Um adulto e três adolescentes realizaram um estupro coletivo contra duas menores, de 7 e 10 anos, e divulgaram o vídeo na internet. A barbárie chocou até mesmo policiais experientes. É evidente que nem as crianças, nem seus familiares, terão uma vida normal ou uma trajetória sem perdas e danos após evento dessa crueldade. O adulto já foi preso — na Bahia —e um dos adolescentes ainda não foi capturado. Recentemente, outro grupo de jovens praticou ato semelhante contra uma adolescente no Rio de Janeiro- também filmado- e não mostraram arrependimento após serem presos.
Torna-se imperativo repensar o limite da maioridade penal,
ao menos para crimes tão terríveis, pois torna-se injustificável perante a
sociedade, os pais e as vítimas que esses jovens sejam postos em liberdade após
apenas três anos — um perdão inconcebível diante de uma lesão familiar
incurável.
Escrevo, contudo, não para cobrar justiçamento, mas para
compreender a pulsão social da pedofilia e da violência sexual contra menores.
Até que ponto o modelo de impunidade, a erosão dos costumes, o hedonismo e o
ambiente cultural e midiático de normatização sexual possuem responsabilidade? E
a adultização de crianças, um fenômeno
ainda fluido e sem definições objetivas, tem que impacto? Não se trata de buscar leniência ou
abrandamento da punição- ao contrário- mas de encontrar meios de repensar nossa
sociedade, nossos valores, o papel inibidor da lei e a educação, a fim de
evitarmos que esse tipo de tragédia se repita.
Essa recorrência de crimes aponta para uma falência
institucional e civilizatória que vai muito além da simples falta de segurança.
Quando adolescentes participam de uma barbárie dessas, eles sinalizam que o
valor da vida e da dignidade alheia foi suprimido por uma lógica de poder e
gratificação imediata. Essa pulsão é alimentada por uma sociedade que, sob o
pretexto de liberdade, muitas vezes flerta com o libertinismo e com a perda de
referenciais éticos sólidos.
O hedonismo sexual, que coloca o prazer individual acima de
qualquer barreira moral, desumaniza o próximo; a vítima deixa de ser um
semelhante e passa a ser um objeto de descarga de impulsos. No campo jurídico,
o debate sobre a maioridade penal no Brasil esbarra em visões que parecem
anacrônicas diante de crimes hediondos filmados e postos em rede mundial, ao
contrário dos países mais civilizados. A sensação de injustiça nasce
do desequilíbrio: a vítima carrega uma pena perpétua de trauma, enquanto o
agressor jovem, amparado por uma legislação que foca na ressocialização acima
da retribuição, retorna ao convívio social em um tempo que a consciência
pública considera insuficiente. Esse hiato entre a lei e o sentimento de
justiça gera um descrédito nas instituições.
Além disso, o ambiente midiático e a cultura de massa
desempenham um papel de pedagogia do vício. Quando a hipersexualização é a
norma e o limite é visto como algo repressivo, cria-se um terreno fértil para
que personalidades limítrofes testem os extremos da perversão. O papel inibidor
da lei deve ser a última barreira, mas ele só funciona se as barreiras
anteriores — a família, a educação moral e o senso de comunidade — estiverem
íntegras. Sem uma revisão profunda de como educamos nossos jovens para o uso da
tecnologia, para o respeito ao outro, e
sem um sistema legal que responda à altura da crueldade praticada,
continuaremos a enfrentar tragédias que destroçam o futuro de crianças. A
reforma deve ser tanto penal quanto cultural, atacando a impunidade jurídica e
a permissividade ética que sustenta esse ciclo de violência.