Longe deste colunista comentar a guerra com o conhecimento,
a agudeza e o refinamento textual do colega Wellington Freire — que realiza,
sem dúvida, a melhor cobertura do conflito na imprensa brasileira. No entanto,
é impossível não manifestar uma certa emoção epopeica ao observar os últimos
desdobramentos da invasão da Ucrânia pelo ditador Vladimir Putin. Em 480
a.C., Leônidas, rei de Esparta, comandou seu pequeno contingente de 300
soldados contra as hordas de Xerxes na Batalha das Termópilas. À exigência de
rendição — "Entrega tuas armas!" —, Leônidas devolveu o lacônico e
imortal: "Vem buscá-las!". Reza a lenda que, quando alertado de que
as flechas persas seriam tantas que "cobririam o Sol", a resposta foi
o ápice do estoicismo militar: "Melhor, combateremos à sombra".
A História, sempre caprichosa, encontrou um eco dessa
bravura em 24 de fevereiro de 2022. Quando Washington ofereceu uma rota de fuga
ao presidente Volodymyr Zelensky, após a invasão russa em larga escala, ele não
buscou o exílio seguro; buscou o destino. Sua resposta — "A luta está
aqui. Preciso de munição, não de carona" — tornou-se o marco zero da
resistência ucraniana. Quatro anos após o início da invasão, o que deveria ser
uma marcha triunfal de três dias transformou-se em um atoleiro existencial para
o Kremlin. A promessa de uma anexação rápida colapsou e a guerra agora ronda
Moscou através de drones, enquanto a insatisfação interna russa torna-se
inegável. Hoje, os dados são sombrios para o agressor: estimativas apontam que
as baixas russas ultrapassaram a marca de 1,2 milhão de vítimas, com 300.000
mil mortos, um preço de sangue que supera em muito o desgaste ucraniano.
No último ano, a vulnerabilidade russa ficou exposta. Putin
viu-se obrigado a recorrer a soldados da Coreia do Norte e protagonizou, no
último dia 9 de maio, o desfile da vitória mais pífio de sua história, com um
arsenal encolhido e o temor de ataques aéreos. Enquanto o ganho territorial
russo estagnou em menos de 1% no último período, a retomada ucraniana ganha
contornos de resiliência histórica. Zelensky enfrentou mais do que mísseis;
enfrentou o cinismo de figuras como Donald Trump, que chegou a humilhá-lo e
sugerir a entrega de territórios - em busca de um Nobel da Paz. Muitos
apontaram o líder ucraniano como um louco que sacrificaria seu povo,
esquecendo-se de que a dignidade de uma nação não se negocia.
A resistência do ex-comediante obrigou o Ocidente a
despertar para a gravidade de uma possível vitória russa, e seu gesto corajoso
universalizou uma guerra que muitos queriam ver apenas como local. De um modo
ou de outro, Putin já perdeu. Ele perdeu a influência, a modernidade, a
narrativa da invencibilidade, foi
condenado como criminoso de guerra e
revelou os pés de barro do país em uma guerra não atômica.
O tempo e a coragem ucraniana cobraram
seu preço ao invasor, agindo como um inverno russo às avessas que agora
congela as ambições imperiais do Kremlin. Ainda não sabemos o fim desta jornada
monumental, mas uma coisa é certa: assim como os espartanos, Zelensky e o povo
ucraniano decidiram que, se as nuvens do imperialismo cobrirem o céu, eles
simplesmente combaterão à sombra.