das regras externas. A captura de um chefe de Estado em exercício por uma potência estrangeira constitui um evento sem precedentes recentes. Não se trata apenas de uma operação contra Nicolás Maduro, mas de um ataque direto ao princípio da soberania regulada por normas. A invocação explícita da Doutrina Monroe, um artefato do século XIX, sinaliza um retorno a uma lógica de esferas de influência e tutela direta, incompatível com a retórica multilateral que marcou a ordem pós-1945. Ao declarar que os Estados Unidos “governarão” a Venezuela até uma transição considerada segura, Washington substitui o direito internacional por uma decisão soberana unilateral. O perigo desse gesto não reside apenas no caso venezuelano, mas no precedente que ele estabelece. Quando a exceção se torna aceitável, ela deixa de ser exceção.

Irã e Venezuela também revelam outro fenômeno inquietante: o esvaziamento prático dos sistemas de alianças. Rússia e China condenam as ações americanas, mas evitam confrontos diretos. Moscou protesta, mas não protege; Pequim critica, mas calcula. O padrão se repete: a queda do regime sírio aliado da Rússia, a vulnerabilidade venezuelana, os ataques sofridos pelo Irã. As alianças permanecem no discurso, mas falham na dissuasão. Antes de 1914, muitos tratados tinham exatamente esse caráter: promessas cuja efetividade só seria testada no momento crítico. Alianças que não dissuadem produzem insegurança, e a insegurança, por sua vez, estimula apostas mais arriscadas.

Esse cenário é agravado por um traço comum às lideranças envolvidas: a concentração extrema de poder decisório. Trump, Putin, Khamenei e Maduro governam sistemas nos quais instituições funcionam como extensões da vontade pessoal. A política externa assume contornos performáticos, marcada por retórica maximalista, humilhação simbólica do adversário e decisões rápidas, pouco filtradas por mecanismos de contenção.A analogia com a diplomacia de corte do início do século XX é instrutiva. Quando a política internacional se torna extensão do ego dos governantes, o risco de erros de cálculo cresce exponencialmente. Talvez o aspecto mais perigoso do momento atual seja a sensação de que tudo ainda pode ser administrado. Cada crise é absorvida, relativizada, tratada como excepcional. Nenhuma, até agora, produziu uma guerra geral. Foi exatamente essa confiança que marcou a Europa da chamada paz armada. Sistemas internacionais raramente colapsam quando tudo falha de uma vez. Eles colapsam quando todos acreditam que, apesar dos sinais, o risco ainda é controlável.

Irã e Venezuela não explicam sozinhos o mundo atual, mas iluminam um padrão inquietante: a volta da força como linguagem legítima da política internacional e da exceção como método recorrente de ação. Como na Europa anterior a 1914, ninguém parece desejar conscientemente uma guerra de grandes proporções. Ainda assim, o acúmulo de crises, precedentes e ambiguidades sugere que o sistema voltou a conviver perigosamente com a instabilidade como norma. A história ensina que essa confiança, quase sempre, cobra um preço alto.

 



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