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  • Feira de Santana, quinta, 19 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

Entre muralhas e vazios: a nova geografia do poder em Feira de Santana

Wellington Freire - 19 de Fevereiro de 2026 | 07h 34
Entre muralhas e vazios: a nova geografia do poder em Feira de Santana

Há cerca de um quarto de século, a paisagem de Feira de Santana vem sendo redesenhada por um fenômeno persistente: a proliferação de condomínios fechados como forma privilegiada de moradia das camadas médias e altas. O que começou como alternativa pontual tornou-se paradigma urbano. Nesse processo, não apenas novos bairros surgiram, como nas áreas da Noide Cerqueira, do SIM e do Papagaio, mas uma nova lógica de cidade passou a se impor, alterando centralidades, fluxos econômicos e formas de sociabilidade.

A consequência mais visível é a produção de vazios. Bairros outrora símbolos de status e distinção, como a Santa Mônica, exibem hoje dezenas de casas fechadas, ruas silenciosas, fachadas degradadas. A sensação de insegurança cresce justamente onde antes residia a elite econômica local. Não se trata apenas de decadência material, mas de erosão simbólica: o prestígio territorial migrou. O capital imobiliário e o capital social deslocaram-se para além do traçado consolidado da cidade.

Esse movimento atinge também o coração da vida noturna. A Rua São Domingos, que concentrava os bares mais célebres, perdeu vitalidade. O epicentro da boemia elegante transferiu-se para a Avenida Fraga Maia, situada no eixo da expansão urbanística. O que era centro torna-se periferia funcional; o que era periferia transforma-se em nova centralidade. A cidade reescreve seu mapa afetivo.

Mas esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como resultado de escolhas individuais. Há forças sociais mais amplas em operação. Em primeiro lugar, a reconfiguração do mercado imobiliário nas últimas décadas, impulsionada por crédito facilitado, financeirização da terra urbana e estratégias agressivas de marketing, produziu um ideal aspiracional: viver em condomínio fechado passou a significar segurança, status e modernidade. A moradia tornou-se produto de consumo altamente segmentado.

Em segundo lugar, há a dimensão cultural da insegurança. Mesmo quando os índices objetivos não justificam pânico generalizado, a percepção de vulnerabilidade alimenta a busca por enclaves protegidos. O condomínio retoma, sob roupagem contemporânea, a velha lógica da cidade murada: controle de acesso, vigilância, homogeneidade social presumida. O espaço público, por contraste, é visto como território de risco. Assim, a rua, lugar clássico da convivência urbana, perde centralidade para o espaço privatizado.

Em terceiro lugar, a própria estrutura econômica da cidade média brasileira favorece esse deslocamento. A expansão horizontal, dependente do automóvel, permite que novas áreas se consolidem rapidamente como polos autossuficientes de comércio e lazer. A Avenida Fraga Maia não é apenas uma via; é a materialização de uma nova centralidade planejada para atender a um público específico, com bares, restaurantes e serviços alinhados a um perfil de consumo diferenciado. A sociabilidade acompanha o investimento.

Enquanto isso, a zona rural sofre pressão contínua. O avanço da mancha urbana ameaça dissolver limites historicamente estabelecidos entre campo e cidade. Terras antes dedicadas à produção agrícola tornam-se reserva de valor para loteamentos futuros. A paisagem rural, com suas dinâmicas próprias, corre o risco de ser absorvida como mera extensão imobiliária. A cidade cresce por incorporação, mas também por substituição: o que era espaço produtivo converte-se em mercadoria urbana.

Esse processo, observado em diversas cidades médias do país, revela uma tendência mais ampla de fragmentação socioespacial. A cidade deixa de ser organismo relativamente contínuo para tornar-se arquipélago de enclaves: condomínios fechados, centros comerciais especializados, corredores de consumo. Entre eles, vazios. A vitalidade urbana, aqui entendida como densidade de encontros, diversidade de usos, circulação espontânea, sofre abalos.

Há também implicações políticas. Quando parcelas significativas da população economicamente privilegiada se retiram do espaço público tradicional, a esfera comum enfraquece. Praças, ruas e bairros que perdem moradores e frequentadores perdem também capacidade de reivindicação e de cuidado coletivo. A insegurança percebida pode ser, paradoxalmente, resultado do esvaziamento: menos gente na rua significa menos olhos atentos, menos vida, menos laços.

Não se trata de demonizar a expansão ou o desejo legítimo de conforto e proteção. O problema emerge quando a lógica do refúgio substitui a lógica da convivência. A cidade, por definição, é espaço de fricção produtiva entre diferentes. Ao optar por enclaves homogêneos, a sociedade urbana arrisca reduzir essa fricção, empobrecendo a experiência coletiva.

Em Feira de Santana, como em tantas outras cidades brasileiras, parece estar em curso a formação de uma “nova cidade” superposta à antiga. A questão decisiva é saber se essa sobreposição resultará em integração ou em fragmentação permanente. Os vazios da Santa Mônica, o silêncio da Rua São Domingos e a vitalidade da Avenida Fraga Maia não são fenômenos isolados; são sinais de um rearranjo profundo das forças sociais, econômicas e culturais que moldam o espaço urbano. A história ensina que cidades são organismos resilientes. Mas também ensina que sua vitalidade depende da preservação e reinvenção do espaço comum.

Nota: sobre o tema em apreço sugiro o clássico estudo do urbanista MUMFORD, Lewis. A Cidade na História: suas perspectivas e transformações. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

 

  



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