Saudade é que nem tocaia: pega a gente sem aviso ou trégua. É abismo sem fundo que fica nos chamando pelo nome. Ou como borboleta que esfarela o sereno com as asas.
Seja como for cada um tem
sua moagem dos miúdos e modo pra chamar pelo nome. Eu tenho do feito e até, bem
sei, do imaginado- essa com mais
extensão do que a outra, que meu verdadeiro é só o que imagino ter.
Amanheci, sem razão nem
porque, apinhado de saudades. Tenho por
natureza e defeito esse acumular caudaloso de memória e faltas. Sou desafeto do
esquecer e amiúde me pego esmiuçando o
inventário do que me sustenta sem perecer.
Saudade é assim: víscera
dissecada, sem diagnóstico ou causa para o doer.
Ou, talvez tenha sido,
porque fui na roça onde cresci e vi que as rosas que minha mãe cultivou- rosas
acostumadas a resistirem com ela-, continuam lá. É o modo que ela inventou de ficar comigo,
incerta (e com razão) de que já sei andar com minhas próprias pernas. Ou o capim
no pasto que o pai plantou, renascido depois que a cigarrinha o comeu; piso nele devagar, como se caminhasse em um céu ao avesso, o verde
cobrindo as vergonhas da terra.
Talvez porque enfeitei da cancela à porta de casa com bandeirolas, amarrei palhas de licuri nas
pilastras e armei a fogueira na entrada, pensando em meus filhos longe, aí
nessas terras que inventaram de pertencer. Orei baixinho para que nunca permitam que ela
deixe de arder em seus corações, mesmo que a lenha seca crepite se desfazendo —
e ainda que, ao final, tudo seja cinza. Lembro quando pediam ajuda para ver
todos os fogos de artifício que tocávamos atiçando seu baile de cores no céu. Vocês
cresceram e eu não.
Pode ser porque os amigos
tenham sua própria geografia e eu seja
avesso a lonjuras.
Quem sabe é porque minha
filha- essa invenção de alegria- tenha chorado ao arrumar as amostras de
remédio na gaveta do consultório que acaba de montar, depois de uma longa e
atribulada preparação e eu nem estava lá, refém de minhas distâncias.
Ou porque meu filho- essa
invenção do correto- tenha uma agenda de shows com sua banda e eu nem possa
ouvir sua guitarra contando os segredos e vontades de sua alma.
Pode ser que não seja
nada disso. Seja só eu mesmo, no silêncio, procurando qualquer pedaço de mim
que já se perdeu por aí ou que ainda hesita em vir.