Enquanto diplomatas trocam fórmulas em Genebra, destróieres desenham círculos no Mar da Arábia. O anúncio de “avanço” nas negociações nucleares entre Irã e Estados Unidos ocorre sob a vigilância de dois porta-aviões americanos, o USS Abraham Lincoln e o USS Gerald R. Ford, enquanto Teerã ensaia tiros reais no Estreito de Hormuz e conduz exercícios com Rússia e China. A história ensina que, em certos momentos, a diplomacia não substitui a força, ela a coreografa.
Desde o século XIX, potências negociam com frotas ao largo. A “gunboat diplomacy” britânica era menos sobre disparar canhões e mais sobre torná-los visíveis. O encouraçado ancorado valia como argumento. No século XX, a Crise dos Mísseis de 1962 cristalizou a lição: a quarentena naval imposta por Washington não foi apenas bloqueio, foi mensagem estratégica calibrada para evitar a guerra total. A tensão produz linguagem. A linguagem produz cálculo.
A tradição teórica acompanha o fato histórico. Clausewitz advertia que a guerra é continuação da política por outros meios; mas o inverso também se revela verdadeiro: a política, sob certas condições, é continuação da guerra por meios simbólicos. Thomas Schelling mostrou que o poder de ferir pode ser instrumento de barganha mesmo quando não se pretende usá-lo. O que importa é a credibilidade do dano possível.
É nesse registro que se deve ler Genebra. O chanceler iraniano fala em “acordo justo”, o presidente americano menciona bombardeiros e consequências. Nenhum dos lados ignora que o outro dispõe de capacidade de destruição. O diálogo é travado sob o teto invisível da dissuasão. Não se trata de paz, mas de gerenciamento do risco.
O Estreito de Hormuz funciona, nesse teatro, como personagem central. Gargalo por onde flui parcela decisiva do petróleo mundial, ele lembra que geografia é destino estratégico. Os Dardanelos moldaram impérios; Suez precipitou crises; Malaca define rotas asiáticas. Hormuz é a mesma equação: um espaço estreito capaz de ampliar o poder de quem o controla ou ameaça. Quando a Guarda Revolucionária realiza exercícios com munição real, sinaliza que possui instrumentos assimétricos, mísseis costeiros, lanchas rápidas, minas, capazes de elevar o custo de qualquer ofensiva.
Ao mesmo tempo, a presença naval russa e chinesa não é mero gesto protocolar. Ela introduz complexidade no cálculo americano. Durante a Guerra Fria, a bipolaridade impunha linhas relativamente claras de contenção. Hoje, a multipolaridade incipiente torna o tabuleiro mais instável. A eventual ação contra Teerã deixaria de ser expediente regional para tocar interesses de outras potências. A dissuasão, antes bilateral, torna-se cruzada.
O precedente recente de bombardeios contra instalações nucleares iranianas, evocado por Washington como demonstração de capacidade, reforça a lógica da coerção diplomática. A mensagem é simples: negociar é preferível a sofrer novos ataques. Mas a coerção tem limite. Se excessiva, consolida a resistência do adversário; se branda, corrói a credibilidade. A arte estratégica reside nesse equilíbrio instável.
Há, ainda, o plano interno. Regimes negociam também para suas plateias domésticas. A liderança iraniana precisa demonstrar firmeza diante de pressões externas e turbulência interna. A Casa Branca, por sua vez, converte cada movimento naval em símbolo de determinação. A diplomacia, assim, não se dirige apenas ao interlocutor estrangeiro, mas ao eleitor, ao aliado e ao rival sistêmico.
Ninguém parece desejar confronto aberto. A concentração de meios militares, centenas de aeronaves embarcadas, mísseis de cruzeiro, sistemas antiaéreos, funciona como seguro perverso: quanto maior o potencial de devastação, menor o incentivo à sua utilização. A paz resultante não é fruto de confiança, mas de medo compartilhado. Como em 1914, o perigo reside menos na intenção declarada do que na possibilidade de erro de cálculo.
Genebra, portanto, não é antítese de Hormuz; é sua extensão civilizada. As salas discretas onde diplomatas redigem princípios básicos estão ligadas, por fios invisíveis, aos conveses onde marinheiros ajustam radares e alinham vetores de tiro. A negociação avança porque há porta-aviões no horizonte, e os porta-aviões permanecem porque a negociação pode fracassar.
A história militar sugere que acordos firmados sob pressão armada tendem a ser provisórios. São armistícios sofisticados, não reconciliações definitivas. Ainda assim, provisório é melhor que irreversível. No mundo nuclear, a estabilidade é sempre relativa, mas a alternativa é absoluta.
Talvez a lição mais antiga seja esta: a força molda o espaço da palavra, mas não a substitui. Em Genebra, diplomatas escrevem sob a sombra dos mísseis. No Mar da Arábia, marinheiros navegam sob a expectativa de que a tinta prevaleça sobre o fogo. Entre a retórica e o aço, a política internacional continua sendo, como sempre foi, uma arte de administrar o abismo.
Nota: para aprofundar o tema: SCHELLING, Thomas C. The Strategy of Conflict. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1960. Essa obra é antiga, mas continua válida. E pode ser facilmente encontrada em PDF.