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César Oliveira

Carta ao Professor Geraldo Leite, em seus 100 anos

César Oliveira - 29 de Abril de 2026 | 13h 27
Carta ao Professor Geraldo Leite, em seus 100 anos

A primeira vez que o vi, Professor Geraldo Leite, foi no início dos anos oitenta; eu, jovem aluno de Medicina, cheio de certezas. O senhor, catedrático de Parasitologia na Bahiana — a “escolinha da ladeira” — falava-nos desses conterrâneos que nos parasitam.

Recordo-me, mais de quarenta anos depois, a aula em que afirmou que o Schistosoma tinha “reprodução assexuada”. A gente ria e achava muita besta desperdiçar a vida assim.

Por tempos, li notícias com seu nome nos jornais, mas só nos anos noventa o vi de novo em meu caminho. Passei em segundo lugar em um concurso na UEFS, a magnífica universidade que o senhor e outros criaram, e da qual foi o primeiro Reitor. Respondi a metade da prova em verso, confirmando que podia ensinar Fisiologia, mas era um péssimo poeta. Novamente, o senhor me dava régua e compasso.

Durante os anos em que coordenei o curso de Medicina, nunca deixei de pensar que estava lá por usufruir de suas lições e de sua criação. Muitos anos depois, por indicação — exagerada — das professoras Carlinda e Anaci Paim, entrei para a Academia de Educação de Feira, que também o tem como fundador. Do meu canto, percebi que essa extraordinária Academia, com seu elevadíssimo perfil de realizadores, respira sua influência e espírito.

Tornou-se mais fácil vê-lo em alguns eventos e na casa da Doutora Iracema. Nestes lugares, comenta-se com orgulho e voz alta suas realizações na Fundação José Silveira, na UEFS e na Academia de Letras do Rotary. Ouvi da imprescindível Marilene — funcionária número um da UEFS — como foi seu reitorado e como lá plantaram os primeiros pés de pau-brasil. A esse tempo, sua obra e disposição já tinham se tornado lenda, mas quero lhe contar de algo simples e corriqueiro.

Encontrei-o em um almoço de fim de ano da Academia. Evidente que o senhor era, aos 98, mais jovem que eu, que convivo apenas com as dúvidas. Ao chegar, cumprimentei-o com a reverência que nós, alunos, devemos manter com os grandes mestres. Sentei-me distante, ao lado do atual e dinâmico presidente José Raimundo, de onde podia observá-lo.

E vi o homem — enfim, o homem — com a paz de quem cumpriu seus propósitos; a sabedoria de quem, podendo ser soberbo, escolhe a brandura; podendo apenas receber, compartilha afetos. Aristóteles dizia que a excelência não é um ato, mas um hábito, e o senhor a construiu com maestria, sem se deixar ferir excessivamente pelas dificuldades.

Sei que, nas muitas homenagens por este centenário, falarão de sua excelência como médico, educador, reitor, diretor de instituições, membro de clubes de serviço e de seu espírito visionário. Certamente tudo é merecido, justo e belo. Também as faço, mas queria falar daquele almoço.

O senhor, ao lado de sua revitalizante Laudiceia — amor e motivo — chamou o garçom e pediu um chope. Espantei-me, não nego. E o vi bebê-lo, o chope simples, de forma alegre, genuinamente alegre, como se fosse uma especiaria, consciente do milagre da nossa existência. E, novamente, me senti aquele aluno, aprendendo sobre viver em sua aula.

Ontem, sozinho, ergui um brinde à sua vida. Peço apenas que me perdoe por ter sido com vinho — alunos, por vezes, divergem do mestre, mesmo os gigantes.

Obrigado e parabéns, Professor Geraldo Leite!



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