A luta pela criação do Parque da Lagoa Salgada em Feira de Santana transformou-se em um inventário de frustrações e omissões. Enquanto a especulação imobiliária avança sobre as margens do manancial, o Código Florestal Brasileiro (Lei 12.651/2012) — que impõe faixas de proteção entre 30 e 500 metros — é sistematicamente ignorado. A tática de degradação é clara: o soterramento silencioso de nascentes, algumas delas reabertas pelo ex-secretário de Meio Ambiente, Sergio Carneiro, com quem conversamos. O crime ambiental ocorre sem o devido enfrentamento das diversas autoridades ambientais e sugere que a paralisia pública não é por falta de recursos, mas pela dificuldade política em confrontar supostos proprietários de uma Área de Preservação Permanente (APP). A cronologia do retardo é extensa e marcada por visitas midiáticas que nunca se converteram em canteiros de obras.
Em 2016, o então deputado
estadual e líder do governo Zé Neto, o
secretário de Meio Ambiente, Eugênio Spengler,
vereador Beldes Ramos (PT), o
coordenador do INEMA, Messias Gonzaga, reuniram-se para tratar sobre a
revitalização da Lagoa Salgada. Um conjunto de pessoas- do qual fiz parte, junto
com Frei Monteiro- estiveram visitando a lagoa.
Em 2017, o prefeito José Ronaldo
apresentou uma proposta ambiciosa, ocupando 100.000 metros, assinada pelo arquiteto Claudio Rôsevel, afirmando
que o parque “seria interligado por pequenas ilhas cobertas de arbustos,
intercaladas e ornamentadas por três chafarizes emergindo das águas”. O
feirense não ficou a ver chafarizes, apenas navios.
Em 2020, o ciclo de promessas foi
renovado pelo prefeito Colbert Martins, que anunciou um investimento de R$ 3
milhões para cercamento de uma área de 3km,
drenagem e lazer, plantio de
árvores da mata ciliar. A intervenção pública do governo ia “ possibilitar uma
nova opção de lazer onde existe a melhor visão de pôr do sol da cidade”. A intervenção
nas margens da lagoa começou a ser
realizada, mas os tratores deram duas voltas sobre si mesmo e foram embora, por
razões nunca explicadas.
Em 2024, o Parque da Lagoa
Salgada voltou à campanha do atual prefeito ( https://www.instagram.com/reel/C_30r2gSTfQ/
), mas ainda sem concretização após a posse.
Em 2026, na Câmara, o prefeito anunciou que havia
algumas dificuldades ( não reveladas), mas a obra estava prestes a ser
anunciada. Nós conversamos com o Secretário Carlos Brito, do Planejamento, que confirmou
faltar apenas um acordo, mas que sairia em breve.
Não é difícil imaginar o que tem
retardado essa obra essencial da cidade. Imagina-se que proprietários- e a saliva das construtoras- criem
dificuldades, mas o poder público tem o dever imperativo de proteger o cidadão
e o Ministério Público, por dever constitucional, apoiar o que for necessário.
O parque é de profundo interesse
público- drenagem de águas, resfriamento da temperatura, lazer, esporte, saúde-
e não pode mais ser empurrado para
diante. Não é aceitável que forças externas
retardem por mais de 10 anos a realização dessa obra, recordista de promessas.
O feirense merece ter direito a, enfim, contemplar “ a melhor visão de pôr do
sol da cidade”.